O Inferno

Auguste Callet · Capítulo 57 de 77

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O Inferno

Capítulo VII

E uma voz exclamava: Oh! quanto eu soffro, Deus meu! Isto não terá fim? Vós, Senhor, que me atirastes ignorante a um mundo escuro, não me julgaes, apoz tantos seculos, bastante castigado dos meus desvios d'um dia?

E outra voz exclamava: Quando os meus peccados aqui me abysmaram, vossa mão, ó Deus, me amparava, e me ampara ainda; e, assim mesmo, em logar de diminuir, o meu supplicio augmenta. Soffro com quantos de longe molestei: tenho fome com os que eu poderia fartar; tenho frio com os que eu poderia vestir; peza sobre mim a cada hora e cada vez mais esmagadora a carga de males que fiz pezar sobre outros. Multiplicaram-se as minhas offensas como a herva sobre a minha campa esquecida, e as minhas feridas sangram sempre, e as minhas chagas lavram sem cessar. Isto é justo, meu Deus! Poderia eu ser feliz no céo, se visse o effeito de minhas obras? Em quanto fructifica a arvore fatal que plantei na terra, puni-me, Senhor! Mas não me tireis a esperança! O pouquinho bem que fiz na vida não germinará nem cobrirá, se o permittirdes, os vestigios das minhas iniquidades? Oh! quando nenhum ente vivo, n'algum logar do mundo, já não podér imputar-me seus soffrimentos, tende então piedade de mim, meu Deus!

E todas as almas peccadoras, unindo-se em um brado de misericordia, repetiram juntas, lá das reconditas profundezas: Tende piedade de mim! Tende piedade de mim!

Esta supplica em commum era a um tempo tão suave e dilacerante que eu imaginei que o ceo se abriria. Mas a noite que me envolvia espessou-se mais glacial; e o abysmo emmudeceu; e, apoz um instante de esperança, continuou a lamentar-se, correndo como o oceano nas fragarias da costa.

Ai! ai!—conclamavam os gritos que se extinguiam soluçando—é surdo o céo! é surdo o céo!

Nunca! nunca!—diziam outras vozes—Nunca! nunca! Meu Deus, que resposta á dôr! Nunca! nunca!

Descançai, filhos!—bradou um condemnado, que se me figurou, no tom de voz, ser um dos patriarchas do abysmo—Não profirais essa palavra horrida. Ahi sôa em vossos pobres seios um ecco das maldições da terra, e não palavra descida do céo. Ha mais de mil annos que padeço, e oro, e escuto o céo, e não ouço a resposta. Oremos, oremos sempre!

E o ancião entoou um cantico; e, ao primeiro versiculo, parou e debulhou-se em lagrimas.

Ai!—ressoavam ao longe milhões de almas gementes—Ai! o céo é surdo! o céo é surdo!

N'este lance, uma voz sobrelevou a todas, dizendo:—Ensinai-nos, ao menos, Senhor, a utilidade dos padecimentos. Se nos perdoasseis, acaso a vossa gloria padeceria com isso? A felicidade dos justos soffreria diminuição? Revoltar-se-hiam elles contra vós? Logo que as creaturas entraram á vossa presença, não se lhes acrisolaram os sentimentos de piedade? O padre que me estendia a mão quando era mortal e sujeito ao peccado, a esposa que eu amava, a mãe que me gerou, os amigos que me trahiram e aos quaes perdoei, os pobres que soccorri, e uma filha ingrata e amada a quem eu daria a comer o meu coração em ancias de fome, nem essa, ninguem vos intercede por mim? Hontem oravam elles quando eu me rejubilava nas culpas; pranteavam-me vivo e oravam por mim; e hoje esquecem-me, pendem para o crime, fogem da dôr; o amor a quem soffre e geme é sentimento ephemero, que vai mal para entes bemaventurados.

E a voz que fallava assim ergueu-se ainda para amaldiçoar, mas falleceu-lhe a força, e á maneira do vagalhão que rossa a nuvem rugindo, subita recaiu e expirou em prolongado gemido.

Mas logo um brado novo retumba mais estridente ainda, e, eu, ouvindo-o, não distinguia se era oração, se blasphemia.

E bradava:—Creio na vossa justiça, meu Deus; mas deixai-me crêr na vossa misericordia. Não é ella tão infinita como a vossa justiça? Não é eterna? Se me perdoaveis quando eu estava na terra, porque não me perdoais aqui? Se eu sou o mesmo peccador, não sois vós o mesmo Deus? E, se a morte me mudou, pôde a morte d'um ente como eu mudar a vossa immutavel natureza? Cansou-se acaso a vossa bondade? Exhauriu-se? Sois vós susceptivel de cansaço? E, se alguma de vossas virtudes é transitoria, de circumstancia e occasional, é forçoso que seja a bondade, aquella ineffavel bondade que nós ignorantemente consideravamos lá em cima a mesma essencial e inalteravel virtude vossa! Se assim é—proseguiu a voz desesperada—anniquilai-me, Deus Omnipotente! Esta existencia é inutil; sou de mais no universo. Que lucraes com as minhas dôres? Tendes precisão d'ellas? Retomai esta vida de que sem duvida abusei, e esta intelligencia que perverti; apagai em mim esta luz, visto que principiam a rasgar-se os veos que a escurentavam.

Tirai-me a lembrança do céo, a ancia de ser feliz, a necessidade d'amar, a necessidade de saber; tirai-me, sobre tudo, por piedade, o sentimento da justiça, porque eu não sou Deus, e a vossa justiça é um mysterio, e contra minha vontade, a blasphemarei. Deixai-me morrer, ó Deus! Deixai morrer quem soffre! Matai o peccado incuravel e a dôr esteril, a fim de que na creação não haja um só atomo que não palpite de reconhecimento e alegria, ao ouvir o vosso nome santissimo.

E um clamor horrendo abafou a voz que fallava; e, d'um angulo a outro do abysmo, todas as almas em tortura escabujavam, rogando a Deus que as deixasse morrer. E pediam a morte como os famintos mendigam pão; chamavam-na com os gritos da mulher em angustias de parto do seu primogenito, com a dôr da victima na fogueira, com o rugido da leôa que perdeu os cachorros, com o balido do cordeirinho que procura a mãe. E eu tambem a chamava, e me pareceu vêl-a aproximar-se, e beijei-lhe a mão glacial; e, quando me sentia morrer, despertei.