O Inferno
Capítulo III
Apanhei o livro cahido de suas mãos. Denominava-se Quotidiano do christão, e facilmente conheci nas paginas avincadas as passagens que ella tinha lido: eram os Pensamentos christãos para todos os dias do mez, pelo padre Bouhours, da companhia de Jesus. Tinha ella desmaiado quando lia no quinto dia uma meditação ácerca do Juizo final. Acontece sempre que o ferido ao cahir bate sempre na chaga. Alguns trechos do capitulo, cujas margens estavam laceradas, diziam assim: «Quão terrivel é o dia da ira do Senhor! Os justos escassamente serão havidos como taes: que será dos peccadores? Que sentença póde esperar o peccador impenitente de um Deus inexoravel? Oh! que terribilissima sentença! Ide, malditos, arder em fogo eterno! Ai! onde irão, Senhor, esses desgraçados que amaldiçoaes? Para que ponto do mundo quereis que se afastem, distanciando-se de vós? Onde é que está paragem tão funesta?
«SEXTO DIA
«O INFERNO
«I. Que horror ganhariamos ao inferno, se podessemos ouvir os lamentaveis gritos dos condemnados! Suspiram, gemem, urram como bestas-feras em meio de lavaredas. Accusam-se de seus peccados, chorando-se, detestando-os; mas É TARDE. O chorar não lhes faz senão augmentar o ardor do fogo que os queima sem consumil-os. Penitencia dos condemnados! quanto és rigorosa, e inutil!
«II. Não vêr Deus nunca, arder em fogo de que o nosso é apenas sombra; soffrer ao mesmo tempo quantos males ha ahi, sem allivio, sem repouso; sempre com os olhos postos nos demonios, sempre com o coração raivoso e desesperado, que vida!
«III. Esses desgraçados enfuriam-se por terem desprezado tantas occasiões de salvarem-se. O recordarem os prazeres passados é-lhes um de seus mais penosos tormentos; mas o tormento superior
a todos é a lembrança de terem, por sua culpa, perdido Deus.» [6]
Pobre mulher!—disse eu entre mim lendo aquelle capitulo—vêr seu marido, tão bom homem, alcunhado de besta-fera! E topar em livro de piedade, onde procurava consolar-se, esta cruel sentença que de manhã ouvira da bôcca d'um sacerdote: É MUITO TARDE!... Quiz fechar o livro; mas o titulo do Dia seguinte, impresso em versaletes, susteve-me.
«SETIMO DIA
«DA ETERNIDADE DAS PENAS DO INFERNO
«I. Poderá ir mais adiante a cólera de Deus que castiga prazeres que tão pouco duram com supplicios sem fim? Que desgraça não é isto! Não bastará que os males d'um condemnado sejam extremos? É forçoso que sejam eternos? Uma picada de alfinete é mal bem leve; todavia, se este mal durasse sempre, tornar-se-hia insupportavel. Ora, os tormentos do inferno que serão?
«II. Ó eternidade! Quando um condemnado podesse derramar lagrimas bastantes para fazerem quantos mares e rios tem o mundo, ainda que vertesse uma só lagrima em cada seculo, elle não estaria mais adiantado, depois de tantos milhões d'annos, como quando começou a penar.