O Inferno
Capitulo Terceiro
OS FRUCTOS DO INFERNO
I
O bem
(BEM NEGATIVO, MONGES, ANACHORETAS, ETC.)
Se a morte vos sobresaltêa antes da penitencia, diz-se que sois condemnado por erro de espirito, por fraqueza dos sentidos, por um lance d'olhos, por um desejo culposo, e condemnado, sem esperança, tanto como se houvesseis sido um ladrão calejado, um parricida, um atheu. Lá vos está esperando o Senhor da vida; e ahi ides enredado em vosso peccado como ave cahida no laço. E tudo se acabou; tudo, sem que os vossos longos serviços ao genero humano contrabalancem o peccado final!
Se, no entanto, comparaes tudo que se ha mister fazer para ganhar o ceo ao pouco que basta para cahir no inferno, sereis forçado a reconhecer que as probabilidades são dissimilhantes, e que o mais certo, faça-se o que se fizer, é a condemnação.
D'onde procede nas imaginações vivas a dominante preoccupação de evitar o inferno; e d'ahi, pelo conseguinte, e desde os primeiros seculos, uma especie de singulares virtudes, mais espantosas que bellas, mais extravagantes que insinuativas: virtudes falsas, sem utilidade do proximo, bem que os theologos no'l-as inculquem por ideal da perfeição christã. Tal é o retiro ao deserto, a renunciação propria, o morrer antecipado, o fugir combates da vida, o desquite de deveres da familia e da cidade, a ociosidade contemplativa e penitente, a maceração, o jejum, o perpetuo silencio, a insulação, o odio ao mundo, a oração entre quatro paredes. É, tambem, a santificação do celibato, como se a fecundidade dos sexos houvesse sido amaldiçoada, como se fosse culpa continuar a filiação de Adão, e virtude esterilisar em si os embriões da vida humana.
E certo é que, admittido o inferno, e a queda original, e o ensinamento que lhe anda annexo, que outra conclusão se colhe? Multiplicar os homens, para que? para multiplicar os peccados? Se é tão duvidosa a salvação! Se a condemnação é tão facil! Para que nos enlaçaremos á orla d'um abysmo onde o esposo póde despenhar-se com a esposa e o pae com os filhos? Bastantissimos mentecaptos se casam, e povoam terra e inferno de desgraçados. Não seria melhor deixar acabar o mundo? Bemaventurados os celibatarios! Os sabios são os reclusos, os anachoretas, os eremitas. São como os viajantes que, em navio a pique, desamparam os companheiros, e salvam-se a nado. Cuidam só do seu salvamento; cada qual por si; soccorrer o irmão tem o risco de naufragio. Fazei como elles, navegantes; deixae no navio em sossôbro mercadorias, thesouros, e vossas mulheres, e mães, e vossos filhos, e fazei-vos ao largo: recresce a borrasca; rasga-se a vela; quem poder salve-se.
Bemditos sejam pois esses foragidos do mundo, mortos ao mundo e seus modelos, Simeão sobre a columna, João no muladar, esses desvariados todos macillentos, sujos, comidos de insectos. Grande vantagem levam: não tem que vêr com a terra, e já estão meios mettidos no ceo: o diabo já mal os póde aprezar.
Não é, todavia, a perfeição dos ascetas aquella que o Filho do homem nos exemplificou. Trinta e tres annos habitou Elle a terra, e quarenta dias sómente ermou no deserto, não para nos lá attrahir; mas, a meu vêr, para nos distancear, pois que foi no deserto, e ahi tam sómente, que o espirito das trevas o tentou. Anteriormente havia Elle vivido trinta annos com a sua familia; e viveu o restante entre peccadores. É para notar que nas suas modestas occupações, sob o colmado do carpinteiro, e mais tarde nos campos, nas cidades, nas tavernas, em meio do povo que ensinou, curou e nutriu, não ousou o diabo tental-o!
