O Inferno
Capitulo Oitavo
HISTORIA DE UM SONHO
I
Ganhou um medico, á cabeceira de um pobre, doença mortal. Chegou tão depressa a morte que não lhe deu tempo de chamar o padre. Chegou o padre, quando elle era já morto. Circumvagou os olhos pelos assistentes, disse que o chamaram tarde, e sahiu dando aos hombros.
As poucas palavras e o gesto impressionaram vivamente a viuva, que se quedou a pensar n'aquillo todo dia.
II
E eu velava á sombra do funebre leito. A viuva estava ali orando, soluçando, e sempre preoccupada, a pezar seu, com as palavras do padre. A intervallos, olhava ella para mim chorando, invocava-me como testemunha da virtude de seu marido, e dizia-me com anciedade: «Não se salvará elle?»—Não duvide, senhora—dizia-lhe eu; porém tristemente eu via que as minhas respostas a não socegavam.
Ao cahir da tarde, como ella desde a vespera não comesse nem dormisse, fiz que seu filhinho lhe offerecesse algum alimento. Debalde se esforçou por engulir. Então pediu um livro de orações. Abriu ao acaso um que lhe deram, esperando achar ali algum alivio, que não achou; pelo contrario, com a leitura cresceu-lhe a inquietação. Vi-lhe então no rosto uns tregeitos involuntarios, e um crispar de mãos, e por fim um grito e logo cahiu desmaiada nos braços de quem a levou d'ali.