Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões

Juliano Barreto · Capítulo 7 de 29

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Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões

Capítulo 5

 

 

CASSINO ROYALE – SP (1967)

 

"Estou mais duris que beiço de sino"

 

Overniz modernizante trazido por Stanislaw Ponte Preta para o

espetáculo "Pussy Pussy Cats" foi apenas um paliativo para a anunciada decadência de Carlos Machado e seu tradicional teatro rebolado. Enquanto o jornalista colhia os louros pelo sucesso de seu "O samba do crioulo doido", criando seu próprio show musical baseado na composição, Machado começava a ser encurralado pela mudança dos tempos. Além da maior consciência política dos jovens endinheirados, a essa altura consumidores de samba de raiz e inimigos dos alienados shows de mulatas e vedetes, a noite carioca terminava a sua metamorfose. De forma gradual, a mudança da capital federal para Brasília foi desviando os festivos políticos brasileiros, os funcionários públicos e, principalmente, os diplomatas e embaixadores estrangeiros do Rio. Essa emigração, consequentemente, tirou de Machado a parte mais rica de sua clientela e fez com que fosse cada vez mais diϐícil financiar grandes produções.

Para o "rei da noite", fazer shows menores era uma derrota dupla. Primeiro por não conseguir pôr suas sempre ambiciosas ideias em prática e depois porque a decadência era percebida pelo público e multiplicada cruelmente pela imprensa. Uma estreia de espetáculo com críticas ruins representava prejuízos por meses. E entre 1966 e 1967 isso aconteceu várias vezes. Para Mussum e Os Originais era desesperador ver o contraste entre o sucesso dos artistas nos festivais de música da poderosa TV paulista e os salões cada vez mais vazios do Golden Room e do Fred's. A salvação teria mesmo que vir da peça "O samba do crioulo doido", mas os planos de Sérgio Porto iam na direção oposta às intenções dos sambistas.

Junto com o convite para alçar voo solo e transformar sua composição em base para um musical chamado "Show do Crioulo Doido", Sérgio Porto recebeu a proposta de gravar o samba em um disco compacto. Como o cronista não se arriscava a cantar, naturalmente, era esperado que Os Originais do Samba fossem convidados para reproduzir no estúdio o que faziam com tanta competência no palco do Fred's. Os ritmistas ouviam conversas sobre a gravação do disco aqui e ali, nos bastidores da boate, mas o convite para a gravação nunca chegava. Ao encontrar-se com Porto e perguntar sobre os rumores, Mussum ouviu uma resposta seca:

— Vocês não têm nome para gravar o meu disco.

O jornalista explicou depois que havia decidido fazer seu show próprio longe da in ϐluência de Carlos Machado e do batuque rústico dos Originais. Daria uma roupagem mais moderna para o musical, usando um elenco reduzido e alçando as cantoras do Quarteto em Cy à condição de estrelas principais. A ideia era subir ao palco como Stanislaw Ponte Preta, contando piadas e brincando com a plateia, e nada mais adequado ao personagem do que aparecer cercado de mulheres bonitas, ou, como costumava escrever nas suas colunas, certinhas. Assim, Cybele, Cylene, Cynara e Cyva foram ao estúdio e sobrou para os Originais fazerem o coro na gravação. Foi uma oportunidade dolorosamente perdida. Noite após noite de apresentação, Mussum sabia o quanto "O samba do crioulo doido" agradava o público, replicar aquele fenômeno em disco era sucesso certo. E não deu outra. O "Show do Crioulo Doido" e a nova versão com o Quarteto em Cy ϐizeram um grande sucesso, tendo vendas expressivas nas lojas de discos e uma bem-sucedida temporada de quase dois anos, feita até com mudança de teatro, para acomodar mais gente na plateia. Restou aos Originais o papel de coadjuvantes e a mágoa por ajudarem Sérgio Porto e não terem tido em troca a chance de gravar seu primeiro hit.

