O Inferno

Auguste Callet · Capítulo 43 de 77

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O Inferno

Capítulo VII

Ultimas considerações ácerca do inferno theologico

Affirmam os theologos que a liberdade é um mero accidente da nossa vida mortal, e que, além da campa, se perde, tomando-nol-a Deus que nol-a dera, e quebrando entre nossas mãos, no momento da morte, aquelle instrumento de nossas provações. Os justos são esbulhados d'ella para permanecerem justos, e os máos tambem para ficarem máos. Diz-se que Satan prevaricou por que era livre; e, depois da queda de Satan, no céo não houve mais creaturas livres, nem tão pouco no inferno, onde o proprio archanjo está acorrentado ao peccado.

Não são, por isso, livres os condemnados. Pensam, amam, desejam; mas não lhes é concedido meditar, amar e querer senão maldades. Soffrem e sabem o porquê; mas não podem aproveitar-se do que sabem e do que soffrem. Conhecem os seus crimes; porém, não se arrependem, porque o arrependimento é um bem, e o bem não podem elles sentil-o. Se peccam sempre, é que a tanto são obrigados por sentença. Conservam razão e sentidos; mas consciencia não a tem, não discernem entre justo e injusto; não são senhores de seus actos; soffrem avassalados pelos sentidos, apezar da razão.

Esta escravidão absoluta, irremediavel e eterna, explica superabundantemente a immoralidade e o odioso de suas penas. Pois se de todo em todo lhes é impossivel a conversão, inutil e deshumano é o castigo corporal que os tortura.

Se não fosse a perpetuidade d'esta escravidão, seriam intelligiveis a fome, a sede, o lago de sulphur, a cama d'espinhos, o cavalete, a roda, os tractos a fogo e ferro. Vá d'exemplo: eis aqui um criminoso impenitente, que ha folgado com os soffrimentos alheios e calcado todas as leis da terra. Morre. Acabou-se tudo para elle? Não. Que vá, n'outro mundo, saber á sua custa o que é dôr, e que piedade merecem os que soffrem. Deus é bastante poderoso para o castigar a ponto de o fazer bradar por misericordia; é justo que o não poupe; exige-o a humanidade, com a condição de que esse peccador castigado seja ainda homem, isto é, um ser não só intelligente e sensivel, mas livre, e, por consequencia, susceptivel de emenda. Mas, se antes de o ferir, lhe tira o recurso do arrependimento; se, em vez do homem, o que temos á vista é um mero bruto sobrenatural, monstruoso, ignobil, a quem a dôr nada ensina, e a razão nada presta, máo por necessidade, torturado, sangrento, nojoso, gemente... ah! quem falla ahi de justiça? desfaçam por piedade esse monstro; basta de padecer; logo que lhe tirastes a liberdade, restituida lhe foi a innocencia.

Quando uma creança brinca á beira de um poço, e cahe apezar dos avisos da mãe, a pobre mãe não respira em quanto a não salva; corre logo sem attender á desobediencia, porque a vê mais carecida do soccorro quanto maior é o perigo; para castigo lhe basta a quéda. Que diriam os theologos, se aquella mãe, em vez de tirar do poço o filho, lhe fosse quebrar braços e pernas, e cobril-o de pedras? O que elles theologos imaginam que Deus faz, é aquillo mesmo. Aviltam-no quanto podem.