Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões

Juliano Barreto · Capítulo 3 de 29

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Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões

Capítulo 1

 

NA SUBIDA DO MORRO É DIFERENTE (1941)

 

A maré está bravis. Está mais para urubu do que para beija-florzis"

 

Antônio Carlos Bernardes Gomes nasceu em uma segunda-feira, 7 de

abril de 1941, no Morro da Cachoeirinha, Rio de Janeiro. Sua mãe, a empregada doméstica Malvina Bernardes Gomes, de 30 anos, já criava sozinha uma menina de 2 anos chamada Nancy, e encontraria diϐiculdades ainda maiores para continuar a sobreviver com seu pequeno salário, tendo duas bocas para alimentar. Trabalhando nas casas ricas da zona Sul, onde se destacava pela boa mão como cozinheira, Malvina não sabia ler nem escrever e, por isso, desconhecia os eventos que fariam de 1941 o ano em que a Segunda Grande Guerra se tornaria, de fato, a Segunda Guerra Mundial. Para ela, os nomes de Churchill, Hitler, Stalin e Roosevelt não signiϐicavam nada. Bombardeios na Iugoslávia, batalhas pelo domínio do norte da África ou os confrontos entre nazistas e soviéticos eram in ϐinitamente menos importantes do que a luta diária para alimentar seus dois ϐilhos e fazê-los escapar dos surtos de sarampo e difteria que matavam tantas crianças nas favelas cariocas.

Malvina era apenas mais uma negra pobre que acordava cedo todo dia para pegar um taioba, bonde sem janelas destinado a levar cargas e trabalhadores suburbanos em direção ao centro. Após passar a semana toda servindo aos patrões em Copacabana, voltava para casa às sextasfeiras com uma enorme trouxa de roupas sujas para serem lavadas e passadas nas disputadas fontes públicas próximas à linha do trem. Usava sabão caseiro fabricado com sebo de boi, soda e folhas de cheiro, e depois de esfregar, enxaguar e torcer as peças, colocava tudo em bacias que eram carregadas na cabeça até um local onde lençóis, saias, camisas e vestidos pudessem ser quarados, pendurados e secos. Terminada essa etapa, começava o trabalho com um par de ferros à brasa. Enquanto usava um, o outro ϐicava esquentando, no aguardo para substituir o primeiro quando este esfriasse. O rodízio entre os dois ferros continuava noite adentro, com a passadeira trabalhando até a última peça ou até a exaustão completa.

Na segunda-feira, acordava novamente no comecinho da manhã para levar as peças de volta à casa dos patrões e começar uma nova jornada entre vassouras e panelas. Regra na época, a presença dos ϐilhos dos empregados era condicionada ao trabalho das crianças. Em troca de um prato de comida ou de "lições de modos", Nancy e Carlinhos passaram a carregar baldes de água, picar cebolas ou varrer quintais tão logo aprenderam a andar. Conservando hábitos dos tempos da escravidão, a alimentação dos empregados era feita nos fundos das casas, com pratos cheios de sobras dos almoços e jantares. As lições de etiqueta ministradas pelas patroas às ϐilhas das empregadas começavam com promessas de ensiná-las a se portarem como damas, mas terminavam invariavelmente com castigos ϐísicos e mais tarefas da casa. Novamente, a ideia principal consistia em fazer alguém trabalhar muito a troco de comida. Essa lógica ainda era mais cruel com os meninos, impedidos de frequentar a casa dos patrões a partir do ϐinal do período da primeira infância, aϐinal já não eram mais úteis para os serviços domésticos, deveriam trabalhar de verdade e garantir seu próprio sustento – além de evitar problemas pela in ϐluência negativa aos meninos ricos ou fazer mal para as donzelas. No caso do pequeno Antônio Carlos, essa fase de distância forçada da mãe passou-se nas casas das comadres de Malvina e entre outros garotos do Morro da Cachoeirinha, que desciam até as ruas de Lins de Vasconcelos e do Engenho de Dentro para fazer pequenos bicos como engraxates ou carregadores de sacolas. Apesar das diϐiculdades das ruas, o garoto começava a mostrar uma personalidade expansiva e zombeteira. Entre um carreto e outro, Carlinhos adorava organizar peladas de bola de meia, soltar pipas e pregar peças nos adultos.

