Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões

Juliano Barreto · Capítulo 17 de 29

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Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões

Capítulo 15

 

O VOO DO GRANDE PÁSSARO (1980)

 

"Na vidis o vento que refresca cá, refresca lá também"

 

Desde que voltou a morar no Rio de Janeiro por causa da ida de "Os

Trapalhões" para a Globo, Mussum retomou sua vocação de sambista onipresente. Já atuando como diretor de harmonia da ala das baianas da Estação Primeira de Mangueira, frequentava os ensaios e fazia parte do dia a dia da escola, conhecia do porteiro ao presidente da agremiação e tinha amigos espalhados por todos os cantos do morro. Quando eram feitas à luz do dia, as visitas à favela causavam um tumulto entre as crianças. Elas cercavam a casa de Dona Neuma pedindo autógrafos ou simplesmente um aceno do ídolo da televisão. Na madrugada, indo de vendinha em vendinha como fazia no ϐinal da adolescência, o humorista só tinha o assédio dos amigos de antigamente.

Como praticamente em todos os programas de domingo dava um jeitinho de citar as pessoas e as coisas de Mangueira na televisão, a popularidade de Mussum na comunidade era enorme. Mas seus passeios e amigos não estavam restritos à Estação Primeira. Ele participava ativamente das atividades do Clube do Samba, movimento criado por João Nogueira, Alcione e Beth Carvalho para valorizar a música nacional em relação à invasão estrangeira da discoteca e do rock'n'roll. O Clube promovia festas de bambas no quintal da casa de João, recebia novos compositores e tentava formar uma unidade coesa dos artistas do gênero. Aspirações estratégicas à parte, rolavam hectolitros de cerveja, cachaça e aulas de samba com mestres de diferentes gerações como Cartola, Monarco, Martinho da Vila e Paulo César Pinheiro. Mais ou menos com essa mesma turma, o trapalhão criou o hábito de participar das rodas de partido-alto do Grêmio Recreativo Cacique de Ramos. O bloco carnavalesco do bairro da Leopoldina foi criado em 1961, tendo a Mangueira como madrinha, e era naturalmente uma extensão da escola, embora contasse com suas próprias cores, tradições e baluartes. Quando ainda nem sonhava em ser palhaço na TV, Carlinho do Reco-Reco já era assíduo participante das feijoadas e dos desϐiles do bloco. Vivia por lá com a belíssima Marina Montini, a "Mulata do Quarto Centenário", sambando e tomando seu mé. Ao longo do ano, sempre sob as folhas das enormes tamarineiras no centro da sede do bloco, ele era mais um dos formidáveis sambistas reunidos ali para beber, trocar ideias e composições, comer fartamente e, claro, fazer música de raiz.

Quando voltou ao Cacique, já no ϐinalzinho dos anos 1970, Mussum encontrou tudo exatamente igual. Ainda pouco conhecido fora do Rio de Janeiro, o espaço funcionava quase como um clube exclusivo para a nata dos sambistas do subúrbio, uma cápsula do tempo preservando o samba de roda de modismos e revisões. A diferença era que naquele momento, além dos ensaios para desϐiles e das feijoadas de ϐinal de semana, alguns dos integrantes da diretoria do bloco e seus amigos mais chegados começaram a fazer reuniões semanais, sempre nas noites de quartasfeiras. A ideia era juntar o pessoal, bater uma bola na quadra e, depois de suar um pouco, começar uma roda de partido-alto sem maiores pretensões. Nada de ingresso, palco, caixa de som e microfone. Só havia espaço para o improviso e o batuque mais tradicional. Era o paraíso na Terra para Mussum, um reencontro com o começo da sua vida de músico.

Junto com o trapalhão, os pagodes no Cacique atraíram outras personalidades da música e da bola. Por meio de Alcir, ex-jogador do Vasco da Gama, vários atletas dos times cariocas passaram a frequentar o encontro. A acanhada quadra recebeu craques badalados como Jairzinho, Marinho Chagas, Afonsinho, Brito, Nelinho, Perivaldo, Roberto Dinamite, Josimar, Renê, Édson de Souza Barbosa e vários outros. A lista de músicos famosos que visitavam as reuniões na Leopoldina era ainda maior, mas nenhum dos ilustres convidados foi tão importante quanto Beth Carvalho. Com um longo histórico de serviços prestados ao resgate e à divulgação do samba de raiz, a moça de Ipanema tinha o respeito e a admiração das Velhas Guardas de todas as escolas de samba e, no Cacique, foi a grande responsável por organizar a brincadeira e transformá-la em algo muito maior.

