Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões

Juliano Barreto · Capítulo 23 de 29

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Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões

Capítulo 21

 

 

LARGA MEU PÉ, REUMATISMO (1989)

 

"Vejo um buraco negro. Negro e apertadis"

 

Enquanto colhia os frutos da bem alinhada estratégia de branding

para a marca dos trapalhões, o grupo deixou de perceber as mudanças que ocorriam na televisão brasileira naquele ϐinal dos anos

1980. A Globo seguia soberana nos índices de audiência, mas a concorrência – interna e externa – acabaria afetando toda a grade de humor da emissora. O episódio inicial desse novo momento foi a ida de Jô Soares para o rival SBT. Após 13 anos de sucesso no canal da família Marinho, o comediante cansou de ter protelados seus pedidos para a produção de um talk show. Na casa nova, continuaria a fazer graça no "Veja o Gordo" e teria liberdade para montar seu "Jô Soares Onze e Meia". A direção da Globo não gostou nada da mudança e inventou a "Tela Quente" no mesmo dia e horário do novo programa humorístico, colocando sempre atrações de grosso calibre para acabar com as chances de sucesso do ex-funcionário. Em noite de exibição de "Veja o Gordo", por exemplo, a Globo exibia blockbusters do naipe de Os Caçadores da Arca Perdida , recrutando Indiana Jones para destroçar a audiência do novo concorrente.

A partir daí, estava declarada aberta uma temporada de retaliação mútua entre as emissoras. Pelo lado da Globo, Boni convocou Beto Carrero para sondar o apresentador Augusto Liberato a respeito de uma troca de canal. Gugu gostou da ideia e aceitou o convite. Chegou a assinar um contrato e anunciar sua estreia em uma atração ainda sem nome de ϐinido nas tardes de sábado. Faltava apenas acertar a situação com Silvio Santos, mas o Homem do Baú não aceitou a decisão e foi pessoalmente até a sala de Roberto Marinho fazer um ultimato. Prestes a realizar uma cirurgia que o deixaria fora por alguns meses, Silvio não teria um substituto para tocar a programação de domingo e seu canal ϐicaria praticamente à deriva. O poderoso Roberto Marinho respeitou o concorrente e Gugu ganhou um aumento de dez vezes seu salário para ϐicar na emissora paulista, mas o clima belicoso entre as rivais não ϐicaria apenas por aí.

Para responder ao assédio da Globo a Gugu, a direção do SBT preparou uma proposta milionária para tirar Dedé, Mussum e Zacarias de "Os Trapalhões". A ideia era aproveitar os boatos de que o programa dominical do quarteto estava com os dias contados por causa do projeto Novo Humor, uma polêmica iniciativa da direção da Globo para renovar seu elenco e suas atrações da linha de comédia. Após o SBT ser reforçado pelo "A Praça É Nossa", de Carlos Alberto de Nóbrega, e pelo "Veja o Gordo", de Jô Soares, Boni ordenou que fosse feita uma cruzada para reunir as mentes mais brilhantes da nova geração do humor nacional. O primeiro resultado dessa iniciativa foi ao ar às terças-feiras com o nome de "TV Pirata" – um enorme sucesso de crítica capaz de enciumar até o intocável Chico Anysio.

Com uma edição frenética, piadas com referências reϐinadas e muito nonsense, a atração apostava em um elenco formado por atores de teatro e em quadros que iam mudando completamente o programa a cada semana. Em comum entre um episódio e outro só a metalinguagem na forma de enxergar uma fórmula para satirizar a televisão dentro da própria televisão. Para "Os Trapalhões", era como se o fantasma do "padrão Globo de qualidade" voltasse das catacumbas dos anos 1970. A direção da Globo decidiu que os novatos deveriam fazer brainstorms e propor novos quadros, personagens e programas para todas as atrações da casa. Com mais de 20 anos na ϐina arte do pastelão, Dedé, Mussum e Zacarias estavam preocupados. Apesar de todo o sucesso nos cinemas e nos palcos, eles temiam viver na dependência de Renato Aragão. Sempre preocupado em renovar o programa e o elenco dos ϐilmes, para acompanhar as mudanças de gosto do público jovem, o cearense poderia muito bem diminuir o espaço do trio quando chegasse a vez de "Os Trapalhões" serem afetados pelas avançadas ideias dos roteiristas do projeto Novo Humor.

