O Inferno
Capítulo VI
Estava ainda comtudo a minha alma perturbada. Interroguei o Christo. Não me respondeu. Então entrei em duvida se eu estava adormecido ou desperto. Vi—seria sonho?—um oceano de trevas alcantilar-se á volta de mim, e no seio d'essa escuridão immensa lampejava um frouxo raio de luz. E esta luz saia das fendas de um sepulchro, e Jesus estava deitado vivo n'esse sepulchro. Eu quiz levantar a pedra que o cobria, mas uns verdugos envoltos em trevas me deceparam as mãos; eu quiz balbuciar, e arrancaram-me a lingua; e assim mutilado, cego e mudo senti-me arrebatado e precipitado ás entranhas de um abysmo, e comprehendi que estava no inferno. O meu unico soffrimento ahi era a cegueira, e a espectativa anciadissima dos supplicios que me esperavam. E, como só tivesse ouvidos para entender, escutei, e comprehendi o seguinte.
VI
Ao principio ouvi um rumorejar estranho, que rolava prolongando-se ao travez dos espaços infinitos, e depois decrescia até ao ciciar da folhagem que a brisa da tarde acaricia, e por fim augmentava em estridor até exceder o roncar das vagas cavadas pela borrasca. Estas comparações tiradas da terra não dão idêa da tristeza, do pungente e solemne d'aquelle immenso rugir de seres sem nome que eu não podia vêr e ouvir gemer. De toda a parte, suspiros, brados, soluços, gritos exhorativos, mas tudo distincto, conglobando-se sem confundir-se, e formando um brado unisono. Debaixo do sol não ha ahi espectaculo tão variado como o prantear d'aquellas almas, ressoando em choro universal quasi claro ainda, e mais afflictivo. Ao ouvir estes estrondos figurava-se-me que o sangue me escorria dos pulsos cortados, e o suor da fronte, e as lagrimas dos olhos, e tanto eu como tudo em redor soffriamos e supplicavamos.