Antes de Beth, os sambistas e seus convidados nem pensavam em fazer algum petisco enquanto jogavam bola e tocavam. Kid Mumu da Mangueira e bela companhia viam o dia amanhecer enquanto secavam o estoque de cerveja da vendinha improvisada dentro do Cacique. O humorista gostava de intercalar as geladas com doses de conhaque; e quando este acabava, ia de pinga. E o menu da casa era esse mesmo. Se por algum motivo alguém quisesse tomar um refrigerante, teria que arrumar o refresco em outro lugar. A tamarineira, símbolo do bloco, além de abençoar espiritualmente o lugar, protegia o pessoal da chuva e do sereno, mas nunca serviu para fazer suco. Era biritis em cima de biritis, com biritis no meio. E biritis para fechar. Por isso a cantora começou a organizar churrascos e feijoadas para tornar o ambiente um pouco menos insalubre. O samba ganhou mais fôlego para ir até altas horas, e o pessoal mais boêmio só ia embora por volta das 11 horas da manhã, após mostrar suas músicas, ouvir as músicas dos colegas, repetir os sucessos mais antigos e começar tudo de novo a cada convidado que chegava. Foi no Cacique que o banjo com braço de cavaquinho, desenvolvido por Almir Guineto e Mussum, ganhou ainda mais destaque e passou a aparecer nas gravações de vários sambistas. E essa mesma turma criaria ainda outras improvisações, usando instrumentos adaptados ao pagode como o tantã, o repique de mão e o repique de anel.

Esse clima de amizade e bebedeira explica as origens de dois dos sambas mais famosos da história. "Vou festejar" tem letra de Jorge Aragão, Neoci e Dida, três crias do Cacique, e "Coisinha do pai" foi escrita por Almir Guineto, o irmão de Chiquinho dos Originais, Luís Carlos, aquele mesmo do hit de "Do lado direito da rua Direita", e Jorge Aragão. A coisinha tão bonitinha do pai valia mesmo ouro. Em 1979, a música estourou nas rádios com a voz de Beth Carvalho e teve seu lançamento na TV, com ajuda de Mussum, em um episódio de "Os Trapalhões". A cantora participava de uma roda de improviso, acompanhada por um improvável conjunto com Mussum no surdo, Didi no pandeiro, Dedé no violão e Zacarias no tamborim. Depois de fazer rimas com os palhaços, começava a cantar "Coisinha do pai" enquanto o quarteto fazia macaquices à sua volta. Brincadeira que impulsionou ainda mais a carreira de Beth e representou o primeiro grande sucesso de Almir e Jorge.

Tanto samba, tanta alegria, tanta amizade e, claro, tanto mé, ϐizeram brotar na cabeça de Mussum a ideia de retomar sua vida de sambista. Por mais que a carreira de humorista estivesse em sua fase mais elogiada, no fundo ele jamais deixou de considerar a si mesmo como um músico. A saída dos Originais havia deixado um buraco enorme em seu peito. Era sofrido ouvir as histórias dos amigos, fazendo shows em ginásios vazios e tendo compromissos cancelados quando os contratantes descobriam que o grupo estava desfalcado de sua principal estrela. Mesmo assim, o mangueirense sabia ser impossível o seu retorno à rotina puxada do grupo. Sem muita pressa, pensava em montar um novo conjunto ou mesmo partir para a carreira solo, mas isso não era o mais importante.

