O Inferno

Auguste Callet · Capítulo 66 de 77

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O Inferno

Capítulo III

Como é então que ella prova a sua infallibilidade? Prohibe-nos de esquadrinhar na Biblia as regras da nossa fé, allegando que a Biblia é livro inintelligivel para nós. E, se lhe pedimos a razão d'isto, abre o livro que incessantemente lemos, esse mesmo livro cuja authenticidade e sentido só ella garante e explica. É ahi que ella pretende mostrar-nos a prova que lhe pedimos; mas nós sustentamos que ahi não ha tal prova. Além d'isso, se é mister crêr primeiro na Egreja quem houver de crêr nas Escripturas e entendel-as, que argumento é esse? Póde qualquer, em um processo, invocar contra o seu adversario um documento de que elle só se constitue interprete e juiz? Contente-se pois a Egreja em affirmar que é infallivel, mas abstenha-se de o provar.

Eu por mim não creio. A infallibilidade é um attributo incommunicavel de Deus como a eternidade e a omnipotencia. Se o Papa e os bispos fossem infalliveis, não bastaria respeital-os, seria mister adoral-os. Disso nos defenda Deus! São homens como nós. E, quando o Espirito Santo nos illustra, somos como similhantes aos candelabros do templo, e, sem o querer, confundimos a nossa sombra com a luz que dardejamos em redor.

Assim fallam os protestantes. Não digo que taes discursos sejam concludentes: não me compete a mim julgal-os; mas d'este capitulo e do anterior inferimos uma conclusão cuja justiça creio que ninguem contesta.

 

III

Conclusão do que fica dito

A conclusão que eu desejaria tirar do que fica dito é que a Biblia e a Egreja, estas duas auctoridades que se invocam em favor das penas eternas, não tem o mesmo valor no conceito de toda a gente. Um protestante renegaria o inferno, apezar dos anathemas dos Concilios, se a Escriptura lh'o não annunciasse; mas um catholico renegaria o inferno, apezar da lucidez dos textos biblicos, se aprouvesse á Egreja attribuir áquelles textos, segundo o parecer de Origenes, um sentido visivelmente conforme á justiça e bondade de Deus.

Tanto em Genebra como em Roma crê-se no inferno; mas por diversas razões; e o que parece argumento decisivo para metade dos christãos, não têm a mesma efficacia para a outra metade. Conformam-se sobre a verdade d'um prodigio, recusando de ambas as partes uma das duas testemunhas que o affirmam; os de Genebra considerando a Egreja um professorado do erro; os de Roma sustentando que a Biblia desencaminha aquelles que exclusivamente se fiam n'ella.