Para piorar as coisas, começou a ser espalhada a notícia de que o contrato de Chico Anysio com a Tupi não seria renovado. Por conta do enorme sucesso do "Chico Anysio Show", a poderosa TV Record de São Paulo teria feito um convite irrecusável para o comediante trocar a Urca pela Consolação. Mussum e Os Originais torceram para que fossem mesmo só boatos, do contrário, a boquinha na TV mais uma vez seria encerrada. Mas em outubro de 1967 a notícia se con ϐirmou e Chico deixou o canal 6 carioca, para estrear no ano seguinte o programa "O Rei e Eu", junto de Roberto Carlos, além de fazer parte da forte grade de programação da emissora dos sucessos "Família Trapo", "Corte Rayol Show", "Esta Noite se Improvisa", "Show do dia 7" e, claro, dos famosos festivais de música brasileira.

Chico não seria o único artista seduzido pela força do show business paulista naquele ano. Além da fortíssima TV Record, grande catalisadora das modas da Bossa Nova e da Jovem Guarda, a noite da cidade passava por uma reinvenção nos anos 1960. Com a música brasileira em alta, o centro da cidade e a região do Jardins passaram a abrigar casas de shows, teatros e restaurantes de diversos tamanhos e estilos. Cantoras, violonistas, compositores e instrumentistas dos mais variados gêneros, do clássico ao regional, vinham de todas as partes do Brasil para tentar a sorte na TV ou nas gravadoras, mas sabiam também que, enquanto a sorte não sorrisse com um sucesso, poderiam ganhar bem na noite, no rico circuito dos clubes, nos bares dos hotéis de alto nível e até nas festas das promissoras cidades do interior do estado. Os boêmios daquele ϐinal de década podiam escolher entre numerosas opções onde ouviriam música de excelente qualidade. Era o auge do Deck, na Avenida 9 de Julho, do Chamonix, na Rua Pamplona, do Belisco, na Caio Prado, de O Beco, na Bela Cintra, do Arabesque, na Jaguaribe, de A Baiúca, na Praça Roosevelt, do Stardust, no Largo do Arouche, e do já clássico Terraço Itália, na Avenida Ipiranga.

No Rio de Janeiro, por outro lado, havia um ditado popular circulando entre a classe artística, diminuindo a importância da cidade rival e dos pro ϐissionais que por lá se apresentavam: "tudo que no Rio é merda, São Paulo herda". Mas essa piada não fazia sentido para Carlos Machado. Entre a vanguarda do entretenimento e a bonança ϐinanceira, o produtor jamais hesitaria em escolher a segunda, e foi a São Paulo procurar um espaço para montar uma casa de shows capaz de recuperar os prejuízos acumulados na noite carioca. A missão não seria fácil. O endereço paulista de Machado precisaria ser bom o su ϐiciente para atrair a clientela da alta sociedade e, ao mesmo tempo, barato o suϐiciente para caber em um orçamento apertado. O triângulo da Boca do Luxo, formado pelas badaladas ruas do Centro e do Jardins, logo se mostrou inviável e a solução foi apelar para a camaradagem de um velho amigo, o também gaúcho Léo Schneider.

Schneider era dono de uma churrascaria chamada "A Chimarrita ", no número 5.291 da Avenida Santo Amaro, na zona Sul da capital. A casa, além das carnes e do chopp Brahma, promovia atrações musicais diariamente, com jantares dançantes, o conjunto de Uccio Gaeta, o organista Nelson Valente e a cantora Marta Baschi. Até artistas famosos, como Altemar Dutra, ϐizeram shows por lá, mas nada disso ajudava a colocar seu nome em pé de igualdade com casas de carnes mais so ϐisticadas, como a Ponteio, da Haddock Lobo. O endereço da Chimarrita não ajudava. A única atração próxima do local era o monumento em homenagem ao bandeirante Borba Gato, obra tida por muitos como a estátua mais feia de São Paulo, e a clientela era formada praticamente por sócios do Clube do Banespa. O jeito era apelar para os anúncios que diziam no slogan: "a única que não fecha nunca".

Apesar da localização desfavorecida, Machado enxergou ali uma oportunidade e tanto. O produtor percebeu na hora a imensa breguice da decoração típica e a incompatibilidade entre os espetos e linguiças servidos nas mesas e a programação musical dançante no salão. Removendo excessos e dando seu toque pessoal, Machado acreditava que A Chimarrita poderia ser transformada em um local de classe. Assim, fez uma proposta de parceria e ϐicou responsável por uma completa reformulação na decoração, na agenda de atrações, no bar e no restaurante. Propôs, logo de cara, uma mudança no nome da casa.

