O Inferno

Auguste Callet · Capítulo 54 de 77

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O Inferno

Capítulo IV

«Ser-lhe-ha forçoso recomeçar como se não tivesse nada padecido; e, quando tiver recomeçado tantas vezes quantos são os grãos de areia nas praias, os atomos no ar e as folhas nos bosques, nada d'isso lhe será contado.

«III. Não só por toda a eternidade os condemnados soffrerão; mas, a cada instante, soffrem a eternidade inteira. Está-lhes sempre á vista a eternidade; em todas as dôres se lhes côa a eternidade. As penas infinitas continuamente lhes estão no espirito. Cruel idêa! deploravel situação! Arder por uma eternidade! chorar eternamente! Raivar sem fim!»

Esta meditação corresponde ao Setimo dia, que é aquelle em que o Senhor entrou em descanso para admirar suas obras.

[6] O padre Bouhours foi um solerte engenho, bastante mundanal, que

distillava a frio no seu gabinete aquella rhetorica medonha, cuja leitura, se lhe

dessem valor serio, seria capaz de fazer abortar uma mulher gravida.

Acintemente abastarda elle n'este livro a verdadeira doutrina ácerca do

inferno, doutrina em que se aprende que os condemnados amam o peccado,

pois que amar o peccado é odiar Deus; conhecendo, porém, a

desmoralisação de tal pena, o padre Bouhours presume que os

condemnados abominam o peccado, mas que os seus olhos se abriram já

tarde, por maneira que substitue á pena immoral, mas apparentemente justa,

uma pena de apparencia moral, mas para isso mesmo horrivelmente iniqua,

por que detestar o peccado é amar o que ha mais avêsso ao peccado, isto é,

a virtude, ou, mais ao claro, Deus. Segue-se que Deus deixaria infernados os

que o amam e se arrependem de o haver offendido. N'outro capitulo da

mesma obra o mesmo padre é de parecer que os condemnados não podem

amar Deus. Mas, se elles não amam o bem nem o mal, nada amam; e então

que vem a ser as penas espirituaes? Que soffrem? por que soffrem? por que

se afflijem do perdimento d'um bem que não amam? e por que os afflige a

perda dos prazeres que abominam? Tudo isso dispára n'um apontoado de

sandices.

 

IV