Uma de suas traquinagens preferidas consistia em amarrar latas de azeite vazias nos rabos de cabras e bodes dos terrenos baldios e depois soltá-los no meio das feiras livres. Os animais, desesperados pelo incômodo, saíam correndo e coiceando para se livrar das quinquilharias, enquanto o lugar virava um caos. Outro divertimento do moleque tinha como alvo os distintos cavalheiros que passavam pela rua usando chapéus. Ao lado dos comparsas, o moleque amarrava uma linha de pipa no tronco de uma árvore de um lado da rua e esperava um incauto passar, escondido do outro lado da calçada. Quando a vítima estava no lugar e na hora certa, a linha era puxada e o chapéu caia no chão como se puxado fantasmagoricamente. Anos mais tarde, Mussum contaria que a brincadeira precisou dar errado uma vez só para ser deixada de lado. Certa feita, um dos moleques não se aguentou e acabou rindo, revelando o esconderijo e o truque. O homem que havia caído no golpe correu atrás dos meninos, alcançou um deles e lhe desferiu vários pontapés. Fugir de homens irados por causa de brincadeiras, no entanto, não seria o maior problema na infância de Antônio Carlos.

A falta de dinheiro de Malvina fazia com que a família não conseguisse ϐixar residência por muito tempo em uma mesma casa. Bastava um aumento no aluguel ou uma despesa imprevista com roupas ou remédios para que as ϐinanças desandassem, as dívidas acumulassem e fosse necessário arrumar um lugar mais barato para se viver. Quando, ao contrário, sobrava algum dinheirinho proveniente da lavagem de roupas ou um novo emprego com melhor pagamento era conquistado, o investimento prioritário para a família era mudar-se para casas minimamente confortáveis. Nessas peripécias, Malvina, Nancy e Carlinhos saíram do Morro da Cachoeirinha para morar por curtos períodos em pequenas casas nos rincões mais suburbanos e até por curto período no Leblon, em uma favela apelidada de Morro da Catacumba. Na zona Norte, as primeiras moradas foram nas ruas Bucareste e 21, em Parada de Lucas e, mais tarde, na Rua Magé, na Penha Circular. Entre uma mudança e outra, Carlinhos aprendeu a se adaptar rápido, fazendo amizades por onde passava. Sem nenhuma timidez, cumprimentava todos que via pela frente e logo cativava toda a vizinhança, sendo, ao mesmo tempo, educado e brincalhão, tímido e expansivo.

Chegou um momento em que não importava mais o número da casa ou a rua em que o moleque morava. Conhecia todo mundo e sempre arranjava um jeito de se divertir – embora tivesse pouquíssimos cruzeiros nos bolsos de suas calças curtas. O programa preferido nos dias quentes era se banhar no valão de Parada de Lucas. Nos ϐinais de semana, adorava acompanhar as partidas do Onze Terríveis, time de várzea da região que era imbatível em seu campinho de terra batida, e ouvir os pagodes que rolavam depois dos jogos. Com menos frequência, conseguia juntar uns trocados e ver ϐilmes no Cine São Pedro, tudo ali pertinho. Por conta da rede de amizades cada vez maior, o garoto percebeu também que muitos garotos da sua idade, em vez de trabalharem nas ruas, começavam a entrar na escola. A ϐinal, no mesmo perímetro das peladas e banhos de vala, estava a Escola Municipal Conde de Agrolongo.

Carlinhos revelou o desejo a Malvina que, apesar das diϐiculdades ϐinanceiras, já andava preocupada com a vida livre do ϐilho nas ruas. Seu maior sonho era ver o moleque formado como engenheiro e não sendo mais um malandro, mas, mesmo assim, impôs uma condição para que ele fosse matriculado: para provar que estava se aplicando nos estudos, depois de cada aula Antônio Carlos teria que repassar todas as lições e ensinamentos para sua mãe. Empolgado com a chance de estudar e ciente da responsabilidade que assumira com sua família, o garoto se esforçou e logo começou a alfabetizar sua mãe e dividir com ela tudo o que absorvia das aulas de matemática, história e geogra ϐia. Mesmo cansada pela lida diária, Malvina fazia questão de ouvir as novidades que o ϐilho trazia do grupo escolar e surpreendia-se com os avanços rápidos obtidos.

