Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões
Capítulo 16
ESPETÁCULO COM CHEIRINHO DE MACARRÃO (1981)
"Paz, alegria e beiço quente! Manda o mé!"
De forma gradual, Adriano Stuart assumiu o comando do programa
"Os Trapalhões" na Rede Globo. Era, mais do que um reϐlexo do sucesso do diretor nos últimos cinco ϐilmes do grupo, o reconhecimento pelo seu talento e jeito desencanado. Na preparação das cenas, ele dava instruções simples sem a deϐinição de marcações de posicionamento muito especíϐicas. Falava algo como "Renato vem daqui, Mussum vem dali e daí começa a cena". Além disso, possuía um senso de humor calcado no deboche e na malícia das pornochanchadas. Com Stuart não existia piada pesada demais. Usando o tom certo, era possível insinuar cenas de sexo, mostrar bebedeiras dionisíacas, tiros, assaltos, brigas e o que mais os redatores imaginassem ser engraçado. Isso incentivava ainda mais o improviso nos quadros e deixava o elenco bastante à vontade para levar para a frente das câmeras o mesmo tipo de brincadeiras que faziam nos bastidores.
Flamenguista fanático, Mussum adorava sacanear o vascaíno Renato Aragão e, a partir das provocações, começavam as já célebres trocas de insultos. Naquele começo de anos 1980, aliás, sobravam motivos para tirar onda com o chefe. Tendo como base um timaço formado por Zico, Leandro, Mozer, Andrade e Adílio, o rubro-negro venceu o Campeonato Brasileiro três vezes (1980, 1982, 1983), a Taça Libertadores da América (1981) e o Mundial de Clubes (1981). Uma fase de ouro também reϐletida nos torneios regionais e nos confrontos diretos. Os domingos de clássico eram esperados ansiosamente pelos dois trapalhões, que começavam as brincadeiras ao longo da semana prevendo quem seria o perdedor. É fácil aϐirmar que Renato se dava pior nas brincadeiras e as longas horas de gravação ϐicavam ainda mais longas para o cearense. Na Era Zico, o Flamengo chegou a vencer o Campeonato Carioca três vezes seguidas, sendo duas delas sobre o Vasco. A freguesia já vinha da década passada, quando, em 1979, a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro decidiu fazer uma espécie de terceiro turno batizado de Taça Organizações Globo. Foi como ter dois Campeonatos Cariocas no mesmo ano. E para desespero de Renato, deu Flamengo nas duas vezes. Tião Macalé, torcedor do Fluminense, era outra vítima. Mussum descobriu que ele ϐicava puto quando alguém assoviava o hino do Flamengo e começava a proferir os xingamentos mais cabeludos. A partir daí, começou a cantarolar sempre que podia o cântico rubro-negro no ouvido do injuriado colega.
Mais uma característica de Adriano Stuart muito apreciada e respeitada era a valorização homogênea do elenco. O diretor escolhia Dedé, Mussum e Zacarias como protagonistas de esquetes tanto quanto escalava Didi. Não hesitava em deixar o trapalhão líder de fora de alguns quadros ou em usá-lo como escada para que os outros brilhassem. Essa ϐilosoϐia de incentivo ao improviso e prioridade para a igualdade entre o quarteto foram essenciais para a produção de alguns dos momentos mais memoráveis da história de "Os Trapalhões". Três exemplos: Mussum entalado na banheira; o show de calouros com a música "O casamento da ϐilha do velho Faceta"; e Mussum e Macalé tentando pagar ϐiado no bar de Didi, armando a célebre pindureta.
A cena do mangueirense preso em uma diminuta banheira implorando pela ajuda dos outros três trapalhões foi tão antológica que chegou a ser tema principal de uma coluna do crítico de TV Artur da Távola, de 27 O Globo, com elogios à ousadia na montagem do quadro. "O importante para o registro do cronista é o humor resultante apenas do que ia sendo adivinhado (logo, puramente conceitual, já que ninguém via o que imaginava passar-se dentro da banheira) e do que era ativado através do dado sensorial. Ao mesmo tempo em que 'partes' do Mussum submersas eram pisadas, outras tentativas de tirá-lo dali faziam-lhe cócegas...".