Mal imita Christo quem foge o mundo que Elle procurava. O sepultar-se um homem nos antros, a jejuar e a rezar por longo tempo, o sequestro da sociedade, o silencio, corpos macerados mal enroupados em pelles, exorcismos furiosos, luctas no vacuo, intrepidez baldada, e tantissimos outros piedosos desatinos não recordam exemplos do Salvador, mas sim as aberrações dos sectarios do oriente. Não póde ser isto a perfeição que Jesus veio ensinar aos homens; que tal chamada perfeição muitissimos seculos antes d'Elle já era conhecida dos pagãos idolatras, que tinham seus corybantes e vestaes, e bem assim dos judeus, mormente dos Essenios que a tinham aprendido dos magos da Chaldêa. Tal perfeição praticavam-a na India fanaticos sem numero, cuja raça ainda subsiste. Importamo'l-a dos mesmos paizes que nos mandaram a doutrina dos anjos rebeldes e a da reprovação dos homens—doutrinas cujo natural fructo é tal casta perfeição. Se o ideal da perfeição humana fosse isto, inutil seria o christianismo; pois que já os brahmanes a tinham ensinado dous mil annos antes do presepio, e os bouddhistas a tinham realisado mil annos antes dos monges da Thebaida.
É certissimo que os bouddhistas não visam exactamente ao mesmo scôpo que os monges catholicos: aquelles buscam em suas austeridades a morte absoluta, a destruição de sua personalidade, o serem absorvidos no ser universal, ao mesmo tempo que os monges, se renunciam ao seu eu neste mundo, é para o retomarem n'outra vida. É, comtudo, egualmente certo que, sem embargo da diversidade dos fins, vigora em ambas as seitas um principio commum, sendo que por identicas vias e praticas procuram a eterna bemaventurança uns, e outros o perpetuo dormir, a eterna insensibilidade. Só de per si o desejo do ceo não bastaria a inspirar a uns o mesmo proceder que inspira aos outros o desejo da anniquilação: pelo que, não é o desejo, senão o medo que povôa os desertos. Os bouddhistas, por egual com os christãos transviados, temem os soffrimentos infindos, os males sempre a renascer, se n'este mundo não attingirem a vida perfeita; e tanto para elles como para os nossos monges, vida perfeita é o absterem-se da vida, é a virgindade, o jejum, a penitencia, a soledade, o extasis, o antecipar a morte, um complexo de estereis virtudes, não filhas do amor, senão do mêdo.
Tal é, na sua mais elevada expressão, o bem que a crença do inferno produz n'esta vida. Causa espanto que os protestantes hajam conservado este dogma! É, porém, mais para espantar que elles, ao mesmo tempo que o conservam, destruam os mosteiros e inpugnem o celibato. Não ha ahi imaginar maior inconsequencia! A primitiva Igreja, que elles pretendem resurgir, cria sem duvida nas penas eternas, é isto mais que muito verdadeiro; mas pelo menos, operava em conformidade com sua fé. N'aquelle tempo, os esposos, ainda em vigorosa mocidade, guardavam continencia, sob pena de peccarem, durante o advento e quaresma, e nas festas e dias de jejum, pouco mais ou menos tres quartas partes do anno. D'elles alguns, para maior perfeição, não usavam nunca os direitos conjugaes, e envelheciam sob o tecto nupcial, em voluntario celibato, denegando-se as frias caricias que o irmão faz a sua irmã. Os ricos empobreciam-se, despojando-se espontaneamente de seus haveres, e os pobres lidavam para viver, mas descuidosos de amontoar, nem como previdencias para a velhice e infermidade, nem para legarem a filhos. Conta-se que desadoravam empregos publicos, e evitavam, como escolhos da alma, as emprezas lucrativas nomeadamente as commerciaes. Nunca espectaculos, nem jogos, nem dansas, nem folias. Sobriedade extrema, vestidos nem apontados nem de preço, jejuns em barda, orar dia e noite, lucta incessante e pertinaz contra a natureza. O seu distinctivo de christãos era aquelle. Uma leve falta, acareava-lhes a excommunhão; e, antes de absoltos, eram experimentados em seu arrependimento, por espaço de mezes e annos, quando o não eram até morrerem. Em quanto durava a penitencia, eram apontados, não só nos templos, durante os mysterios, senão tambem no exterior e nas relações da vida civil; e, por cima de ninguem os querer á sua meza, até as esmolas lhes regeitavam.