A RCA Victor também sentia falta de Mussum, artista com quem tinha contrato até 1984. Desde o começo da crise entre o músico e seus colegas de Originais, as vendas dos discos do conjunto despencaram. O último hit fora "O Aniversário do Tarzan", de 1978, mas a imagem do artista só havia ϐicado mais conhecida e mais querida desde então. A gravadora, assim, fez o convite para o disco solo, mas, apesar da vontade de aceitar, Mussum hesitou e disse não. Sabia que cantar não era seu forte e previa um eventual fracasso do disco, manchando sua reputação de sambista construída com tanto esforço nos últimos vinte anos. Outra preocupação era seu álbum ser confundido com um LP de piadas. O receio era justiϐicado, uma vez que os discos dos trapalhões faziam grande sucesso entre as crianças e, a essa altura, o lado comediante eclipsava seu cartaz de músico. Desconversou e prometeu dar uma resposta para a RCA qualquer dia desses, deixando o disco para mais tarde. Os produtores da gravadora, no entanto, sentiram que o velho Mussa estava balançado com a proposta e combinaram com ele o seguinte: faria as gravações na data que quisesse, com os músicos que escolhesse e com total liberdade para selecionar o repertório. As vantagens eram grandes demais para serem ignoradas. O contrato foi assinado e a carreira de músico estava prestes a ser retomada. Mas, antes disso, eram os compromissos da vida de estrela do cinema que surgiam com urgência na agenda. As lucrativas turnês de apresentações em circos e a crescente audiência na televisão – que consequentemente aumentava o valor dos merchandisings trazidos por Beto Carrero – rendiam uma vida confortabilíssima para o quarteto de palhaços, porém, o cinema ainda era a maior obsessão de Renato Aragão.

Por mais que tivesse liberdade para tocar "Os Trapalhões" na Globo, era nos ϐilmes do grupo que o cearense sentia-se realizado como artista e como empreendedor. Renato movimentava quantidades astronômicas de dinheiro. Em um mês estava correndo atrás da Ancine, da Globo e dos bancos em busca de empréstimos e de renegociações de dívidas e repasses. Chegava a vender alguns de seus imóveis. Logo em seguida, aparecia esbanjando fortunas após fechar acordos para divulgar programas do governo federal na abertura de seus ϐilmes. Lucrava bem mais que os outros três colegas de Trapalhões, mas trabalhava o dobro e corria o quádruplo de riscos. Esse ϐluxo de investimentos, lucros e prejuízos era constantemente motivo de reclamação do trapalhão líder em suas entrevistas. Quando perguntado sobre sua situação ϐinanceira, após tantos anos de seguidos recordes de bilheterias, respondia dizendo: "O Didi vai muito bem, o Renato é quem vai mal". Ninguém dava muita bola em relação ao dinheiro ganho ou perdido pelos trapalhões, mas uma nota na coluna de Ibrahim Sued em O Globo, em maio de 1980, mudaria definitivamente o foco do burburinho em torno do grupo.

Sued revelava que o humorista cearense havia acabado de fechar a compra da Granja Comary, em Teresópolis, região serrana do Rio de Janeiro. A imensa propriedade foi construída pelo milionário Carlos Guinle, pai do playboy Jorginho Guinle, e por lá se hospedaram até o Duque de Windsor, o presidente Getúlio Vargas e os atores Cary Grant e Kim Novak. Com quatro salões, 23 quartos, nove banheiros, sauna, piscinas, lavanderias, aviários e quilométricos gramados e jardins, a gleba dos Guinle não era apenas uma mansão com valor estimado em 5 milhões de dólares. Ela era um monumento à tradição e à pujança da alta sociedade carioca, não se tratava só de dinheiro. As dondocas da high society ϐicaram horrorizadas com o novo vizinho, inclusive hostilizando-o em eventuais encontros por acaso.

Por causa de toda a polêmica envolvendo a compra da mansão em Teresópolis, Os Três Mosqueteiros Trapalhões foi ϐilmado com toneladas de referências ácidas à ganância dos mais ricos, tendo até uma cena em que uma festa de gala acaba com pessoas se estapeando no chão para pegar diamantes. O ϐilme usou como locação principal a própria Granja Comary e também fez propaganda das belezas naturais de Manaus, Foz do Iguaçu e do Rio de Janeiro sob encomenda do governo. Estreou nas férias de julho da molecada e arrastou 4,2 milhões de pessoas aos cinemas. Dessa vez, no entanto, a velha discussão da imprensa sobre a falta de originalidade dos ϐilmes contrastando com seus recordes de bilheteria deu lugar a especulações sobre como o dinheiro obtido nas bilheterias era dividido. No inconsciente coletivo começava a fermentar a ideia de que Renato Aragão estava podre de rico enquanto os outros três trapalhões levavam vidinhas simplórias.