Um belo dia, Carlinhos revelou sua adoração por José do Patrocínio e fez uma verdadeira palestra para sua mãe e sua irmã sobre o abolicionista que ϐigurou como um dos nomes mais importantes na luta pelos direitos dos negros brasileiros no ϐinal do século XIX, atuando como jornalista, militante político e até mesmo acolhendo escravos fugitivos. Para o garoto pobre do subúrbio, mais do que um nome em um livro, Patrocínio era um modelo de superação. Nascia ali uma obsessão pelo estudo que ϐicaria presente por toda a vida de Mussum. Mesmo após o sucesso como músico e comediante, ele não se cansava de dar conselhos, e às vezes broncas, em colegas e nos próprios ϐilhos, quando notava falta de interesse nos estudos. Depois dos sermões que falavam da importância da educação em sua vida, o comediante gostava de arrematar o discurso dizendo:

— Burro preto tem um monte, mas preto burro não dá!

Em 1954, terminado o ciclo do ensino primário, período equivalente hoje aos quatro primeiros anos do ensino fundamental, Malvina fez a vontade do ϐilho e decidiu mantê-lo estudando. Pobre, negro e suburbano, Carlinhos estava afastado de qualquer possibilidade de entrar nas disputadas escolas da zona Sul. Acabou tentando a sorte como candidato a interno da Fundação Abrigo Cristo Redentor, um programa educacional criado na Era Vargas pela primeira-dama Darcy para acudir crianças carentes, em sua maioria órfãos e meninos de rua.

A Fundação tinha um esquema de inspiração militar, preocupado primeiro em disciplinar seus alunos e depois em educá-los. Havia até mesmo um programa para transformar os alunos veteranos em monitores que, segundo o regulamento da instituição, teriam a função de "estimular e desenvolver entre os alunos, a educação moral e cívica, o verdadeiro sentido da subordinação, e a prática de trabalhos como auxiliares da disciplina". Chamado de Conselho de Monitores, o órgão interno era responsável por julgar as faltas cometidas pelos alunos e estabelecer penalidades e punições que depois seriam avaliadas por um Tribunal Escolar. Após a matrícula, os admitidos recebiam um número de identiϐicação (Mussum seria o interno 114-54), a ser usado em seus armários, uniformes e roupas de cama. A partir daí, o único contato com a família seria feito no último domingo de cada mês. A rotina diária incluía um toque de recolher, a marcha em pelotões e castigos ϐísicos humilhantes para quem desobedecia às regras. Além de surras, os monitores deixavam os alunos durante horas em pé, no meio do pátio, para servir de exemplo. O clima era tão severo que, a partir de 1962, as escolas da Fundação deixariam de receber alunos carentes com o intuito educacional para assumir a vocação de centro de correção para menores com ficha criminal.

Aos 12 anos de idade, Antônio Carlos Bernardes Gomes chegou ao Instituto Pro ϐissional Getúlio Vargas, uma das escolas da Fundação, em março de 1954, medindo 1,53 cm e pesando 42,4 kg, o bastante para ser inscrito como um candidato de "nutrição boa" e passar em um processo de seleção destinado a deϐinir se os internos tinham as mínimas condições de receberem estudo ou se deveriam ser enviados para sanatórios ou reformatórios. A vida dura dentro dos muros do internato era vista como oportunidade imediata de fugir da miséria, e ser aprovado mereceu comemoração. Ao contrário dos ciclos ginasiais dos colégios comuns, a grade curricular da Fundação exigia que o aluno aprendesse, além das disciplinas tradicionais, alguma proϐissão que lhe garantisse o sustento. No mais, ϐicar sem os parentes não seria propriamente uma novidade. Carlinhos já havia se acostumado até a passar as noites de natal longe da família, já que Malvina e Nancy trabalhavam dobrado, cozinhando para as ceias de feriados como a páscoa, o natal e o réveillon dos patrões.