Como essa preocupação não chegou a se justiϐicar, o contrato do SBT foi engavetado. Antes mesmo de qualquer alteração na vida televisiva dos trapalhões, Chico Anysio lançou uma ofensiva contra a "TV Pirata" que fez a Globo renovar com boa parte dos humoristas da emissora, com direito a vantagens e garantias inexistentes nos contratos anteriores. O acordo foi feito após uma lavagem de roupa pública, quando Chico sentiu-se contrariado por não ter seu pedido de ser oϐicializado como superintendente de humor da Globo aceito. Em diversas entrevistas, o humorista fez ataques diretos aos colegas. "O que eles fazem é uma sátira à televisão e isso eu fazia em 1959. Não acredito que o programa tenha vida longa." E arrematou com a famosa máxima: "Se a minha empregada doméstica não entende a piada, não vai fazer sucesso". Para o criador de Bozó e Alberto Roberto, a redação dos piratas era "fecal" e "elitista demais para a TV", e os diretores novatos formavam uma "panelinha" que excluía atores antigos disponíveis no elenco, muitos deles órfãos da saída de Jô.38

A Globo, dessa forma, sentiu que deveria fazer uma transição lenta e gradual de seu quadro de comediantes – muitos deles com carreiras iniciadas ainda no rádio – introduzindo as ideias dos novatos sem melindrar as estrelas estabelecidas. Até porque, nas medições do Ibope, o "Chico Anysio Show" tinha 62% da audiência de seu horário às quartasfeiras e "Os Trapalhões" seguiam com um share superior aos 55% nos domingos. A "TV Pirata" também não ia mal às terças, mas raramente alcançava mais de 45% de média. Eram índices confortáveis se comparados com os menos de 10% de média de "A Praça É Nossa", os 5% de "Veja o Gordo" e os constantes traços obtidos por Agildo Ribeiro na Bandeirantes. O processo de renovação engatou uma marcha lenta, e isso era melhor para os trapalhões.

No meio dessa briga, Renato Aragão posicionou-se de forma diplomática, sem comprar briga com nenhuma das duas alas. Por um lado, continuava aceitando a supervisão e os conselhos de Chico Anysio, por outro, alugava os estúdios da R.A. Produções para as gravações dos primeiros programas da "jovem guarda do humor", como "TV Pirata" e o "Doris para Maiores". Deixou as portas abertas para as sugestões da turma dos recém-contratados da Casseta Popular, mas, por outro lado, emplacou como novo diretor do programa o veteraníssimo Wilton Franco, também conhecido como "o inventor dos trapalhões". Dessa mescla, saiu a ideia de apresentar "Os Trapalhões" ao vivo do Teatro Fênix. Soava moderno e dinâmico, mas, na verdade, era exatamente o que os humoristas faziam nos anos 1960, antes do advento do videotape. Franco era o cara certo para o projeto e as trapalhadas entraram, após anos de mesmice, verdadeiramente em uma fase diferente. Didi, Dedé, Mussum e Zacarias entravam no palco vestindo seus uniformes de show e brincavam com a plateia e com os músicos convidados o tempo todo. O improviso reinava e, quem vacilasse, acabava tomando ovadas ou tortadas na cara, mesmo que o texto não indicasse isso. Roberto Guilherme e Tião Macalé eram as principais vítimas. Para delírio do público e dos próprios trapalhões, o Nojento, sempre meio desligado, era colocado em caixas e jogado do cenário ou tomava saraivadas de bolos de creme e banhos de água fria. Ainda eram exibidas enquetes entre um bloco e outro, mas elas serviam mais para não desgastar as piadas de picadeiro, dando mais variedade aos blocos. Com o novo formato velho, as gargalhadas das crianças na plateia davam provas de que o humor dos trapalhões não precisava mudar tanto assim para emplacar nos anos 1990.

Nos negócios, após a turbulência causada pelos problemas da DeMuZa, Dedé, Mussum e Zacarias atravessavam uma nova fase de bonança. Montaram a ZDM Produções Artísticas Ltda. e fugiram dos erros anteriores. Dividiam em 50% a participação nos lucros dos produtos dos Trapalhões e, em apenas um ano, arrecadaram o equivalente a 3 milhões de dólares. Com ajuda de Renato Aragão, estruturaram uma empresa focada nos shows e acompanharam os licenciamentos e projetos cinematográϐicos sem interferir muito. Em menos de dois anos, Mussum conseguiu recuperar-se ϐinanceiramente e voltou a comprar uma belíssima casa de praia e novas lanchas para passear por Angra dos Reis. Desta vez na parte continental da cidade, na região da Gamboa, a propriedade tinha uma arquitetura moderna, com uma corrente d'água passando por um espaço vazado no meio da sala de estar. Suas lanchas recém-compradas, e novamente batizadas de Neila, eram uma Cigarrete de 42 pés, pintada com detalhes em verde e rosa, e uma Carbrasmar de

26 pés do tipo cabinada. Por lá, assistia aos ϐilhos brincarem de jet ski, dava passeios de lancha e fazia almoços, preparando ele mesmo camarão na moranga e distribuindo bourbon Jack Daniels aos amigos como se fosse Pitú. A Brahma gelada rolava solta, mas também adorava uma Malzbier e curtia degustar cervejas importadas, como a japonesa Sapporo e a lager holandesa Grolsch, famosa pelas garrafas verdes vedadas por uma tampa de porcelana. O gosto por cachimbos e charutos não era menos soϐisticado. Após o jantar, bebia um cálice pequeno de licor francês Mandarine Napoléon, feito à base de conhaque e laranjas, e abria seu estojo de madeira climatizado para escolher entre cubanos Cohiba, suíços Davidoff ou baianos Dona Flor.