Na verdade, Renato ϐicava com 50% dos lucros obtidos no cinema, enquanto Dedé, Mussum e Zacarias dividiam o restante em partes iguais numa soma nunca menor que 20% dos lucros. Na Globo, os salários eram negociados individualmente e a receita com propaganda era paga em forma de cachê. Já o pagamento pelos shows em circos e ginásios pelos rincões do Brasil era feito de acordo com a participação de cada artista. Se Renato não ϐizesse parte do espetáculo, não ganhava nada. Se participasse, dividia igualmente o bolo com os colegas. Havia ainda os contratos de licenciamento da marca Os Trapalhões, um ponto delicado da parceria, uma vez que o nome do grupo era de propriedade da Renato Aragão Produções e o direito de uso da imagem dos personagens, por meio de desenhos ou fotos, devia ser pago e repassado para cada um dos três comediantes. Para administrar essas questões, Dedé, Mussum e Zacarias fundaram a DeMuZa Produções Artísticas e Cinematográ ϐicas. Assim, não precisariam preocupar-se com a parte burocrática da coisa e podiam aproveitar os milhões de cruzeiros que estavam ganhando. Mesmo dividindo uma parte menor do faturamento dos trapalhões, dinheiro era o que não faltava.

Dedé investia em imóveis na Barra da Tijuca, Mauro morava em um confortável apartamento em Copacabana e comprou um sítio em Minas Gerais, e Mussum, além de fazer constantes reformas para incrementar a casa de Jacarepaguá, trocava de carro várias vezes por ano. Não conseguia dizer não para os velhos amigos que apareciam com ofertas mirabolantes e acabava fazendo negócios por impulso. Foi mais ou menos assim que decidiu vender sua casa na estância de Miguel Pereira, propriedade comprada menos de um ano antes e que contava até com acesso a um lago, para reinvestir o dinheiro em uma casa na Ilha da Gipoia, em Angra dos Reis. A ideia surgiu, como sempre acontecia, pela in ϐluência de algum cumpadi. Nesse caso, a história começou entre um bate-papo e outro com Geraldo Freire de Castro Filho, o popular humorista Castrinho. No auge do sucesso com o personagem Cascatinha, do programa "Chico City", Geraldo viajava pelo Brasil fazendo shows em circos, ginásios e teatros, cobrindo o mesmo circuito infantil dos trapalhões. Muitas vezes os humoristas faziam apresentações na mesma cidade ou até no mesmo palco. O desajeitado garoto Cascatinha era muito popular entre as crianças e servia perfeitamente para esquentar a plateia para a entrada apoteótica de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias.

Durante essas turnês, Mussum e Geraldo começaram a ϐicar bastante amigos. Ambos curtiam tomar um bom uísque, fumar charutos depois dos shows e, assim, tentar descansar um pouco durante a apertada rotina de viagens por estradas esburacadas e diversas sessões do mesmo show. Também muito palhaços fora do palco, os dois costumavam xingar um ao outro, em clima de galhofa juvenil. Quando Castrinho provocava o colega chamando-o de negão ouvia rapidamente como resposta um "Negão é sua mãe, seu anão ϐilho da puta!". Mas não ϐicava por aí.

Em um momento de intimidade forçada dentro de um dos camarins improvisados nos pequenos ginásios em que os trapalhões e Cascatinha faziam seus shows, Castrinho notou que o pênis do colega era coberto por manchas brancas, como se tivesse vitiligo. A partir daí, o sacana parceiro de palco passou a chamar Mussum de Malhado, um dos apelidos mais odiados pelo mangueirense. A raiva não era por não conseguir devolver a provocação em grande estilo, mas sim pelo enorme constrangimento de ter de ouvir Castrinho explicando para Deus e para o mundo a origem da brincadeira.

Dessa amizade, cada vez mais forte, surgiu o convite para conhecer a recém-comprada casa de Castrinho em Angra. O baixinho havia descoberto as praias particulares de areia branca e água azul -turquesa do arquipélago de Angra e Mussum não costumava recusar um convite para ir à praia. Faltava tempo para fazer a visita, mas quando o mangueirense ϐinalmente colocou seus pés nas paradisíacas praias do litoral sul do Rio, decidiu que compraria uma casa ali e, algumas semanas depois, já estava assinando os papéis para ser o proprietário de uma casa de frente para o mar da Ilha da Gipóia, na Praia do Calhau, avaliada em mais de Cr$ 500 milhões.