A saudade dos jogos do Onze Terríveis e a vontade de jogar bola descalço na rua incomodavam. Mas, por outro lado, o tempo de internato fez com que crescesse o interesse do garoto pelo Flamengo. Nos mil cento e sessenta e sete dias em que ϐicou praticamente enclausurado na Fundação, o rubro-negro conquistou um épico tricampeonato em 1955, com um timaço composto por Servílio, Dequinha, Jordan, Zagallo, Evaristo Macedo e Dida. Comandados pelo técnico paraguaio Manuel Fleitas Solich, apelidado de El Brujo, o time da gávea conquistou o tri de forma emocionante, em uma série de três jogos que teve uma vitória de 1 a 0 no primeiro confronto, uma goleada de 5 a 1 do América na segunda partida, e uma ϐinal apoteótica com o atacante Dida, do Flamengo, fazendo todos os gols do placar de 4 a 1. Mussum nunca explicou quando ou por que se apaixonou pelo Mengão, mas há enormes chances de que ele e uma in ϐinidade de moleques tenham escolhido o time depois daquela tarde de Maracanã lotado.

Fora a eventual oportunidade de ouvir os jogos do Campeonato Carioca aos domingos, a rotina da Fundação Cristo Redentor fazia com que os internos pensassem muito mais em trabalho do que em diversão. Internos dos cursos de alfaiataria, padaria, pesca, sapataria, marcenaria, cestaria, lavoura, mecânica ou vassouraria tinham o dia inteiro marcado por uma agenda de atividades com hora exata para começar. Acordados às 5h da manhã, os garotos encaravam um total de sete horas de aulas, divididas em dois turnos. Em dias de semana, acontecia o seguinte: às 5h30, Educação Física; às 6h20, café da manhã; às 7h55, aulas teóricas; 11h20, almoço; 12h30, aulas práticas; 16h40, banho; 17h30 jantar; 18h45, estudo; 20h30, toque de silêncio. Para facilitar a transição entre o regime fechado de ensino e a entrada no mercado de trabalho, um pequeno salário era oferecido aos estudantes dos últimos dois anos, para que eles pudessem começar sua vida proϐissional. No caso de Antônio Carlos, o curso de ajustador mecânico rendia uma féria e a indicação para ser contratado como auxiliar em alguma o ϐicina. Foi o que acabou acontecendo em três de junho de 1957, quando o garoto recém-formado saiu da Fundação com 269 cruzeiros no bolso e uma indicação para trabalhar como aprendiz em uma garagem no Bairro do Rocha, na zona Norte, desmontando peças automotivas e ajudando em consertos gerais.

O trabalho seria essencial para o seu retorno ao convívio familiar. Naquela época, Malvina e Nancy haviam se mudado da Penha para morar em São Francisco Xavier, distante uma estação de trem do Morro da Mangueira, em um pequeno cômodo de uma cabeça de porco – apelido dado aos cortiços que reaproveitaram casarões do período colonial para abrigar de forma precária famílias de baixa renda. Ao retornar do colégio interno, Carlinhos precisaria dividir o quartinho com sua mãe e sua irmã, sobrando para ele uma cama de montar no pequeno

corredor que servia como sala improvisada.

A situação virou até piada, mais tarde, já nos anos 1990, quando Mussum gravou uma composição de Noca da Portela, Romildo Bastos e Toninho Nascimento chamada "Cabeça de porco". As diϐiculdades com o barulho dos vizinhos e a falta de banheiro nos quartos foram ironizadas de um jeito bem direto, na base do rir para não chorar. Antes do batuque começar, Mussum fala que, no cortiço, quando um rádio de pilha vacilava, fungando errado, a vizinha gritava: "Goza logo vagabundis, que eu quero dormir!". Na letra da canção, a explicação didática do cenário e das principais queixas dos seus moradores: "Cabeça de porco geralmente é um sobrado, que abrigava no passado gente da aristocracia/ Mas hoje em dia, totalmente alugado, serve para o desafortunado não ϐicar sem moradia/ Constantemente quando é hora do batente tem sempre gente na frente com toalha e guarda-pó para tomar banho e escovar os dentes/ Mas sempre rapidamente/ Porque o banheiro é um só".