No lugar do acaipirado nome regional, o estabelecimento passaria a se chamar Cassino Royale. Teria o mesmo clima do cassino de Estoril, cenário do ϐilme de James Bond, sucesso de 1967. No restaurante, pratos da cozinha internacional; no bar, os melhores uísques e champanhes nacionais e importados. No palco, como não poderia deixar de ser em uma atração de Carlos Machado, belíssimas vedetes emplumadas e o samba típico das escolas de samba do Rio de Janeiro, ou seja, Os Originais seriam convocados para batucar na terra do "Trem das onze".

Para Mussum, a esnobada de Sérgio Porto e a saída de Chico Anysio da Tupi foram duros golpes. Nunca os Originais tinham chegado tão perto do sucesso consagrador. E por méritos próprios, sem o intermédio de empresários ou do comando centralizador de Zé Luís. O convite de Carlos Machado para uma longa temporada de shows diários em São Paulo, portanto, chegava em uma hora de de ϐinição para Os Originais. Seria preciso escolher entre insistir na vida de altos e baixos dos palcos ou desistir do sonho de ser artista, trabalhando durante a semana e encontrando-se com o samba apenas nas quadras e botequins das favelas.

Jonas decidiu escolher a segunda opção. Preferiu ϐicar em Mangueira, levando a vida de recém-casado com a cantora Ilsa, e esperando por chances melhores no próprio Rio de Janeiro. Pesaram na decisão também as experiências negativas no México. Se no auge do sucesso Machado cumpriu poucas de suas promessas, imagine como seria agora, na época das vacas magras.

Poderia ter sido o ϐim dos Originais, mas Mussum, magoado e com gana de mostrar que podia vencer, não saiu do ritmo. Convenceu os companheiros do grupo a toparem a empreitada paulista. Como argumento para provar sua disposição, desistiu de seguir carreira militar, solicitando a baixa das funções de cabo da Aeronáutica após mais de oito anos, muitas risadas e também muito aprendizado. Deixaria para trás também Leny e seu ϐilho Augusto, com a promessa de conseguir mais dinheiro em São Paulo do que no Rio. Mussum colocaria suas últimas esperanças em jogo no tal Cassino Royale.

Em 30 de novembro de 1967, a Chimarrita já não existia mais. Após uma grande reforma, abriam-se as portas do Cassino Royale trazendo como atrações uma composição clássica dos melhores espetáculos de Carlos Machado: bailarinas, comediantes, ritmistas de escolas de samba, pianistas, a cantora internacional Cleide Magalhães, vedetes no esquema muito luxo e pouca roupa e um crooner costurando uma atração e outra. Com espaço para 300 pessoas, a casa cobrava entradas de até 80 cruzeiros, dependendo da localização da mesa escolhida (vale lembrar aqui que a moeda nacional teve zeros cortados para maquiar a in ϐlação e passou por um breve período em que se chamou cruzeiro novo). No cardápio, as chuletas e maminhas foram substituídas por pratos com camarões frescos, faisão e melão com presunto cru. No bar, champanhe francês e drinks da coquetelaria mundial.

Nem tudo foi importado do Rio de Janeiro sem adaptações. A fórmula consagrada precisou ajustar-se ao horário de funcionamento da casa. Na época, os paulistanos não queriam badalação até a alta madrugada, como era de praxe na antiga capital federal. Por isso, foi criada uma programação com atrações mais curtas, divididas por intervalos menores. Os shows começavam às 22h e duravam 20 minutos cada. A apresentação principal começava à 1h15 e tinha duração de 40 minutos, com couvert de Cr$ 4 por show.

Era o cartão de visitas para entrar com o pé direito na noite paulistana e atrair os ricaços para a grande noite do réveillon. E após a inauguração merecedora de elogios, os convites para passar a noite da virada no Cassino Royale viraram sonho de consumo para a elite de São Paulo. Machado tinha conseguido respirar de novo. A aposta de Mussum começava a se pagar, embora todo o luxo da boate não compensasse as saudades causadas pela distância da família, dos amigos e do morro, em uma noite de ano-novo onde a necessidade de trabalhar superou a vontade de estar próximo de seus entes queridos.