Preservando as amizades dos tempos de Aeronáutica, Mussum tinha acesso fácil a produtos importados que não eram vendidos oϐicialmente no Brasil. Muitos dos ex-colegas haviam se tornado pilotos comerciais e traziam as encomendas para o mangueirense "dentro da cabine". Assim, Mussum formou sua coleção de camisas polo da grife LaCoste, preenchendo o guarda-roupas com as peças separadas por cor, indo da branca até a preta, passando por mais de uma dezena de cores, entre estampas lisas e listradas. Outros mimos eram os pacotes de bolacha recheada Oreo e as garrafas de 4,5 litros de whisky Grants, que vinham com uma pequena gangorra para poderem ser servidas.

Sobrava até dinheiro para poder ajudar as crianças de Mangueira, por meio de projetos sociais, como o Mangueira do Amanhã, o Criança Esperança e o Precad, Programa Nacional de Prevenção da Cárie Dental. O sambista trapalhão foi escolhido pelo Ministério da Saúde para estrelar uma ampla campanha com o mote "Falta de dente não tem graça" e, em vez de cobrar cachê, pediu ao governo que fosse montado um consultório odontológico completo no Morro da Mangueira. O acordo foi feito e o sorriso da molecada ganhou um necessário reforço. Foram distribuídas cinco milhões de cartilhas educativas sobre higiene bucal, com o intuito de tirar o Brasil da última posição do ranking mundial de crianças com dentes cariados. O único problema foi acertar o texto do comercial. No lugar de falar "dente cariado não tem graça nenhuma", Mussum esquecia da seriedade do recado e soltava um "nenhumis" no final.

Em 1989, o ritmo de produção seguia forte. O quarteto ϐilmou A Princesa Xuxa e os Trapalhões , a ser lançado em junho, e Os Trapalhões na Terra dos Monstros , com estreia marcada para dezembro. Já em janeiro de 1990, experimentariam a produção de um ϐilme híbrido, com os trapalhões fazendo participações especiais em poucas cenas enquanto um elenco de jovens, como Supla, Angélica, Selton Mello, Maria Mariana e Leonardo Bricio protagonizaria a história. Uma correria só possível por causa da excelente estrutura da R.A. Produções. No lugar de viajar e gastar tempo e dinheiro em locações era possível dar conta de praticamente qualquer roteiro usando os estúdios e trucagens da produtora. Palácios alienígenas ou cavernas secretas eram produzidos com detalhamento pelos cenógrafos, e os equipamentos modernos de iluminação e edição davam conta do resto.

Roteiros, trilhas musicais e casting seguiam a mesma lógica. De forma intercalada, eram convocadas personalidades populares, como Xuxa, Gugu e Angélica, por meio dos contatos de Beto Carrero. Até eventuais renegociações com as distribuidoras, como a que fez os trapalhões romperem com a Embraϐilme para fechar com a Columbia, eram assunto que Renato Aragão, ajudado por seus ϐilhos, acabava resolvendo rapidamente. Em menos de um semestre um novo ϐilme estava pronto para ser exibido em condições de encarar de igual para igual blockbusters como Batman, de Tim Burton, De Volta para o Futuro – Parte 2, Os caça-fantasmas II e O Segredo do Abismo.

O problema era que em menos de dois meses também começava tudo de novo. Em uma entrevista ao Vídeo Show, Mussum até brincou com o fato de os colegas reclamarem da agenda lotada. Em uma matéria mostrando como eram os bastidores do programa, ele disse sorrindo:

— Pelas estatísticas, eu sou o cômico mais novo do Brasil. O resto é tudo ferro velho! Tudo caco de telha! Paulo Silvino, Jô, Tio Chico, Arága, Zacarias, Dedé Santana...

O levantamento de Mussum, mesmo sendo uma brincadeira, tinha sua parcela de verdade. Mauro Faccio Gonçalves, o Zacarias, era o artista mais velho do elenco e quem mais sofria com essa rotina. Para encarar o cotidiano puxado, Renato, aos 53 anos, fazia exercícios com regularidade, jogava futebol de campo três vezes por semana, não comia carne vermelha e, para dar um tapa no visual, havia até feito um implante de cabelo. Dedé Santana, também com 53 anos, mas bem menos disciplinado à mesa, apelou mais de uma vez para cirurgias plásticas. O próprio Mumu da Mangueira, nem tão mais jovem assim, com 48 anos, já precisava apelar para a tintura para esconder os cabelos brancos e forçava-se, em vão, a fazer regimes à base de chás de ervas e frango grelhado para enxugar sua enorme barriga.