A falta de privacidade não se resumia à diϐiculdade de usar o banheiro. As candinhas passavam o dia conversando com os cotovelos nas janelas do cortiço, e Carlinhos, que dormia perto do corredor, ameaçava ficar pelado na sala para evitar que o fuxico entre as comadres impedisse o seu sono. Somado à falta de espaço e de sossego, o jovem andava com um desejo enorme de ver o mundo após tanto tempo trancado no colégio interno. Depois de dar expediente na oϐicina, perambulava pela Leopoldina em busca dos antigos amigos de infância e, assim, acabou descobrindo o União da Guanabara, bloco do bairro que se tornaria sua segunda casa. Além de promover animados ensaios e rodas de samba, a agremiação saía pelas ruas sem nenhuma organização de alas ou coisa parecida, com os integrantes vestindo fantasias improvisadas e tocando instrumentos feitos artesanalmente.

Era um dos chamados blocos de sujos da periferia. Mesmo assim, era divertido e serviu como um primeiro contato mais sério de Carlinhos com o mundo do samba. Ali descobriria sua grande facilidade no domínio da percussão e começaria a entender que suas pernas compridas poderiam ajudá-lo a imitar os passos de mestre-sala com desenvoltura.

Nas reuniões com amigos do União aprendeu rapidamente a sambar, com base na observação, e começou a tocar pandeiro, tantã, surdo, agogô e tamborim, se bem que, na hora do partido-alto, esses instrumentos caíam sempre nas mãos dos sambistas mais experientes. Para o moleque, sobrava o velho reco-reco cavado no gomo de bambu. Se tocasse bem, muito bem. Se tocasse mal, aquele som não conseguia atrapalhar o pagode. Às vezes pintava até um reco de metal, mas coisa rara que era, não ficava inadvertidamente passando de mão em mão.

Incomodado com aquilo, Carlinhos aproveitou seus conhecimentos de ajustador mecânico recém-formado e o acesso às chapas, molas, porcas e parafusos da oϐicina para montar seu próprio instrumento e entrar de vez na bagunça. Era assim que os sambistas da época se viravam. Não muito longe dali, em Mangueira, Mestre Valdomiro havia descoberto alguns anos antes as maravilhosas propriedades do couro de gato na confecção de tamborins. Um tanto mais para trás, o pioneiro Bide, da Deixa Falar, usou um latão de manteiga para criar o primeiro surdo. E em quase toda roda de samba em que sobra gente e falta instrumento, qualquer caixinha de fósforo ou faca batida no prato acabam dando conta do recado.

O reco-reco montado na oϐicina fez sucesso no bloco e virou sobrenome para Antônio Carlos, agora chamado pela rapaziada de Carlinho do Reco-Reco, mas o sobrenome mudaria rapidamente por conta de uma feliz coincidência. No caminho diário para o trabalho, Malvina conheceu Rita de Oliveira, também moradora da zona Norte, também empregada doméstica e também mãe de um rapaz que estava saindo da adolescência. Os frequentes encontros e a longa jornada entre Parada de Lucas e Copacabana, entre a Penha e o Centro, logo ϐizeram com que as duas virassem comadres e combinassem de apresentar os dois filhos. Nilton, apenas dois anos mais velho, acabara de se alistar para a Aeronáutica e seria uma boa in ϐluência para Carlinhos. O que não estava no script das mães corujas era a paixão dos ϐilhos pela bola, pelo samba e pela cana. Nenhuma das duas imaginava que a amizade começada ali duraria 53 anos.

Nem bem foram apresentados, Nilton e Carlinhos formaram um elo muito forte. Mais que amigos seriam cumpadis, denominação que Mussum usaria pelo resto da vida para deϐinir seus amigos mais chegados, aqueles capazes de recebê-lo de madrugada sorrindo, acompanhá-lo por horas intermináveis de bebedeira e aconselhá-lo nos momentos mais diϐíceis. E foi assim desde o começo. Eles acordavam cedo aos sábados para jogar bola no campinho do Morro do Braga, emendavam a pelada com uma rodada de samba e cerveja e, quando alguma rádio começava a anunciar a transmissão da rodada do Campeonato Carioca, corriam descalços para o Maracanã.