Ser proprietário de um imóvel na região não era coisa para qualquer um. Entre os novos vizinhos do trapalhão estariam Boni, Ivo Pitanguy, o mais badalado cirurgião plástico dos anos 1980, e outros milionários. Manter uma casa ali signiϐicava lidar com os custos da geração de energia e do transporte, uma vez que para acessar o local era preciso de uma viagem de, pelo menos, 30 minutos de barco. Mas nem a so ϐisticação dos vizinhos nem o isolamento tão prezado pelos ricaços fez Mussum mudar seu jeito de ser, a começar pela compra do seu primeiro barco. O vendedor, acostumado a lidar com os milionários de Angra, jogou o preço da embarcação lá no alto. O sambista então disse que, por aquele valor, teria que levar dois barcos. Pensando ser piada, o vendedor caiu na gargalhada, mas, no ϐinal da transação, o humorista concretizou o negócio da forma como queria. Pelo mesmo dinheiro, comprou uma lancha e levou uma traineira, com motor toque-toque, de bônus.

As diϐiculdades naturais da vida na Ilha Gipóia também não impediram Mussum de levar um pedacinho da Mangueira para o arquipélago dos ricaços. Do seu jeito característico, em vez de ϐicar quieto em sua mansão, ϐicou amigo dos pescadores da ilha e transformou o Bar do Luiz Rosa, um pequeno boteco rústico todo feito de madeira, em uma autêntica vendinha de favela. No verão, gostava de andar à vontade pela Ilha da Gipóia, geralmente descalço, com a camisa aberta e a barba por fazer – tanto que depois das férias voltaria ao trabalho ostentando um bigode.

A grande diversão começava no ϐinal da tarde de sexta-feira, com a preparação de um garrafão de pinga com mel e limão que ele levava para o barzinho, para tomar com quem quer que estivesse por lá. Sua companhia podia ser os amigos do Fundo de Quintal, os nativos caiçaras da região ou até as celebridades que passavam ϐinais de semana nas ilhas, como a atriz Sônia Braga ou o próprio Boni. Depois de encharcar, bebendo pinga e cerveja sem parar até o começo da madrugada, era hora de cair matando nos generosos pratos de xerelete (pescado ali mesmo) servido com arroz e batata frita. Feita a refeição, a farra continuava madrugada adentro na casa de Mussum, com rodas de samba frequentadas pela nata dos ritmistas e compositores, quase como em uma versão praiana das reuniões de quarta no Cacique de Ramos. O an ϐitrião divertia-se tentando deixar seus convidados o mais bêbados possível. Preparava mais uma rodada de pinga com mel e limão, colocando a mistura em um grande bule de café e passando o goró de mão em mão até acabar. A farra era tanta que Mussum até virou padrinho de um bloco de carnaval em Angra, o Sindicato dos Biriteiros. A humildade no jeito de tratar as pessoas e a alegria de encontrar o prazer nas coisas pequenas e simples da vida estavam intactas, mas era impossível negar o quanto a vida havia melhorado.

Nesse clima de plena felicidade, após um criterioso processo de escolha do repertório das muitas viagens para as ϐilmagens de Os Três Mosqueteiros, Mussum entrou nos estúdios da RCA Victor sob o comando do maestro José Briamonte para gravar seu primeiro disco solo, embora continuasse receoso por soltar a voz sozinho pela primeira vez. Nos Originais do Samba, quem fazia as vezes de solista era Bidi e, mesmo quando cantava em coro, Mussum sempre era amparado pelos outros cinco companheiros. Dessa vez, sentindo que sua a ϐinação não era lá essas coisas, decidiu então usar a ajuda de backing vocals o máximo possível e cantar miudinho, mais Martinho que Jamelão. Também apelou para a ajuda de amigos talentosos, como o próprio Martinho da Vila, que cantou junto do trapalhão na música "Teatro brasileiro".