Nos shows de calouros apresentados por Dedé Santana, todos os palhaços do quarteto apareciam, mas quem mais ϐicou marcado foi Mauro. Ao lado de Renato, ele canta uma modinha interpretando uma assanhada menina do interior chamada Geni. De trancinhas, maquiagem pesada nas bochechas e um vestidinho ϐlorido, Zacarias berra estridente "Papai, eu quero me casar!", no que Didi responde:
— Ô minha filha, então diga com quem!
A partir daí, réplica e tréplica são piadas curtas contadas na métrica e
no ritmo da música. Com o leiteiro a menina não pode se casar. O leiteiro tira o leite da vaca e depois vai desmamá-la também. Uma referência ao sexo oral. Com Marlon Brando, ela também não casa bem. Didi explica que o ator amanteigou Maria Schneider e iria amanteigar a ϐilha também. O versinho, sem nenhum sentido para uma criança, cita uma das mais polêmicas cenas do ϐilme "O Último Tango em Paris", quando o personagem de Brando usava uma barra de manteiga para lubriϐicar o ânus de sua parceira. A necessidade da garota desesperada para se casar só é resolvida quando ela propõe Ney Matogrosso como noivo. Didi, satisfeito, diz que o cantor "vira homem e lobisomem, mas quando é homem não faz medo para ninguém". É uma citação do sucesso "O vira", do grupo Secos & Molhados, mas também a insinuação de que por ser homossexual, Ney não 'faria mal', ou seja, não faria sexo com a ϐilha. Em pouco mais de dois minutos, um programa infantil faz piada sobre sexo oral, sexo anal e homossexualismo – sem ofender ninguém. Essa era a assinatura de Adriano Stuart.
No mesmo quadro é possível observar outra característica dessa fase libertária dos trapalhões na Globo. Antes da antológica apresentação de Didi e Zacarias, Mussum adentra o palco do show de calouros sendo chamado pelo seu nome de batismo completo, Antônio Carlos Bernardes Gomes, e interpreta uma versão caricata de si mesmo, apelidado de Empalhadinho da Mangueira. Em sua carreira como palhaço, sempre foi comum mandar abraços para o pessoal dos morros e fazer piadas envolvendo seus amigos do mundo da música, mas, no começo dos anos 1980, essas referências tornaram-se ainda mais frequentes, livres e engraçadas.
Antes de começar a cantar todo desaϐinado no show de calouros, Empalhadinho manda um abraço para a rapaziada do Funcha, onde o pessoal "mata o bicho" e "paga uma e bebe três". O lugar, de fato, existia e era bastante frequentado por Mussum. Desde que havia retornado ao Rio de Janeiro, morando em Jacarepaguá, a Lanchonete e Restaurante Funchal havia se transformado em posto avançado da casa do mangueirense. Se em nada lembrava o cenário clássico do botequim de favela, lotado de sambistas, o bem comportado Funchal conquistou o cliente ilustre por ϐicar aberto de madrugada e, principalmente, por ϐicar no caminho entre seu trabalho e sua casa. Sr. Anselmo, o descendente de portugueses que era dono do estabelecimento, tinha grande apreço por Mussum e, muitas vezes, o humorista levava toda a sua família para almoçar ou jantar suculentos bifes a cavalo, ϐilés à parmegiana e outros pratos igualmente substanciosos por lá. No retorno das gravações, no entanto, quando pintava por lá sozinho, Mussum sequer abria o cardápio. Ficava lá até altas horas apenas variando entre copos de chope e de Steinhaeger, muita conversa e muita gargalhada.