Aqueles primeiros meses em São Paulo não foram fáceis. A rotina diária de shows era cansativa e não deixava tempo para explorar as possibilidades artísticas da cidade. Para não gastar todo o dinheiro ganho no palco com aluguel, Mussum pulou de canto em canto, aproveitando-se da sua grande rede de cumpadis. Dormiu em pensões e pousou na casa dos amigos de amigos que não via há muito tempo. Chegou a dividir uma quitinete no Residencial 14 Bis, no número 235 da Rua Paim, na Bela Vista. O local era um dos mais famosos cortiços verticais da capital em virtude dos apelidos dados aos ediϐícios Demoiselle, Caravela e 14 Bis. Os prédios eram chamados de "treme-tremes", por causa das brigas de fazer as paredes tremerem; de "joga chave, meu bem", por conta dos maridos bêbados que de madrugada pediam a liberação da entrada por as mulheres iradas; e também de "jogo de damas", devido à quantidade de coisas arremessadas das janelas —incluindo, mulheres in ϐiéis. Depois de um tempo, alugou um apartamento no famoso Ediϐício Martinelli, um arranha-céu com fachada arquitetônica digna de Manhattan, mas que ϐicava ali mesmo na Avenida São João e tinha praticamente se transformado em uma enorme favela vertical.

A situação dos outros músicos era ainda mais precária. Chiquinho, Rubão e Lelei dividiam um pequeno apartamento na Rua Aurora 544, em cima do Cine Áurea, famoso por seus shows de striptease. Lá ainda morariam Almir Guineto, irmão de Chiquinho, e o amigo Luís Carlos, o Chuchu. Apesar do aperto, essa época ϐicou marcada por uma excelente safra de composições. O espaço era pouco maior do que o de uma quitinete e era ocupado quase que totalmente por beliches. Como sempre cabia mais um ali, foi apelidado de quitão. Luís começou ali várias das canções que mais tarde seriam hits dos Originais do Samba, e Almir, ainda adolescente, rabiscou os versos de seu sucesso mais marcante "Coisinha do pai".

O substituto de Jonas na função de tocador de pandeiro, coreógrafo e ϐigurinista também foi encontrado em um desses cafofos do centro de São Paulo, embora o músico fosse carioca e velho conhecido dos Originais. Tratava-se de Arlindo Vaz Gemino, o popular Bigode do Salgueiro. Sem nunca ter cultivado um bigode de verdade, seu apelido fazia maldosamente referência a uma mancha de pele que tinha no buço. Dependendo do ângulo, o sinal de fato parecia um bigode.

Amigo de Mussum desde a época dos ensaios da Mangueira na Cerâmica, o músico havia mudado para São Paulo há pouco tempo, buscando melhores oportunidades na noite e também trabalhando como ourives. Vivia em uma das muitas cabeças de porco do centro velho de São Paulo, aquelas com o banheiro do lado de fora do quarto. À noite, se batesse uma vontade de urinar, recorria a um penico para não passar frio. Estava tão duro quanto os outros sambistas e aceitou de pronto o convite feito por Chiquinho, embora a amizade com os integrantes dos Originais e a reputação como passista do Salgueiro não tenham sido su ϐicientes para que seu nome fosse consenso absoluto para a vaga de Jonas. Os Originais achavam que Bigode era branco demais para participar do grupo, por isso ϐizeram o rapaz de "cabelo escorrido" tocar algumas vezes como teste antes de efetivá-lo.

Arlindo passou com sobras nas "entrevistas de emprego" graças ao seu jeito elegante de sambar. Alto e de silhueta esguia, sambava mexendo as pernas longas em movimentos curtos e discretos, quase como em um tango, sem que o a parte de cima do corpo se desestabilizasse.

A formação dos Originais para a temporada paulistana estava completa, mas teriam que sambar também fora dos palcos para se virarem. Sem grana para aproveitar a alta gastronomia da capital, o cardápio dos músicos era simplório, com muito arroz com ovo e, nos dias melhores, sanduíches de mortadela. O bom humor ao menos era farto. Os pratos foram apelidados de arroz a cavalo e paixão de malandro. Fora isso, rotineiramente, os sambistas passavam boa parte do dia com uma média e um pão na chapa na barriga. Nem o samba de roda eles podiam fazer para se distrair. Bem próximo de onde viviam, estava a sede do Batalhão Tobias de Aguiar, órgão da polícia militar paulista que viria a se tornar a temida Rota anos mais tarde. Se um sambista fosse visto pela PM na madrugada, fatalmente ele teria seus instrumentos quebrados, tomaria alguns tapas na cabeça e passaria a noite na cadeia por vadiagem.

