O Inferno

Auguste Callet · Capítulo 48 de 77

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O Inferno

Capítulo VI

Os primeiros blasphemadores são, logo, os inventores d'aquelle imaginario supplicio. Á maneira dos idolatras, fraccionaram Deus, extremando entre justiça e bondade—attributos indistintos. De modo que essas presumidas blasphemias do inferno são sómente um ecco das que esbravejaram nas almas d'elles, ao contemplarem a sua obra.

 

VI

Deus é justiça e misericordia conjuncta e indivisivelmente. Nos actos da sua justiça ha sempre um fundamento de misericordia; e, nos actos em que sómente a sua misericordia realça, ha um fundamento de justiça. É offendel-o dizer que é misericordioso sem justiça para uns, e justiceiro sem misericordia para outros. Isto é falso quanto ao tempo e quanto á eternidade. É justo Deus com os justos coroando-os, por que se a salvação d'estes fosse gratuita e mera complacencia particular, favor e não recompensa, o castigo dos peccadores seria iniquo. Na gloria, pois, dos bemaventurados reina tanta justiça quanta misericordia.

Mas, se Deus, no outro mundo, é justo para os eleitos, por que não ha de ser misericordioso com os peccadores?

Mostrais-me a sua misericordia no ceo; e eu tambem lá vejo a sua justiça.

Mostrais-me a sua justiça no inferno, e eu tambem lá procuro a sua misericordia.

 

VII

A condemnação do vosso inferno está na necessidade logica e invisivel que lá obriga a offender e amaldiçoar Deus. É isso possivel? Deus quer ser injuriado eternamente? Não quererá antes ser adorado e abençoado por todas as creaturas? Adoram-no os santos em jubilo, e os mortos, que pune, adoram-no em penas, por que sabem que ellas hão de ter fim.

Seja-me testemunha o Evangelho.