O Inferno
Capítulo IV
«Ser-lhe-ha forçoso recomeçar como se não tivesse nada padecido; e, quando tiver recomeçado tantas vezes quantos são os grãos de areia nas praias, os atomos no ar e as folhas nos bosques, nada d'isso lhe será contado.
«III. Não só por toda a eternidade os condemnados soffrerão; mas, a cada instante, soffrem a eternidade inteira. Está-lhes sempre á vista a eternidade; em todas as dôres se lhes côa a eternidade. As penas infinitas continuamente lhes estão no espirito. Cruel idêa! deploravel situação! Arder por uma eternidade! chorar eternamente! Raivar sem fim!»
Esta meditação corresponde ao Setimo dia, que é aquelle em que o Senhor entrou em descanso para admirar suas obras.
[6] O padre Bouhours foi um solerte engenho, bastante mundanal, que
distillava a frio no seu gabinete aquella rhetorica medonha, cuja leitura, se lhe
dessem valor serio, seria capaz de fazer abortar uma mulher gravida.
Acintemente abastarda elle n'este livro a verdadeira doutrina ácerca do
inferno, doutrina em que se aprende que os condemnados amam o peccado,
pois que amar o peccado é odiar Deus; conhecendo, porém, a
desmoralisação de tal pena, o padre Bouhours presume que os
condemnados abominam o peccado, mas que os seus olhos se abriram já
tarde, por maneira que substitue á pena immoral, mas apparentemente justa,
uma pena de apparencia moral, mas para isso mesmo horrivelmente iniqua,
por que detestar o peccado é amar o que ha mais avêsso ao peccado, isto é,
a virtude, ou, mais ao claro, Deus. Segue-se que Deus deixaria infernados os
que o amam e se arrependem de o haver offendido. N'outro capitulo da
mesma obra o mesmo padre é de parecer que os condemnados não podem
amar Deus. Mas, se elles não amam o bem nem o mal, nada amam; e então
que vem a ser as penas espirituaes? Que soffrem? por que soffrem? por que
se afflijem do perdimento d'um bem que não amam? e por que os afflige a
perda dos prazeres que abominam? Tudo isso dispára n'um apontoado de
sandices.