O problema de Maurinho, já com 55 anos, não era tão fácil de resolver. Ele não queria mais saber de tanta agitação, trocou em deϐinitivo sua cobertura em Copacabana pela tranquilidade da casa em Jacarepaguá, cuidando de suas plantas e tocando as atividades do Centro Espírita Casa de Oxalá, sediado em seu próprio quintal. Segundo amigos próximos, Maurinho recebia o espírito de uma preta velha que o orientava a fazer caridade por meio de uma farmácia de produtos da ϐlora medicinal. Extremamente religioso, o mineiro acatava as indicações da entidade e dedicava-se cada vez mais ao preparo e cultivo das plantas.

Nas viagens pelo Brasil com o show dos trapalhões, ensinava a Mussum os beneϐícios de cada planta e acabou in ϐluenciando o amigo a criar uma horta e um jardim variado em sua casa também. Após cada viagem, ambos voltavam trazendo mudas de samambaias, coqueiros, cajueiros, laranjeiras e outras sementes típicas de cada região visitada. Iam de Ibitinga a Cuiabá, de Ipirá a Cabo Frio, sempre trazendo alguma novidade para plantar. Em uma dessas idas e vindas, o mangueirense até apareceu cheio de xodó com um ϐilhote de pastor alemão vindo de Minas Gerais. Batizou o cachorro de Kimber e dizia que ele era fruto do cruzamento de uma cadela com um lobo. Mussum curtia a natureza e suas plantinhas, mas jamais deixou de receber seus amigos e fazer seus pagodes. Já Mauro, vivia em um isolamento cada vez maior e sentia-se frequentemente cansado e perseguido por energias ruins.

Ao consultar-se com uma taróloga, as cartas apontaram seu momento por meio da ϐigura do Eremita, arcano que indica, de acordo com a crença dos especialistas, um período de afastamento e busca do autoconhecimento. O cômico também procurou os conselhos de uma numeróloga e esta indicou que seu problema era causado pelas pessoas invejosas que o cercavam. A solução, sabe-se lá por qual motivo, seria mudar seu nome artístico para Zacaria. Conselho que foi seguido à risca, como se pode ver nos créditos dos ϐilmes O Casamento dos Trapalhões , A Princesa Xuxa e os Trapalhões, Os Trapalhões na Terra dos Monstros e Uma Escola Atrapalhada, seus quatro últimos trabalhos no cinema.

Nos bastidores, havia um comentário de que, de tão cansado, Mauro abandonaria a trupe para dedicar-se a trabalhos menores e mais esporádicos no teatro, partindo em carreira solo. O fato é que, mesmo vivendo um momento delicado, ele continuou a seguir à risca todos os compromissos da lotada agenda dos trapalhões. Trabalhou sem parar durante todo o ano de 1989, até 23 de dezembro, quando fez um show ao lado dos colegas em São Luiz, Maranhão. A partir daí, os acontecimentos seguem-se em uma sucessão de desmentidos do artista em relação a notas sobre sua vida pessoal divulgadas por parte da imprensa especializada em fofocas. Em colunas dedicadas aos fuxicos dos famosos, começou a circular a notícia de que Zacarias era mais um artista a contrair aids. Após as declarações públicas do cantor Cazuza sobre a doença e do diagnóstico positivo do ator Carlos Augusto Strazzer, havia uma espécie de necessidade de descobrir qual seria a próxima celebridade a ser contaminada pelo vírus.

Solteiro e sem aparecer com nenhuma mulher após separar-se de Selma Lopes – dubladora que mais tarde ϐicaria conhecida por ser a voz oficial de Whoopi Goldberg e de Marge Simpson na TV brasileira – Mauro era extremamente discreto sobre seus hábitos e não costumava visitar nem ser visitado pelos colegas de "Os Trapalhões". Costumava dizer que passava tempo demais com o pessoal e que a amizade deveria ser como o mel: sorvida e deliciada aos poucos. Esse comportamento incentivava comentários sobre sua possível homossexualidade, e cada especulação maldosa gerava muito interesse do público. Na preconceituosa sociedade brasileira do ϐinal dos anos 1980, seria mesmo um escândalo descobrir que um artista que lidava com crianças era gay.

Nunca houve, porém, uma con ϐirmação de alguém próximo ou do próprio Mauro sobre o assunto. Nas suas férias entre a temporada de

1989 e 1990, o ti-ti-ti surgiu com uma força nunca antes vista. Zacarias apareceu nas ϐilmagens de Uma Escola Atrapalhada em janeiro aparentando ter perdido muito peso. Segundo o comediante, ele havia se submetido a uma dieta de base macrobiótica restrita a grãos, legumes e hortaliças plantados por ele mesmo. Em menos de 60 dias, teria perdido mais de dez quilos. A aparição gerou uma explosão de comentários nos bastidores e o espanto foi multiplicado pela imprensa sensacionalista. O jornal Notícias Populares e a revista Amiga, entre outras publicações, passaram a mencionar o nome do comediante sempre que havia uma notícia relacionada aos artistas com aids e isso o magoou profundamente. Após gravar sua curta participação no ϐilme dos trapalhões, que seria lançado apenas em junho, decidiu cortar relações com a imprensa e negou-se a dar entrevistas.