A preocupação de ter o álbum de samba confundido com um disco de piadas foi dirimida sem muito esforço. Da primeira até a última faixa, Mussum mostrava uma cancha de comediante experiente, brincando e fazendo comentários engraçados no decorrer das letras. Quem por ventura se enganasse na compra, acabaria dando risada do mesmo jeito. Na introdução de "Descobrimento do Brasil", um samba-enredo do Salgueiro de 1962, há uma rápida participação de Didi, Dedé e Zacarias, com Kid Mumu ϐingindo ser um atencioso professor de história regendo um coro de crianças. Em "Nega besta", uma das pérolas do LP, é relatado em ritmo de Bossa Nova o romance de Mussum com uma "crioula toda americanista", que tem a boca torta e diz que fala inglês. Bem solto na gravação, o mangueirense até arrisca o refrão de "The Old Fashioned Way", hit gravado pelo francês Charles Aznavour, e desϐila uma série de versões para palavras estrangeiras, expandido o seu vernáculo internacional com traduções como housis, mortandoela, coca-cuela, biscueito, brékefasti, californis...

"A vizinha (Pega ela peru)", canção escolhida por Mussum e pela gravadora como música de trabalho, era praticamente uma descrição musicada de um quadro de "Os Trapalhões". Na letra de Paulinho Durena e Alfredo Melodia, desenrola-se a história de duas candinhas que fofocam pela vizinhança. Uma delas começa a apelidar sua inimiga de peru. Na época, vale explicar, ainda era normal comprar aves vivas nas granjas e abatê-las no quintal. Geralmente os perus, por serem bichos grandes e às vezes até meio enfezados, eram embebedados com cachaça para dar menos trabalho durante o processo. A música prossegue assim: "Dona Maria tá com bronca da vizinha / E manda a mesma pra tudo quanto é lugar / Mas a vizinha, osso duro de roer / Chama a Maria de maria-vai-com-as-outras / Mas Dona Maria começou a imaginar / Um apelido que não fosse popular / É aí, quando a vizinha enche a cara de Pitú / E passa na esquina é o maior sururu / Pega ela peru! / Pega ela peru!". Embora Mussum tenha caprichado no restante das faixas, gravando ao lado da cantora Márcia "Um amor em cada coração", samba inédito de Baden Powell e Vinicius de Moraes, e apostando em boas composições do pessoal do Cacique, com Almir Guineto, Jorge Aragão e Neoci assinando letras, "A vizinha" foi mesmo o grande sucesso do álbum. A música foi lançada com um clipe hilário no Fantástico. Em um cenário típico de favela, com barracos grudados um no outro e uma vendinha no meio, Mussum, Marina Miranda e Tião Macalé dão vida à história da "Peru" com direito a muitas caretas, tapas e palhaçadas.

"Mussum", o disco solo, não chegou a ser um estouro de vendas, mas "A vizinha" fez sucesso o su ϐiciente para virar uma das músicas mais tocadas no carnaval de 1981 e mostrar que dentro do trapalhão ainda havia um grande sambista, se bem que o grande sambista mantinha sempre o comportamento de trapalhão. Quando perguntado sobre para quem ele dedicava o seu primeiro disco, a resposta era sempre: "Não conheço ninguém que mereça esse castigo!"

Próximo da chegada do álbum às melhores casas do ramo, veio o lançamento de O Incrível Monstro Trapalhão e, de novo, a carreira de humorista ocupou todo o espaço da vida de sambista, fazendo com que Mussum não chegasse a excursionar com as músicas de seu álbum solo. Mais do que tomar o seu tempo, o ϐilme trouxe um bocado de chateações e a primeira onda de críticas direcionadas exclusivamente para seu trabalho como humorista.

