O Inferno

Auguste Callet · Capítulo 13 de 77

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O Inferno

Capítulo II

Explicação natural das tradições pagãs ácerca do inferno

Que monta recorrer a revelações miraculosas? É facilima coisa explicar naturalmente as tradições pagãs ácerca do inferno.

Este social estado que conhecemos, no qual o direito de cada um é definido por lei, e protegido por força publica, não é o primitivo estado do genero humano. No principio, a unica sociedade foi a familia, e, por extensão, a tribu. Cada homem se protegia a si, e sahia em desaffronta propria; parentes e servos bandeavam-se na pendencia, e a menor tentativa contra o direito privado espadanava ondas de sangue. N'esses remotos tempos, vingança e justiça eram uma só cousa.

Ora, é verdade que a vingança procede do sentimento de justiça, mas ultrapassa a justiça sempre, porque é egoista, cega, orgulhosa, colerica, não mede, não se compadece, dá mal por mal, e usurariamente o dá. A mais antiga das leis judaicas, a lei cruel de talião, foi lei misericordiosa; abalisou as retaliações; cabeça por cabeça, olho por olho, dente por dente, e mais nada. A vingança queria mais: arrancava os dois olhos, e não se saciava. Na Thracia, em Grecia e Roma, nas Gallias, na Germania, em toda a terra houve tempo em que os inimigos captivos eram sacrificados aos deoses, e estrangulados pelos sacerdotes do altar. Os que o ferro poupava eram ainda mais dignos de compaixão: condemnavam-os á escravidão com a sua posteridade—ao trabalhar sem proveito, e á miseria infinita. Entre as familias, tribus e raças ardiam odios hereditarios; pagava o innocente pelo culpado, porque era commum dever o assassinal-o.

E tudo isto se figurava justo, e hoje ainda entre as nações christãs, aqui e alli, subsistem vestigios d'estes antigos costumes.

Se insistem em que os pagãos conheciam o peccado original, a maldição do genero humano e as penas eternas, força é confessar que elles, segundo procediam, procuravam incitar a justiça divina. Que melhor modelo lhes sahiria a ponto?