O Inferno

Auguste Callet · Capítulo 39 de 77

Páginas do PDF

O Inferno

Capítulo III

Por amor d'este milagre é Deus arvorado em um dos algozes do inferno; por que, se os condemnados só a si podem imputar seus males espirituaes, tambem não tem a quem imputar os outros senão a Deus. Já não era pouco abandonal-os, depois de mortos, á tristeza, ao remorso e a quantas agonias sente a alma que perdeu o bem supremo; mas ha ahi peor: irá Deus, no dizer dos theologos, procural-os nas trevas do seu abysmo; chamal-os-ha por instantes á luz, não para allivial-os, mas sim para vestil-os d'um corpo horrido, chammejante, immorredouro, e n'este acto os abandonará definitivamente. Mas não será isso ainda abandono, pois que céo, terra e inferno não subsistem senão por um acto permanente da divina vontade sempre activa. É força, então, que Deus os tenha sempre de sua mão, para obstar que o fogo se apague e os corpos se consumam, a fim de que esses desgraçados immortaes contribuam, com a perennidade de seu supplicio, á edificação dos predestinados.

Vem a ponto um episodio da historia da Egreja, que, máo grado nosso, nos veio á lembrança. Seja-me permittido recordarvo-lo.

 

III

Os martyres de Nero

Foi Nero um poderoso imperador. Galardoava esplendidamente os escravos que o serviam; e, ao mesmo tempo, incutia-lhes medo salutar com o seu systema de tratar inimigos. Queimando Roma a fim de a reedificar mais formosa, assacou o crime aos christãos, gente indocil que o não bajulava, e cria em justiça mais amavel que a d'elle, e por esta e outras razões desagradava á plebe idólatra. O processo foi summario; a sentença de morte, e a execução espantosas, como vai vêr-se. Embrearam-os de resina, amarraram-os a postes de ferro, cravados distantes entre si nos bellos jardins de Sallustio, onde eram celebrados então os jogos nocturnos. Era já noite, quando as portas foram abertas á multidão. Eis que sôa o clangor das trombetas, e logo os verdugos infileirados chegaram lume ás tunicas dos christãos. Callam-se as trombetas; restrugem de todos os lados gritos estridentes. A subitas, arvores, flôres, estatuas, escadozes marmoreos, tanques, repuxos, tudo resplandeceu. Chega Cezar na sua carroça, escoltado de vistosa côrte, derramando, por sobre as turbas aterradas e jubilosas do seu sorriso, ouro e perolas. Servem-se banquetes. Dançam as filhas do oriente, em quanto os tocadores de alaude e cantores confundem a dôce melodia de seus concertos com os applausos do povo fiel e os derradeiros arrancos dos christãos que vasquejavam em suas tunicas ardentes.

Pouco durou aquelle instructivo espectaculo. N'este mundo, as festas mais bisarras são curtas. Felizmente para os martyres, Nero não era Deus. Diz-se, porém: eil-os, os confessores de Christo apremiados, á volta de um Deus que dá ares de Nero, e como contemplando, á maneira do Cezar, em festa sem fim, milhares de creaturas humanas, estorcendo-se e clamando nas lavaredas, tochas ullulantes, fachos inextinguiveis, testemunho assás consolativo da superioridade do rei do céo sobre os regulos da terra.

Haja paciencia, que ainda falta o mais essencial. Aquellas penas corporaes são quasi nada. Repugnantissimas que ellas se nos figurem, são essas, ainda assim, a menos repugnante cousa que o inferno encerra.