Na história de O Incrível Monstro Trapalhão , Renato é Dr. Jegue, um cientista maluco capaz de transformar pés de marmeleiro, uma planta típica do Nordeste, em um combustível de alta potência. O feito, na verdade, foi alcançado na vida real pelo sobrinho de Renato, Afrânio Aragão Craveiro, responsável pela cadeira de Química na Universidade Federal de Fortaleza. De fato, Afrânio provou que o teor de octanagem da planta era superior ao da gasolina, mas, além da inspiração familiar, o motivo de falar de combustível no roteiro do ϐilme era o patrocínio do governo brasileiro, interessado em incentivar o programa Pró-Álcool. Por isso, a versão trapalhônica de O Médico e o Monstro tem como eixo a disputa de um campeonato de corridas de automóveis em Interlagos. O personagem de Renato trabalha junto dos mecânicos Kiko (Dedé), Sassa (Mussum) e Quindim (Zacarias) na escuderia dos mocinhos, enfrentando um time de pilotos trapaceiros e gangues de estrangeiros interessados em roubar a fórmula do novo combustível. Ninguém reclamou da propaganda política porcamente disfarçada na ϐita infantil, mas um simples diálogo entre Dedé e Mussum despertou a ira de muita gente. Logo nos primeiros minutos do ϐilme, Kiko está na garagem tentando consertar o motor de um carro. Nervoso com as trapalhadas de seus colegas, começa a dar broncas, procura ferramentas para erguer o automóvel e grita:

— Cadê o macaco? Onde é que está o macaco? O macaco está aí?

— Tô! Mas macaco é a tua mãezis!, responde Sassa, tirando a cabeça de baixo do fosso onde o carro estava reparado.

— Estou falando do macaco, aquele que ϐica embaixo do carro, retruca Kiko.

— E eu estou aondis? — encerra o assunto o mecânico negro.

Não era a primeira e nem seria a última piada racista feita em "Os Trapalhões", mas, nessa época, tudo o que os comediantes faziam ganhava uma repercussão tão grande quanto o alcance de seus programas e ϐilmes. Reϐlexo de uma audiênca que chegou, em 23 de setembro de 1980, a um pico histórico no Ibope, representando 80% dos televisores ligados no país. Se lançar uma música com um clipe no humorístico de domingo da TV Globo era quase certeza de sucesso de vendas, a lógica também valia para as gírias, brincadeiras e bordões usados no programa. Didi falava ou fazia algo no ϐinal de semana e, na segunda-feira, a molecada já estava comentando e imitando na hora do recreio. Essa relação com as crianças foi apontada como maior problema para as brincadeiras racistas. Centenas de cartas chegaram ao serviço de atendimento ao telespectador da Rede Globo acusando Renato Aragão de racista e dizendo que Mussum era um alienado por colaborar passivamente com aquilo. Até associações de defesa da igualdade racial se manifestaram contra o ϐilme e pediram que os trapalhões ϐizessem uma retratação pública pela piada. Entre os palhaços, a hipótese sequer foi cogitada. A gritaria logo passou pelo simples fato de a maior parte da sociedade nem entender o que havia de errado no caso. A ϐinal, o humor baseado em ofensas preconceituosas visto na TV era uma reprodução da vida real – com a ressalva de que o comediante rebatia todos os xingamentos, enquanto os negros nem sonhavam com a mesma liberdade nos seus empregos.

Quando Mussum era provocado ao ser chamado de Azeitona, Azulão, Cromado, Fumaça, Fumacinha, Fumê, Fuscão Preto, Galega Azul, Grande Pássaro, Kuta Kintê, Morcegão, Nega da boca do tubo, Urubu sem asa, Tia Anastácia ou Velho Zuza, rebatia ironizando as origens de Renato, xingando-o de Cabecinha de aeroporto, Cabecinha de bater bife, Cabecinha de cinzeiro, Coroinha do Padre Cícero, Crooner de orquestra de forró, Fabricante de jabá, Jumentinho cearense, Jangadeiro, Mandioqueiro, Mandioca Futebol Clube, Pança-seca, Paraíba, Ô do jabá ou Strogonoff de carne-seca. O mangueirense chegou até a compor uma marchinha para azucrinar seu chefe: "No Ceará ele cresceu / Com farinha ele se criou / Jabá com coco ele comeu / O Didi chegou! / O Didi chegou!".