O diretor Adriano Stuart, também um apreciador da vida boêmia, adorava as histórias ocorridas nas mesas de bar e incentivava os redatores a explorarem o lado mais pinguço de Mussum. Boa parte dos quadros que envolviam bebedeiras e botecos foram ϐilmados nesse período. Alguns deles seriam impossíveis de ser gravados em outras temporadas, com outros diretores. Alguns exemplos, para ilustrar: Mussum faz o papel de um degustador de bebidas capaz de adivinhar, mesmo vendado, o tipo de mé, a safra, a data do engarrafamento e o tempo de envelhecimento com apenas uma beiçada; Dedé e Mussum roubam um peru e dividem as tarefas do preparo. Enquanto Dedé vai ao mercado comprar os ingredientes para fazer a farofa, Mussum deve embebedar e abater a ave. Após idas e vindas, Mussum ϐica tão bêbado quanto o peru e acaba se afeiçoando ao bicho. Quando Dedé diz que era preciso começar a preparar a ceia, ouve as ameaças do amigo:
— Ele é do sindicatis! Ele é ponta ϐirme! Se você tocar um dedo no meu amigo, eu te mato!
O esquete com Mussum e Tião Macalé tomando cerveja no botequim de Didi segue a mesma lógica. Traz improviso no texto, liberdade total dos atores, referências à vida real e um toque de apologia da vida boêmia. O esquete mais tarde conhecido pela internet como "Mussum Armando uma Pindureta" começa com o mangueirense cantando um samba enquanto batuca com o abridor em uma garrafa, gesto típico dos partideiros. O refrão "Lá no morro quando eu olho pra baixo / Acho a cidade uma beleza / E quando estou na cidade que eu olho pra cima / Fico contemplando a natureza" é da música "Lá no morro", do disco de estreia do Fundo de Quintal, "Samba é no Fundo de Quintal". Os amigos de Cacique de Ramos lançavam seu primeiro álbum e o trapalhão estava com o contagiante refrão na cabeça após ouvir a música nos ensaios e depois nas ϐitas do conjunto. A exclamação "Castro Alves, meu bem!" tem mais ou menos a mesma origem. Na época, Mussum estava envolvido com as gravações de seu disco solo e tinha na mente os versos do sambaenredo "O Descobrimento do Brasil", do Salgueiro, que citava ϐiguras histórias do Brasil, como o poeta baiano Antônio Frederico de Castro Alves.
O parceiro de cena, Tião Macalé, então com 55 anos, ainda não fazia parte do elenco ϐixo dos Trapalhões, mas era presença constante nos humorísticos da Globo. Assim como Mussum, era um veterano do Teatro de Revista e tinha grande diϐiculdade em decorar textos mais longos. No quadro, canta por conta própria e no seu estilo característico uma parte da canção "Jenny, Jenny" de Little Richard, do frenético refrão "Jenny! Jenny! Jenny! / Jenny won't you come along with me / Jenny Jenny, oh! / Jenny Jenny, oh!". Música importada? Sim. Improviso? Completamente. Desde que chegou ao Rio de Janeiro nos anos 1940 para fugir da miséria em Salvador, sua cidade natal, Tião Macalé se arriscou como dançarino no Teatro João Caetano, crooner na boate do Hotel Glória, cômico no show de calouros na TV e o que mais pintasse pela frente. O improviso era o seu ganha-pão desde o início da carreira, que só começou porque ele estava dormindo na rua e encontrou por acaso um antigo amigo baiano que lhe ofereceu o emprego de bilheteiro de um teatro na Cinelândia. Vem desses tempos o seu apelido e até o seu sobrenome. Batizado como Augusto Temístocles da Silva Costa, passou a ser chamado de Tião por causa do filme Moleque Tião, protagonizado por Grande Otelo, e ganhou o Macalé porque substituiu o cara que tocava o gongo no programa "Calouros em desϐile" de Ary Barroso, e era assim chamado. Acidentes de percurso à parte, Tião gostava da vida boêmia carioca. Frequentador assíduo dos bares do Beco das Garrafas, era ϐigurinha fácil entre o Posto 4 e o Posto 6 de Copacabana, onde adorava tomar chope, mas não dispensava cerveja, uísque, cachaça.