Foi criado um cerco em volta de sua casa em Jacarepaguá e seu telefone tocava insistentemente. Sentindo-se acuado, resolveu passar o mês de fevereiro na casa de um amigo em Maricá, a 60 km do Rio. De acordo com relatos dos parentes, Mauro reconhecera que havia exagerado no regime e passou a se alimentar normalmente para recuperar peso. Nesse ínterim, porém, havia sido acometido por um resfriado forte e jamais conseguia melhorar.

A situação foi se agravando e, de volta à sua casa em Jacarepaguá, o mineiro só recebia as visitas de sua empregada doméstica, que limpava a casa e preparava comida sem vê-lo. Mauro ϐicava trancado em um quarto, ouvindo música clássica e repousando. Preocupados com a situação, os colegas trapalhões tentaram fazer contato, mas não foram atendidos.

Já começava março e seriam iniciadas as gravações da nova temporada de "Os Trapalhões". Em mais uma mudança de formato, o programa voltaria a ser gravado em estúdio e teria uma divisão clara em um bloco com esquetes e outro com uma história completa sempre passada dentro do Trapa Hotel. Cada trapalhão ocuparia um posto ϐixo, atuando como um dos funcionários do hotel: Roberto Guilherme (gerente), Didi (auxiliar administrativo), Dedé ( personal trainer), Mussum (segurança), Zacarias (maître), Divino (cozinheiro), Tião Macalé (mensageiro) e Duda Little (criança chatinha). A intenção de criar um programa dentro do programa era atender melhor à demanda internacional da Globo, que já exportava sua programação para outros países, mas tinha diϐiculdade em incluir "Os Trapalhões" no pacote porque a atração não seguia uma ordem serializada, como as novelas, e trazia em sua versão ao vivo muitas piadas entendidas apenas pelos brasileiros.

Às vésperas do início das gravações, no dia 8, Mauro enviou uma carta aberta comunicando seu afastamento do grupo. Dizia estar muito triste com as especulações sobre a sua saúde e pedia um tempo para acalmar os nervos. Solicitou licença de um mês e disse ter demorado demais para consultar um médico – no caso, o amigo e vizinho Dr. Manuel Dutra Nunes – e por isso descobriu ter uma anemia profunda que não o deixava se curar de uma pneumonia.

A notícia assustou ainda mais os amigos e municiou a imprensa para uma interminável série de insinuações. A maioria das reportagens dava conta de que Zacarias havia perdido 20 quilos, enquanto os relatos o ϐiciais da assessoria de imprensa diziam que, de 62 quilos, o humorista estava pesando 50. Mas não houve tempo para descobrir o que realmente estava acontecendo ou quem estava dizendo a verdade. Três dias após o pedido de dispensa, Maurinho dava entrada na Unidade Intermediária de Tratamento da Clínica São Vicente, apresentando sérios problemas respiratórios. De acordo com os médicos, ele apresentava um quadro reversível e seria tratado para voltar às suas atividades normais em um curto espaço de tempo. Dona Virgínia, a mãe de Mauro, viajou de Sete Lagoas para o Rio de Janeiro e foi uma das poucas pessoas a visitá-lo no quarto especial onde só era possível entrar vestindo avental e máscara.

No sábado, 17 de março, o estado do comediante se agravou e ele ϐicou inconsciente. No domingo, justo no domingo, o dia em que fez tanta gente sorrir, morreu às 11h25, tendo apontadas como causas da morte "insu ϐiciência respiratória e síndrome de angústia respiratória do adulto em consequência de infecção pulmonar". Assim que soube da notícia, às 13h, Renato Aragão foi até a Clínica São Vicente para despedir-se do amigo. Minutos depois, Dedé Santana fez o mesmo. Mussum, que estava passeando de lancha em Angra, foi encontrado apenas no ϐinal da tarde e, com lágrimas escorrendo pelo rosto, correu para o Rio de Janeiro. O Dr. Roberto Luzes, responsável pelo laudo, foi perguntado sobre a presença do vírus HIV e respondeu que "não conseguiu detectar o agente etiológico da infecção". A declaração de nada adiantou, pois o jornal Notícias Populares do dia seguinte saiu com a manchete principal cravando: "Aids mata Trapalhão". A Folha de S.Paulo foi ainda pior, noticiando o falecimento de uma maneira que apenas insinuava o contágio do HIV. Sem a ϐirmar ou negar o fato, apenas foi publicado que a família do humorista pedia para não fosse espalhado o boato sobre a morte em decorrência de aids. A conduta foi até condenada pelo ombudsman da publicação, mas o estrago já estava feito. 39

A polêmica em torno do verdadeiro motivo da morte do comediante não fez com que o carinho do público em relação a Zacarias sofresse qualquer alteração. Pelo contrário, a popularidade do grupo era tamanha que foi preciso um esquema especial para o melancólico retorno do ϐilho mais famoso de Sete Lagoas. Seguindo instruções feitas em seus últimos dias, o corpo de Mauro foi embalsamado e enviado para a sua cidade natal, na área metropolitana de Belo Horizonte, onde seria velado e sepultado. A Globo providenciou dois jatos particulares para levar o caixão e transportar os outros três trapalhões até a cerimônia a ser realizada no Sete Lagoas Tênis Clube.