Dedé entrava na brincadeira e ouvia desaforos por tudo quanto era motivo, num bullying que variava o alvo entre a pobreza de ser niteroiense, sua suposta falta de masculinidade ou sua péssima forma ϐísica. Isso acontecia tanto no ar quanto nos bastidores e a criatividade nas ofensas era tão grande que ofendido e ofensor caíam na risada juntos com as provocações. Apenas Mauro, mais reservado e discreto, não entrava na troca de insultos. Nem na tela como Zacarias nem na vida real aquilo combinava com sua personalidade afável, seu papel era muito mais o de conselheiro e amigo do que de companheiro de fuzarca. As acusações de ser alienado e de fazer apenas papéis de personagens subalternos também era infundada. É verdade que Mussum interpretava mendigos, ladrões, malandros, bebuns, faxineiros, mordomos, mecânicos e mulheres com roupas de prostituta. Mas tão comum quanto esses tipos, são as atuações como rei, general, policial, médico, advogado, empresário, velhinho, velhinha, criança e todo tipo de trabalhador. Nas telas, viveu mais de uma vez tanto Deus quanto o diabo. Ainda vale lembrar a obsessão de Renato Aragão com Bonga, seu personagem pobre, de roupas rasgadas e sem ter onde morar. Se até o líder do grupo preferia fazer crítica social e protagonizar tantos quadros e ϐilmes como mendigo, não faria sentido qualquer um dos integrantes brigar para viver ricaços na tela. "Estou aqui fazendo humor e não tese política para defender classe", respondeu Mussum quando perguntado sobre sua atuação enquanto negro na TV.25

Até mesmo o incômodo de ver uma piada racista associada a um ϐilme infantil era fora de hora. Se os grupos quisessem reclamar da exposição de material preconceituoso em produtos destinados às crianças, deveriam correr para tirar das bancas os gibis dos Trapalhões. Desde a fase iniciada em 1979, a revistinha trazia histórias independentes do programa de TV, com um humor pouco recomendado para garotos recém-alfabetizados. Quando não estava transformado na Nega Maravilha em sátiras aos super-heróis americanos, Mussum era constantemente desenhado consumindo ou procurando mé. Sem falar nos quadrinhos com temáticas mais adultas, como o Didi reclamando do preço da gasolina e da in ϐlação ou o Dedé tentando arrumar um encontro ocasional com alguma gatinha. Em um especial para as férias de verão, a revistinha descrevia as praias do Rio como excelentes lugares para "nadar, tomar sol, jogar bola e ser assaltado".

Perguntado pela mídia sobre o racismo, Mussum tratava o assunto como algo menor. Jamais revelava o quanto sofria com as ofensas que chegavam misturadas no meio da correspondência dos fãs. Os trapalhões recebiam, em média, 200 cartas por semana e muita gente aproveitava para xingar o humorista de coisas bem piores do que macaco. Mesmo assim, ele dizia nunca ter sido vítima de preconceito e que o Brasil não era um país racista, pois qualquer cidadão disposto a estudar e trabalhar seria respeitado. Sua opinião o ϐicial era a de que a maior chaga do povo era a falta de educação. "O único círculo social que me interessa é uma banheira redonda que estou instalando em casa", declarou quando perguntado se existiam camadas da sociedade mais ou menos preconceituosas. 26

Na vida real, o comportamento do cidadão Antônio Carlos Bernardes Gomes era bastante diferente. Amigo e grande admirador dos artistas negros mais engajados, como Milton Gonçalves e Jorge Coutinho, passou grande parte da carreira de músico divulgando a cultura afro-brasileira por meio de gravações com ritmos folclóricos e letras inspiradas em histórias das senzalas – sempre chamadas de cativeiro. Não tinha vergonha de ser negro e não aceitava ser chamado de crioulo ou de negão em nenhuma hipótese. Dedé, amigo íntimo, era o único a ter essa autorização, mas, mesmo assim, ouvia sempre o tradicional:

— Negão é a tua véia!

Polêmicas à parte, O Incrível Monstro Trapalhão foi recebido pela criançada como de costume, sendo a grande atração das férias e mantendo-se na mesma marca de 4,2 milhões de espectadores das outras produções mais recentes. Financeiramente, o negócio também compensou. O patrocínio governamental e os custos reduzidos da realização – em comparação com os efeitos especiais de Os Trapalhões na Guerra dos Planetas e com as locações de O Rei e Os Trapalhões –, resultaram em um bom lucro para Renato, Dedé, Mussum e Zacarias. Era um bom começo para o ano em que seria comemorado o aniversário de

15 anos de "Os Trapalhões".

25. Revista Veja, 12/09/1979.

 

26. Folha de S.Paulo, 02/02/1981.