Não seria diϐícil, portanto, reunir Mussum e Macalé em uma mesa de boteco e vê-los enxugar aquelas oito garrafas de suco de cevadis, como também não é impossível que, em algum momento de suas vidas, os dois tenham mesmo pedido mais duas garrafas ϐiado, só para completar o lance, e depois ido embora, deixando o pagamento "pendurado". Ainda era bastante comum que os frequentadores mais assíduos tivessem contas permanentemente em aberto nos seus botecos preferidos para beber durante a semana e acertar a dívida na sexta-feira, dia de receber para quem dependia de pagamentos semanais. Geralmente os donos das biroscas, quase sempre portugueses ou descendentes galegos, deixavam essas anotações das contas feitas em pequenos pedaços de papel espetados ou pendurados em varais ao lado do caixa. Como essas con ϐissões de dívida nem sempre eram honradas, é justiϐicável que, em cena, o garçom Didi negasse os insistentes pedidos de Mussum para tomar mais cerveja. Os elogios claramente irônicos que ele usava para tratar seus clientes eram uma constante no jeito de atuar de Renato. Para provocar os parceiros de cena, ele fugia do script, brincando com as roupas ou com a aparência dos colegas. Em cena, Dedé e Roberto Guilherme eram chamados de jovens e de machões, por exemplo, e não foi só no quadro da pindureta que ele usou os termos engenheiros, bacharéis, diplomatas, embaixadores, gente polida e gente educada.
Ignorando a paciência do garçom, Mussum para mais duas ampolis conseguir subir o morro do Salgueiro, mais uma referência que não estava prevista no texto original, mas que seguramente fazia parte da rotina dos tempos de Mussum como Carlinhos da Mangueira. Junto com os amigos dos Originais do Samba, vários nascidos e criados no íngreme morro do bairro da Tijuca, ele sabia bem como era di ϐícil chegar a certos pontos da comunidade. A brincadeira recorrente do pessoal que frequentava um pedaço da favela apelidado de Cantinho no Céu era dizer que só chegava ali em cima quem descobrisse um jeito de usar o matagal como corrimão.
Piadas adultas e cenas maliciosas, no entanto, não desagradavam ao público principal de "Os Trapalhões", as crianças. Em julho de 1981, o grupo comemorou 15 anos de sua criação em alta com a molecada de todo o Brasil. A conta não levava em consideração a montagem do quarteto na TV Tupi, mas sim a estreia de Didi ao lado de Wanderley Cardoso, Ted Boy Marino e Ivon Curi no programa "Os Adoráveis Trapalhões". Mesmo assim, não faltavam motivos para comemorar a fase de enorme sucesso das trapalhadas. Com índices de audiência altíssimos, os comediantes andavam cheios de moral na Globo. Prova disso foi o programa especial de aniversário, com oito horas de duração e um elaborado show transmitido ao vivo do ginásio Caio Martins, em Niterói. A quadra do Botafogo foi transformada em um gigantesco picadeiro, com dezenas de palhaços, acrobatas, dançarinas e, no centro de todos os holofotes, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias.
O programa especial lembrou as origens de cada um dos integrantes do quarteto, com Mussum vestido de mecânico, falando sobre a carreira de músico e a vida na Aeronáutica, Zacarias sem peruca relembrando quando foi vendedor de sapatos e Didi e Dedé contando o quanto eram apaixonados pelo circo. Os blocos do programa eram encerrados por depoimentos de personalidades importantes elogiando os trapalhões. Entre os mimos ditos pelos famosos, aparecia Elis Regina ao lado de seus ϐilhos, dizendo-se fã do programa e creditando Mussum como um dos responsáveis pela vitória de "Lapinha" na I Bienal do Samba. Seria uma das derradeiras aparições da cantora na TV antes de sua morte, em
janeiro de 1982.
Nomes famosos das novelas e da música não faltaram no especial, apresentado ao vivo por Tony Ramos. Além de celebrar os trapalhões, a atração foi usada como plataforma para uma campanha bene ϐicente do Ano Internacional da Pessoa com Deϐiciência, com direito a um mutirão de atores espalhados pelo Brasil para arrecadar fundos para iniciativas de doação de córneas e vagas de emprego para os deϐicientes. Entre um número e outro dos trapalhões, como o tradicional jogo de futebol de salão dos humoristas, rolou até uma partida de atletas paraplégicos, das seleções paulista e carioca de basquete em cadeira de rodas, narrada por Léo Batista.