Carlinhos torcia para o Flamengo e o amigo era botafoguense, mas isso não tinha in ϐluência nenhuma. O estádio era tão perto, as entradas da geral custavam tão pouco e os jogos eram tão recheados de craques, que qualquer partida valia a pena ser assistida. O futebol carioca vivia uma era de ouro, com esquadrões lendários atuando não apenas nos quatro clubes mais tradicionais como também no América e no Bangu. Um estrelado elenco de coadjuvantes perfeito para testemunhar a presença extraterrena de Mané Garrincha em campo.

Após os jogos, Carlinhos e Nilton voltavam para suas casas fazendo uma peregrinação pelas tendinhas e pagodes que encontrassem pelo caminho. Entre vários, o point preferido da dupla era um boteco na esquina da Rua do Matoso, próximo da Estação Praça da Bandeira, onde bebiam cachaça e comiam bolinhos de bacalhau até o dono do bar colocálos para fora, exausto, querendo ir dormir. A geral do estádio Mário Filho servia como ponto de encontro para o pessoal do samba e ali sempre surgiam convites para intercâmbios que levavam salgueirenses para a Mangueira e mangueirenses para o Salgueiro, além de outros destinos menos votados. Só havia um problema: sem nunca explicar o motivo, Carlinhos não gostava de subir para as entranhas do Morro da Mangueira. Morando ali pertinho, do outro lado da linha de trem, em São Francisco Xavier, ele não queria saber de passear pelos "bairros" da Estação Primeira. Sabia muito bem onde ϐicavam Buraco Quente, Candelária, Chalé, Olaria, Vacaria, Faria e Quinhentos, mas não arredava o pé da Avenida Visconde de Niterói quando ia junto de Nilton para a comunidade.

O amigo, por outro lado, se esbaldava pelas vielas da nação verde e rosa e ϐicava cada vez mais à vontade para frequentar vendinhas, rodas de samba e namorar com as belas garotas que moravam por ali. Nilton sempre insistia, sem sucesso, para o amigo acompanhá-lo. Mas Carlinhos ϐicava apenas no pé do morro, sentado, esperando por horas, sem sequer tomar uma cerveja nas vendinhas. Com o tempo, a situação começou a ϐicar insustentável. Nilton engatou um namoro sério com Eli Gonçalves da Silva, a Chininha, e não queria saber de fazer outra coisa que não fosse ϐicar em Mangueira. A moça era neta de ninguém menos do que Saturnino Gonçalves, um dos fundadores do Bloco dos Arengueiros, agremiação transformada por ele, Cartola, Zé Espinguela e Carlos Cachaça na Estação Primeira de Mangueira. A história da escola de samba e de sua família é uma só. Não houve – e provavelmente não haverá – nenhum samba-enredo, fantasia, ensaio ou desϐile mangueirense sem a participação de pelo menos um descendente direto ou indireto do velho Saturnino.

A histórica casa do clã, onde a escola começou ainda com o nome de Bloco Estação Primeira, em 1928, continuava de pé e tornara-se informalmente uma espécie de centro cultural do morro. No lugar do cenário atual, poluído pelo barulho dos carros e ônibus nas avenidas e pelo emaranhado de ϐios nos postes, havia ali um cenário bucólico com ares de cidadezinha do interior. A casa era cercada de ϐigueiras, amendoeiras, jambolões e pés de carambola, todas com os frutos enrolados em jornal, para evitar um banquete dos passarinhos.

Neuma, uma das ϐilhas de Saturnino, e seu marido Celsinho promoviam no local encontros com ϐiguras como Cartola, Padeirinho, Robertinho, Mestre Valdomiro e outros mangueirenses históricos. Rolavam, além das rodas de samba, churrascos, peixadas e feijoadas suculentos e, claro, cerveja e cachaça à vontade. O puxador Jamelão, também presença constante na área, gostava de comer um caju especial, aplicando seringas de cachaça no fruto e depois o deixando no congelador — tarefa entediante e trabalhosa, geralmente passada para o pessoal mais novo. Após passar o tempo certo na geladeira, Jamelão voltava à cena do crime trazendo um belo peixe do Mercado de Niterói e armava uma reunião regada a caju e pescados na brasa. Diϐícil saber se o samba ou o menu era o mais saboroso.