Em contraste com a falta de liberdade na rua e de carne na mesa, no copo as coisas iam muito bem. O uísque rolava solto no Cassino Royale e Mussum e Rubão disputavam quem enxugava mais garrafas ao longo da semana. Pegando um gole aqui e outro ali, a dupla signiϐicava um belo prejuízo para as contas da casa. Uma dose de uísque na boate saía por Cr$ 2,5, uma de whiskey por Cr$ 4. Em valores da época, com o salário mínimo estimado em Cr$ 84, o desfalque alcóolico não passou batido e virou motivo de briga. O maître da casa, que não escondia de ninguém seu desprezo pelos músicos e funcionários negros, decidiu dar um basta nos desfalques, reuniu todos os funcionários no salão e começou a passar uma descompostura geral. No meio das reclamações e lições de moral, referiu-se aos músicos dos Originais como "esses macacos". Foi aí que o tempo fechou. E, nessas horas, o conjunto também era bem aϐinado. Quem viu a briga entre os funcionários do Cassino Royale diz que os dois sambistas deixaram cinco colegas de trabalho deitados na base da porrada.

A confusão não causou maiores estragos e a temporada de shows no Cassino Royale seguiu bem. A atração conseguiu entrar no mapa dos grãϐinos com os bons shows do cantor Sergio Luis e dos conjuntos de jazz com Robledo, Nelson Valente e Miguel Nastari, mas os planos de Mussum para os Originais não ϐicariam restritos à Avenida Santo Amaro. O sambista sabia que a melhor maneira de fazer seu conjunto evoluir seria novamente arrumar algum espaço na televisão. Dessa forma, foi atrás de contatos entre os amigos músicos e produtores que frequentavam o Cassino Royale, como atrações ou como convidados. Desses pedidos, chegou então uma oportunidade de ouro: apresentar-se na TV Record, fazendo fundo para os convidados do programa "Bossaudade", apresentado por Elizeth Cardoso.

Mais que tocar com a reputadíssima cantora, a chance de aparecer no Canal 7 signiϐicava ϐicar perto de um elenco de primeira categoria. Para se ter uma ideia, a programação da emissora incluía semanalmente atrações como o musical "Vamos S'imbora", às quartas, com Simonal; a gincana entre músicos "Esta Noite se Improvisa", às quintas; o "Roberto Carlos à noite", às sextas; o "Astros do Disco", aos sábados e a "Jovem Guarda" aos domingos.

Na época, Elizeth, também chamada de A Divina, foi convocada pela direção da emissora para resgatar o samba e os sambistas do passado. Com a emergência da Bossa Nova, da Jovem Guarda e da MPB, artistas queridos do público e em plena atividade, como Cartola, Aracy de Almeida e Jamelão, apenas para citar nomes de peso, estavam sem espaço na TV. A ideia era colocar a Velha Guarda no ar, mas, felizmente, Elizeth usou o programa também para dar oportunidades aos jovens talentos que ela conhecia durante suas turnês pelo Brasil afora.

A apresentação dos Originais seria no Teatro Record, na Rua da Consolação, e os ensaios começaram à tarde. Como de costume, a sessão rítmica dos cariocas começou devagar e foi subindo de temperatura gradualmente até chegar no batidão de escola de samba em auge de

desfile.

Como o teatro estava vazio, o som do surdo de Rubão fazia vibrarem os corredores do lugar e chamou a atenção de artistas e funcionários que estavam lá para os preparativos das transmissões daquela noite e acabou hipnotizando a todos com sua batida. Entre essas pessoas, estava Solano Ribeiro, principal produtor musical da Record e homem responsável pela criação dos lendários festivais de música popular brasileira dos anos 1960. Graças a Solano, Chico Buarque, Elis Regina, Edu Lobo, Caetano Veloso e boa parte dos nomes mais importantes da MPB tiveram suas primeiras chances de brilhar na televisão. Impressionado com o som e alegria dos Originais, o produtor mal esperou o ensaio acabar para bater um papo com os sambistas. Em maio, a Record faria um novo festival e, se eles topassem, poderiam participar da disputa como opção de acompanhamento para os músicos participantes da competição. Mussum, é claro, aceitou a proposta imediatamente.