Naquele ano, o passado dos integrantes seria explorado ainda no documentário "O Mundo Mágico dos Trapalhões", um longa realizado pela Renato Aragão Produções com direção de Silvio Tendler e uma impecável narração de Chico Anysio. Sem contar com o mesmo apelo com as crianças, o projeto não foi destinado ao lucro nas bilheterias. Alcançou apenas 1,8 milhão de espectadores e serviu mais como um presente para o ego de Renato Aragão do que para lucrar. No lançamento do ϐilme, o cearense fez a seguinte declaração ao jornal O Globo: "Com esse longametragem eu posso dizer que me considero um homem realizado. É um professor da Pontiϐícia Universidade Católica que se decide a fazer um ϐilme-pesquisa sobre o nosso trabalho. Isto é uma grande resposta a tanta coisa ruim que já tentaram fazer conosco. E pensar que uma minoria de críticos recalcados já tentou acabar com a gente. Eu dou graças a Deus porque essa gente está acabada, sumindo." 28
A entrevista mostrava que o líder dos trapalhões ainda guardava no peito muita mágoa pelas críticas da imprensa e sentia a necessidade de calar seus detratores, mesmo quando a aceitação de seu trabalho alcançava o nível de unanimidade pelo público e arrancava elogios de gente como Luís Fernando Veríssimo, Glauber Rocha, Jô Soares, Chico Anysio, Millôr Fernandes e Caetano Veloso. "Esse preconceito que há contra todos os humoristas há em maior escala com os trapalhões. Eles fazem um humor popular para o qual os intelectuais e as elites em geral torcem o nariz. Eu porém acho tudo extraordinariamente engraçado e acho que depois de conquistar a televisão e o cinema eles estão prontos para conquistar o mesmo sucesso em plano internacional", diz o cartunista Millôr em sua participação no documentário "O Mundo Mágico dos Trapalhões". Já Caetano, fã declarado do grupo, além de aparecer no documentário para comentar suas aparições no programa, chegou a cantar o nome dos trapalhões na música "Jeito de corpo", de seu disco "Outras Palavras", de 1981. Nem esses afagos públicos faziam o rancor diminuir. Não importava quanto sucesso Renato fazia ou quanto dinheiro ganhava, era sempre preciso crescer e melhorar, nunca haveria um derradeiro xeque-mate no ressentimento. Embora consolidada, a carreira do comediante seria sempre pautada por uma luta imaginária contra quem um dia classiϐicou os ϐilmes dos trapalhões como chanchadas rasteiras.
Até por isso, Renato andava preocupado e animado em grandes proporções com a possibilidade que se abriria para o seu próximo projeto. Após alguns anos de sondagens e conversas com os estúdios americanos, a R.A. Produções havia ϐirmado um acordo de colaboração com a Universal Studios, dona dos maiores hits do cinema nos anos 1970 e 1980. A empresa americana emprestaria equipamentos e técnicos em troca de usar a infraestrutura dos novíssimos estúdios que a R.A Produções inauguraria em breve no Rio de Janeiro. Assim, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias partiriam para Los Angeles para gravar por 10 dias cenas nos mesmos sets onde a maioria dos clássicos de Steven Spielberg foi filmada.
O objetivo ϐinal era dar um salto de qualidade na produção técnica dos ϐilmes dos Trapalhões e, assim, iniciar a distribuição internacional dos ϐilmes e dos programas de TV. Havia planos até mesmo de gravar uma temporada inteira de um seriado "tipo exportação", que serviria de cartão de visitas do grupo em novos mercados. Faltava apenas uma história universalmente cativante e engraçada o su ϐiciente para ser encaixada no material que o grupo produziria durante o intercâmbio.