Quando não havia festa, a casa de Dona Neuma transformava-se em um segundo lar para a molecada de Mangueira. A matriarca abria suas portas para receber os meninos e meninas da favela cujas mães estavam trabalhando como domésticas e lavadeiras, dando de comer e até dando aulas básicas de alfabetização. Como costumava falar dois palavrões a cada três palavras, ou até mais, Neuma usava termos do seu cotidiano para ensinar a garotada. No lugar de "vovô viu a uva", mostrava como escrever expressões impublicáveis que faziam os alunos rirem muito, mas também prestar muita atenção.

Sem saber, Carlinhos estava perdendo tudo isso, mas, no belo dia em que se cansou de esperar o amigo e entrou na primeira vendinha que viu para tomar uma cerveja, acabou adotando e sendo adotado pela Mangueira de uma maneira arrebatadora. A identiϐicação com Neuma, Celsinho, Chininha e a dinastia mangueirense foi tão instantânea e forte que, anos mais tarde, Mussum diria com frequência que fora criado no quintal de Dona Neuma. Em cena, em "Os Trapalhões", usava sua relação com a comunidade como "certiϐicado de procedência" aplicado como resposta para quando um dos colegas de palhaçada duvidavam de sua masculinidade. Se Dedé falava "Cara, você está engraçado", Mumu retrucava com um "Sai pra lá! Fui criado na Mangueira! Lá não tem ninguém engraçadis, não".

A paixão tardia pelo morro começou com as festas na casa de Dona Neuma, onde constantemente acabava dormindo no mesmo canto em que a bebedeira o derrubava, mas foi aprofundada nas várias biroscas do Buraco Quente, parte da favela onde a rapaziada do samba se reunia para falar sobre a vida, compor e, claro, beber cerveja e cachaça. A demanda da clientela era tanta que os comerciantes nem ligavam para a concorrência. Qualquer barraquinho com dois metros de frente podia ser transformado em bar, bastava uma estante para expor dois ou três litros de cachaça e uma bandeja para os copos. Cozinha, geladeira e balcão eram opcionais. Já o caderninho, para pendurar a conta e pagar no ϐinal da semana, era obrigatório.

Dentro dessas opções, o point preferido de Carlinhos era a tendinha do Nenê Cotó, apelidado assim por ter o antebraço amputado após um acidente. Ali, bem no pé do morro, bebia qualquer coisa que caísse em seu copo e partia depois para dar um alô ao pessoal na birosca da Dona E ϐigênia, do outro lado da rua, onde era proibido cuspir no chão. Quem descumprisse a regra, tinha que aguentar muito xingamento e até pagar multa. Isso sem falar da quadra da Estação Primeira de Mangueira, apelidada de Cerâmica, onde o moleque era presença mais constante que o porteiro. A epopeia seguia morro acima de tendinha em tendinha e, dependendo das companhias e dos convites, a bebedeira poderia terminar na quadra do Salgueiro, em Vila Isabel, ou em qualquer quadra em um raio de muitos quilômetros. O caminho era sempre feito a pé, com paradas obrigatórias em todos os botequins pelo caminho. Durante a caminhada, o drink preferido era a cachaça, mais barata e poderosa. Mas, para não tomar a bebida pura, sempre rolava um xaveco para misturar a aguardente com algum ingrediente, para, pelo menos, suavizar seu gosto.

O limão ϐigurava como primeira opção, sendo seguido pela groselha e pelo mel. Na primeira receita, juntava-se a pinga com limão espremido e açúcar, o copo era chacoalhado e a mistura ganhava o nome de batida; a cachaça com groselha, por conta de seu tom vermelho opaco, ganhava o apelido de sangue; e a pinga com limão e mel, virou, simplesmente, o mé. Ao longo do tempo, como se sabe, a nomenclatura da última receita ganhou notoriedade nacional, e passou a servir para designar qualquer bebida alcóolica, com ou sem mel ou pinga. Mas isso só aconteceria muitos anos depois. Em meados dos anos 1950, Carlinhos, Nilton e a rapaziada mais jovem – e mais "duranga" – da Mangueira estavam mais preocupados em garantir algo para beber. Independentemente do nome, da receita ou mesmo da procedência.