Antes mesmo da chegada dos aviões, a cidade entrou em um estado de agitação nunca visto. A polícia militar foi chamada para dispersar uma multidão formada em frente do principal hotel da cidade, o Lagoa Palace. A turba acreditava que Xuxa, Angélica, os trapalhões e outros artistas famosos estavam hospedados ali e queriam tirar fotos e pedir autógrafos, incomodando os hóspedes. Qualquer sombra perto de uma janela gerava uma tremenda gritaria. Quando, de fato, chegaram a Minas Gerais de madrugada, os três humoristas seguiram direto para o velório no ginásio do Sete Lagoas Tênis Clube, local que precisou ser isolado pela PM para organizar a entrada de amigos, parentes, jornalistas e autoridades antes de ser aberto para o público em geral. Mesmo com o isolamento, o assédio a Renato, Dedé e Mussum era enorme e começou a irritar. Mussum ϐicou visivelmente contrariado ao perceber que se formavam duas ϐilas, uma de gente se despedindo de Mauro e outra, maior, com pessoas querendo ver os artistas da TV de perto. Nesse momento, cercado por jornalistas, declarou em tom de desabafo:

— O preço de ser palhaço é não poder estar triste. Ninguém entende.40

Se ali dentro a situação já era preocupante, sair às ruas junto do caminhão do Corpo de Bombeiros que faria o cortejo fúnebre causaria ainda mais tumulto. Foi decidido entre Renato e Mussum que o adeus ao mineirinho seria feito ali mesmo, e não no sepultamento no cemitério Santa Helena, distante cerca de três quilômetros. Dedé não aceitou a ideia, agarrou-se ao caixão e, chorando, disse que não abandonaria o amigo. Como as portas do ginásio estavam prestes a serem abertas para a população, o trapalhão precisou ser removido por seguranças e colocado à força no carro que o levaria de volta ao aeroporto. Uma decisão que se mostrou dura, porém necessária. O velório, o cortejo e o enterro de Zacarias envolveram mais de 30 mil pessoas, e no cemitério havia gente pulando muros e quebrando cercas para chegar mais perto do ídolo. Por pouco não ocorreram acidentes, e a mãe de Mauro não aguentando de tanta emoção, passou mal, sendo retirada do local nos braços de seus ϐilhos. O capítulo ϐinal da formação clássica dos trapalhões era escrito da forma mais dramática possível, transformando o futuro do grupo em uma incógnita.

Na volta ao Rio de Janeiro, com toda a equipe e o elenco de luto, foi marcada uma reunião para decidir o que seria feito do programa. De início, ϐicou decidido que a temporada de 1990 do humorístico deveria continuar. As demonstrações de carinho que chegavam de todas as partes mostravam a importância do quarteto para o público brasileiro e, em especial, para as crianças. Seguir fazendo comédia era uma obrigação, mesmo naquele momento de depressão. O papel de maître do Trapa Hotel, no entanto, não seria assumido por um substituto. Em memória de Mauro, o personagem seria engavetado, com as participações de Jorge Lafond interpretando o farfalhante cozinheiro Divino, tampando os buracos do roteiro. A estreia de "Os Trapalhões" foi adiada para 1º de abril e o show continuou, mas não sem sequelas.

O primeiro programa da temporada começou com homenagens emocionadas e uma seleção de quadros com o humorista mineiro. Quem assistiu ϐicou com muito mais vontade de chorar do que de rir do primeiro episódio do Trapa Hotel, mostrando a contratação de Didi, Dedé e Mussum para trabalhar no impressionante cenário de dois andares, com elevador panorâmico e portas giratórias. O início do episódio era aberto por um texto de Chico Anysio e depois seguia-se uma montagem com os trapalhões restantes sentados em um sofá, dialogando com cenas antigas de Zacarias. Foi uma maneira de dar uma satisfação ao público, dizendo que o grupo iria continuar sem um substituto. "Enquanto estivermos vivos, seremos quatro trapalhões". A promessa de não promover um novo ator ao posto de quarto integrante da trupe foi cumprida, mas parecia sempre que alguém estava faltando quando eram exibidas as paródias musicais e as sátiras às novelas da época.

O buraco era apenas parcialmente coberto pelo aumento das participações dos personagens de Roberto Guilherme, Tião Macalé, Andréia Sorvetão, Duda Little, Conrado e até pelo dublê Baiaco nas tramas. Logo se percebeu que Zacarias seria insubstituível e os quadros começaram a abandonar as velhas formas, para serem reinventados. Muitas vezes Didi aparecia sozinho, enquanto Dedé e Mussum interagiam entre si, mas raramente apareciam os três juntos, destacados do elenco. Didi era o centro de praticamente todas as histórias, tendo o restante do elenco gravitando como coadjuvantes. Isso quando não fazia aparições solo com os personagens Aparício, Ananias e o Velho. Ao longo do ano, porém, os quadros foram criando seu ritmo próprio e o programa passou a girar cada vez menos em torno do trio. Até a abertura do programa mostrava apenas uma animação com letras coloridas, sem nenhuma imagem dos palhaços.