Foi aí que surgiu a ideia de Os Saltimbancos Trapalhões, um ϐilme baseado na adaptação de Chico Buarque para os textos e músicas do disco infantil "I Musicanti", do italiano Sergio Bardotti e do argentino Luis Enriquez Bacalov, que também eram releituras do conto folclórico Os Músicos de Bremen, dos irmãos Grimm. Como praticamente tudo feito por Chico em sua carreira, a fábula musical dos animais fugitivos, tropicalizada e batizada de "Os Saltimbancos", foi elogiadíssima pela imprensa tanto no palco do Canecão quanto na forma de um LP. Era uma surpreendente experimentação de Chico no árido mercado de produtos culturais destinados ao público infantojuvenil e isso despertou a atenção de Renato Aragão. O trapalhão achou a história perfeita para servir como argumento para seu próximo ϐilme e propôs uma parceria com o incensado músico.
Uma comparação entre a obra adaptada por Chico Buarque e o resultado ϐinal que foi para as telas mostra, no entanto, que na obra cinematográ ϐica há muito mais as digitais dos trapalhões do que de Chico, Bacalov e Bardotti, embora os autores tenham trabalhado na adaptação da obra para o cinema e o músico tenha supervisionado e cantado na trilha sonora do ϐilme. O cenário rural presente na versão original foi trocado pelos bastidores do pequeno Circo Bartholo, a atmosfera preferida de Renato, Dedé e do diretor Adriano Stuart.
Na peça, cada um dos quatro personagens principais tem uma história, uma característica especíϐica e um motivo principal para abandonar sua rotina atual e tentar a vida como artista. Grande Otelo interpretava o Jumento, sempre teimoso e um pouco medroso, ele estava cansado de tanto trabalhar sem recompensa; Pedro Paulo Rangel fez o papel do Cão, que questionava a ϐidelidade ao seu dono quando não aguentava mais fazer apenas a vontade dos outros; a cantora Miúcha, irmã de Chico Buarque, ϐicou com o papel da Galinha incapaz de pôr ovos por ter medo de ser abatida; e, ϐinalmente, Marieta Severo vivia a aristocrática Gata, desejando largar o enfado de bicho de estimação para ser uma cantora de boate na cidade grande. No ϐilme, Renato acaba se fantasiando de Jumento apenas para participar de um musical do tal circo Bartholo. Seu comportamento é o mesmo de todos os demais longas dos trapalhões: pobre, meio vagabundo, contestador, debochado e com um amor impossível no coração. Dedé, Mussum e Zacarias apenas fazem o papel de ϐigurantes de luxo, com poucas falas e nenhuma relevância no desenvolvimento da história. Talvez até o cachorrinho vira-lata alugado para o ϐilme tenha mais importância na trama do que o trio. Pior que isso, a escolha dos personagens serve para mostrar involuntariamente o lugar ocupado na época por cada um dos três trapalhões. Dedé é apenas a parte de trás da fantasia de Burro, ou seja, uma extensão de Didi; Mussum é o cachorro, obediente e amável; Zacarias, uma espalhafatosa e descerebrada galinha. Lucinha Lins faz a gata, bela e com classe, mas supérϐlua. Em resumo, no grande projeto, os holofotes estariam grande parte do tempo apenas sobre Renato, enquanto os colegas teriam que "se comportar", evitando destoar da história ao usar bordões e trejeitos de seus personagens da TV no filme.
Musicalmente, as bolas são mais bem divididas. Chico Buarque comandou a gravação da trilha sonora de Os Saltimbancos Trapalhões, com uma canção-tema nova e um tom de protesto ligeiramente suavizado. Nos palcos, a peça fazia uma série de críticas decodiϐicadas aos militares e à falta de liberdades na sociedade moderna. No ϐilme, e consequentemente na trilha do ϐilme, o alvo das reclamações foi bastante simpliϐicado. Os bonzinhos eram os pobres e os vilões eram os ricos, seguindo uma das constantes mais presentes nas obras trapalhônicas, junto das referências ao circo e dos personagens maltrapilhos de Renato. Mesmo assim, as faixas que misturam o talento de Chico Buarque com a irreverência dos Trapalhões ϐicaram excelentes. O clima nas gravações do filme, no entanto, não foi tão afinado quanto o violão de Chico.