O salário de Carlinhos como aprendiz de ajustador mecânico era curto e nem sempre era garantia o embalo do ϐinal de semana. O jeito era improvisar e caçar qualquer oportunidade de beber gastando pouco – ou nada. A caça por birita começava, toda sexta-feira, em uma encruzilhada perto da casa de Dona Neuma. O local sempre era escolhido pelos pais de santo dos terreiros da região para depositar despachos com galinha, farofa e garrafas de cachaça. Nilton e Carlinhos não ligavam para a blasfêmia e desfalcavam os santos. Um litro de pinga seria o su ϐiciente para garantir a diversão da noite, mas, antes de roubar os orixás, seguiam a superstição de urinar sobre a mão antes de pegar nas oferendas aos santos. De acordo com algo que ouviram morro adentro, o xixi serviria de proteção contra os exus que estavam sendo roubados. Evitava uma urucubaca. Depois de um tempo, o procedimento começou a ser esquecido. No lugar da mandinga, os cachaceiros começaram a checar sempre se as garrafas estavam com as tampas lacradas. A ϐinal, os furtos já eram tão constantes que eles tinham medo de que algum macumbeiro vingativo colocasse veneno na bebida. O apetite por uma caninha não era exclusividade da dupla. Em mais uma dessas baladas incertas, Carlinhos e Nilton encontraram um despacho com uma galinha viva, bem preta e bem gorda. Como estavam a caminho da farra, pegaram a garrafa de Pitú e deixaram a ave escondida, amarrada em um terreno baldio. Na volta, viram que não eram os únicos malandros do morro. A galinha furtada do despacho havia sido roubada de novo.

A blitz em busca de cachaça não era restrita aos ebós. Além de passar de vendinha em vendinha armando pinduretas e beliscando os petiscos dos amigos e dos amigos dos amigos, a dupla atacava de penetra em terreiros, aniversários, batizados, casamentos ou qualquer outra festa. Numa noite dessas, ao perceber um movimento fora do comum morro acima, a dupla acabou participando de um velório. Pior que isso, como já estavam calibrados, deram um vexame histórico. Convidados a ajudar a carregar o caixão, não seguraram as próprias pernas e deixaram o esquife cair. Quase deu briga... mas o vacilo virou lenda no morro e contribuiu para aumentar a fama daquele moleque gente ϐina. Em pouco tempo, Nilton passou a ser chamado de o Nilton do Carlinho. E Carlinhos, de Carlinho da Mangueira.

Junto com a fama de bom de copo, começava também a se espalhar entre os amigos a lenda da onipresença do personagem. Ele nunca perdia uma festa, uma pelada ou um jogo no Maracanã e, mesmo assim, não se atrasava para o trabalho na oϐicina ou para os ensaios da Mangueira ou do União da Guanabara. Um ϐinal de semana típico de Carlinhos começava na tarde de sexta-feira, após o expediente, com uma espécie de pescaria amorosa na Praça Serzedelo Correia, em Copacabana, aonde ia se engraçar com as cozinheiras, domésticas e babás que trabalhavam na região e, ϐindo o expediente, caíam no samba dos barzinhos.

No sábado, a melhor pedida era uma visita à Praia de Ramos pela manhã, um futebol de tarde e, logo na sequência, uma roda de samba com cerveja e churrasquinho de gato até a madrugada. No domingo, além dos jogos no Maracanã, era dia de participar dos ensaios na quadra da verde e rosa e, mais tarde, dar uma passada na roda de samba no Salgueiro. Carlinhos só chegava em casa às cinco da manhã, dormia por cerca de uma hora, levantava, colocava o macacão e pegava o primeiro ônibus rumo ao bairro do Rocha. Nem as broncas de Dona Malvina adiantavam. Dizia ela que "um dia essas horas de sono vão fazer falta", mas mal ela sabia que o ϐilho sempre dava um jeitinho de tirar um cochilo entre uma tarefa e outra, já recuperando a energia para o próximo final de semana.