A recepção da audiência foi morna, sem grandes picos na medição do Ibope, e forçou a produção a apelar para uma forçada associação entre o programa e a mania da lambada, difundida pelos sucessos do grupo Kaoma e de Sidney Magal. Invariavelmente nos episódios os personagens apareciam dançando o ritmo nortista e rolavam até algumas tomadas focadas nas pernas e nas bundas das dançarinas com a intenção de chamar a atenção do público adulto. Outra alternativa foi pegar carona no enorme sucesso da novela "Pantanal", da Rede Manchete. Em um quadro chamado "Espantanal", que tinha em sua introdução a cançãotema da novela original por cima de cenas de lixões e córregos poluídos, os três trapalhões faziam uma sátira aos principais personagens do folhetim. Dedé interpretava o patriarca José Leôncio, caracterizado com bigodão branco à la Cláudio Marzo; Didi fazia sua versão do ingênuo fotógrafo Jove, incluindo seus bordões e tiradas; e Mussum fazia uma hilária Juma Marruá, a personagem vivida pela musa da época, Cristiana Oliveira. Na trama original, quando a rústica pantaneira ϐicava furiosa ou acuada, transformava-se em onça pintada para afugentar seus inimigos. Na sátira trapalhônica, as piadas giravam em torno de a nova Juma (Mussum) se transformar em Orangotango ou ser uma onça toda pintada, de preto. Apesar de todos esses esforços e mudanças, ϐicava aparente que a melhor fase dos trapalhões na TV já havia passado.

Fora da televisão, os anos 1990 começavam de uma maneira igualmente preocupante. Primeiro presidente eleito pelo povo em 29 anos, Fernando Collor de Mello começou seu governo com reformas radicais em vários setores ao mesmo tempo. Seu Plano Brasil Novo, popularmente chamado de Plano Collor, tinha como meta modernizar o país e segurar a in ϐlação. Para tanto, mudou o nome e o valor da moeda brasileira, de novo chamada de cruzeiro, congelou preços e salários, reorganizou ministérios e secretarias para diminuir os gastos públicos, começou uma onda de privatizações e, no intuito de conter a in ϐlação, bloqueou contas correntes e poupanças no prazo de 18 meses. Um pacotão de mudanças inicialmente considerado corajoso e modernizante, mas que logo se mostraria catastrófico.

Em março de 1990, qualquer brasileiro era limitado a fazer saques em contas-correntes e cadernetas de poupança no valor máximo de 50 mil cruzeiros. Quem tivesse mais dinheiro, teria a grana con ϐiscada e devolvida após um ano e meio, em 12 parcelas mensais. Pior, no ato da retirada, seria preciso pagar uma taxa novinha, o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), de 8%. O governo Collor justiϐicou essa medida dizendo que atingiria apenas 10% dos brasileiros, os mais ricos, mas basta ver o valor do salário mínimo na época, Cr$ 3.674,06, e fazer as contas para ver que muito mais gente foi afetada.

Na busca por diminuir os gastos do governo com as estatais e seus marajás, apelido dado por Collor aos funcionários públicos com altos cargos, altos salários e pouca produtividade, o novo presidente, de uma só vez, usou seu Programa Nacional de Desestatização (PND) para acabar com todos os órgãos apoiadores do cinema brasileiro. Em apenas uma paulada, do dia para a noite, fechou a produtora e distribuidora Embraϐilme, o Conselho Nacional de Cinema (Concine) e a Fundação do Cinema Brasileiro, transformou o Ministério da Cultura em Secretaria da Cultura e caçou as leis de incentivo à produção, de regulamentação do mercado interno e até mesmo os órgãos encarregados de produzir estatísticas sobre a audiência. Foi um duro golpe que pegou os cineastas brasileiros de calças curtas e acabou por tornar a realização de ϐilmes no Brasil quase impossível. E só é possível dizer quase porque a R.A. Produções era uma solitária exceção, capaz de lançar um ϐilme na rua sem ajuda do governo.

Ao lado de Xuxa Meneghel, a essa altura a artista mais popular do Brasil, Renato, Dedé e Mussum gravaram Os Trapalhões – O Mistério de Robin Hood e ainda conseguiram levar mais de 1 milhão de espectadores às americanizadas salas de cinema do Brasil. Com uma história sem qualquer novidade, além da ausência de Zacarias, o trio de trapalhões encarnava, mais uma vez, vagabundos de bom coração, com ligações com o circo e uma inquebrantável vontade de ajudar as criancinhas. O resultado da nova obra dirigida por José Alvarenga Jr. nas bilheterias, se não era um recorde, dava sinais de que era possível atravessar o momento sombrio do cinema nacional e, para o segundo semestre de 1991, começou a ser rodado Os Trapalhões e a Árvore da Juventude.