Encarando a oportunidade de gravar em Universal City como a grande chance de fazer decolar sua carreira internacional, Renato passou a ter um comportamento ainda mais perfeccionista e controlador do que o de costume. Embora nunca tivesse assinado um ϐilme como diretor, na prática, o cearense supervisionava o trabalho de toda a equipe, cobrando atrasos e discutindo cada detalhe das produções. Um comportamento até aceitável se consideramos que boa parte do dinheiro investido na realização dos ϐilmes vinha do bolso do próprio Renato. No caso de Os Saltimbancos, para ser mais especíϐico, foi investido mais de 1,2 milhão de dólares, o equivalente a Cr$ 130 milhões na época. Uma aposta de tamanha responsabilidade fez as coisas passarem dos limites em Los Angeles. Integrantes da equipe de produção relatam que o líder dos trapalhões bateu boca com Adriano Stuart por conta de uma decisão banal em uma cena e ouviu um ultimato dizendo para limitar-se a participar do ϐilme como ator. Stuart acabou ouvindo alguns bons desaforos, retrucou e acabou abandonando a equipe nos Estados Unidos, desistindo de continuar Os Saltimbancos.
Foi um duro golpe para todo o elenco, e em especial para Mussum. Mais do que um diretor, Adriano Stuart era um grande amigo de copo e de trabalho. Sua carreira de humorista nunca havia evoluído tanto quanto nos últimos anos. Mas o show precisava continuar. Com a ajuda de intérpretes para se comunicar com a equipe de câmeras e contrarregras americanos, Dedé assumiu interinamente o posto de diretor nos Estados Unidos, bolou esquetes curtos para mais tarde serem inseridos no ϐilme como representações dos sonhos de Didi, um pobre faxineiro de circo que almejava ser estrela de cinema, como bem descrevia a música "Hollywood", de Chico Buarque: "Ói nós aqui! / Ói nós aqui! / Hollywood ϐica ali bem perto / Só não vê quem tem um olho aberto". Na volta ao Brasil, com o ϐilme longe de estar terminado, foi preciso recorrer ao velho J.B.Tanko, o mesmo diretor preterido anos anteriores por ser antiquado agora teria pela frente mais recursos e responsabilidade do que jamais teve. E no ϐinal das contas, deu tudo certo, mais certo do que nunca.
Para divulgar o longa, foi para o ar em 27 de Dezembro de 1981 um episódio especial de "Os Trapalhões", com cenas gravadas na Granja Comary, então residência oϐicial dos Aragão. O programa teve videoclipes das músicas "Piruetas", "Alô liberdade", "História de uma gata" e "Todos juntos", com Lucinha Lins e os trapalhões vestindo as fantasias do ϐilme e também uma partida de futebol com Lucinha, Didi, Dedé, Mussum, Zacarias e Carlos Kurt enfrentando um time recheado de ex-campeões da Seleção da Brasileira, como Brito, Nilton Santos, Félix e Jairzinho. Até Eduardo Conde, o careca-cabeludo de olhar intimidador responsável pelos últimos vilões dos ϐilmes da trupe, apareceu em uma ponta no programa, sendo bastante sacaneado, é claro.
O planejamento pesado de promoção e a distribuição azeitada em mais de cem salas ao redor do Brasil garantiram marcas expressivas para Os Saltimbancos Trapalhões, tanto no cinema quanto nas lojas de disco, onde o LP da trilha sonora vendeu mais de 100 mil cópias e garantiu um Disco de ouro para a improvável parceria entre Chico Buarque e o quarteto de palhaços. Nos cinemas, já na semana de lançamento, destroçando a produção estrangeira Fuga para a Vitória, com Pelé e Sylvester Stallone, o ϐilme arrecadou Cr$ 120 milhões e tornou-se o sexto mais visto do ano. Até sair de cartaz, levou 5,2 milhões de espectadores aos cinemas, alcançando o posto de segunda obra mais vista da carreira dos humoristas. O número é especialmente importante se for lembrado o momento de crise econômica do país e de encolhimento do cinema nacional. Em 1981, foram 90 milhões de espectadores contra 110 milhões do ano anterior. Os trapalhões faziam o Brasil rir, mas sorriam muito mais.
27. O Globo, 27/10/1981.
28. O Globo, 08/01/1981.