Novamente, o roteiro reaproveitou a mais recente preocupação social da classe média, no caso o desmatamento das ϐlorestas, e usou a participação de uma das celebridades mais populares do momento, desta vez a musa Cristiana Oliveira, a original, sem paródias. Deu certo de novo, com 1,1 milhão de pessoas nas salas, mas, tanto em um ϐilme quanto no outro, a rotina de gravações e a atuação dos trapalhões foi bastante reduzida em relação aos longas antigos. Em Os Trapalhões – O Mistério de Robin Hood, Xuxa ϐica com o protagonismo em boa parte das cenas e, em Os Trapalhões e a Árvore da Juventude , Didi, Dedé e Mussum são convenientemente interpretados, ora por um trio de atores mirins, ora pelos atores Carlos Lof ϐler, Eduardo Monteiro e Lui Mendes, em versões dos palhaços rejuvenescidos. Antes o quarteto e, em especial, Renato Aragão, inventavam novos desafios a serem superados a cada ano. Agora, a grande missão era continuar respirando e mostrar que o trabalho no cinema ainda era viável.

Renato estava muito mais envolvido com os projetos sociais do Criança Esperança, Dedé estava com seu casamento por um fio e Mussum andava mais preocupado com o carnaval e com o Flamengo do que com a extinção da Embrafilme. As viagens com os shows dos Trapalhões haviam diminuído consideravelmente por causa da recessão econômica do país, e uma bem-vinda fase de calmaria parecia começar. Nessa fase mais caseira, o mangueirense não trocava os ϐinais de semana em Jacarepaguá por nada. Ao lado de seus familiares e dos amigos mais próximos, armava churrascadas em volta da piscina para depois degustar, como se fosse uma apetitosa sobremesa, as jogadas do timaço rubro-negro comandado pelo vovô-garoto Júnior, com Gilmar, Zinho, Gaúcho, Júnior Baiano, Marcelinho e Djalminha jogando muito. Bater no Vasco, o rival preferido por causa das brincadeiras com Renato Aragão, virou rotina. Entre 1990 e 1991, o Flamengo venceu os clássicos cinco vezes seguidas e reverteu o lado do recorde histórico que até pouco tempo favorecia os vascaínos.

Ficar mais tempo em casa, no caso de Mussum, não signi ϐicava gastar tempo sem fazer nada, apenas vendo televisão. Junto de seu ϐilho mais velho, Mussum fundou um bloco carnavalesco no bairro, o Bloco das Piranhas, e convocando os vizinhos daqui e dali viu a brincadeira ϐicar cada vez maior. Após um início despretensioso, com cerca de 50 integrantes, na maioria moradores do condomínio Eldorado com seus familiares, o cordão cresceu para ser uma tradição do bairro e tinha até patrocínio o ϐicial da Brahma. A dedicação do humorista era tanta, que ele até se arriscou em uma composição para exaltar as Piranhas, assinando ao lado do vizinho Francisco Salles, o samba "Brota Belo, Bloco Bicha". A letra, além do trava-língua, era uma explicação do roteiro percorrido pela agremiação nas ruas do bairro: "Do Eldorado ele sai / Na Bananal ele aumenta / Na Três Rio ele encanta / Na Freguesia, arrebenta / No Modelo, ele explode / Não há briga nem rixa / Brota belo, bloco bravo / Brilha belo e brocha bicha". Depois entrava o refrão, no melhor estilo tradicional de marchinha: "Em Jacarepaguá, sei que 'cê vai gostar / Em Jacarepaguá, sei que 'cê vai gostar / O bloco das piranhas outra vez vai sair / A multidão na rua para se divertir / Cantando o bê-a-bá com satisfação / Mexendo com as cadeiras e com o coração". A música acabou sendo gravada ao lado dos parceiros Noca da Portela e José Serrão, aparecendo no disco "Brasilidade". No álbum, Mussum ainda dá uma canja como intérprete e palhaço na faixa "Cabeça de porco", uma regressão aos seus dias de morador de cortiço na São Francisco Xavier feita com muito bom humor. A ϐinal, apesar da crise no país, Mussum não tinha lá muitos motivos para reclamar da vida, como mostrava uma piada presente em Os Trapalhões e a Árvore da Juventude , quando o comediante era interrogado pela personagem de Duda Little, uma garota superdotada (e chata), sobre seus conhecimentos sobre hinduísmo.

— E você, negão, sabe quem foi Vishnu?

— Primeiro, "negão" é seu passadis! Segundo, eu nunca fui apresentado a essa pessoa nem quero intimidadis!

— Você é muito burro! Vishnu é um membro da sagrada trindade hindu, que incluía ainda Brahma e Shiva!

— É... Brahma eu ainda tenho uma intimidade, né? Mas o Chivas... como tá caro, cacildis!

 

38. O Globo, 20/03/1989.

 

39. Folha de S.Paulo, 20/03/1990.

 

40. O Globo, 20/03/1990.