O Inferno

Auguste Callet · Capítulo 45 de 77

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O Inferno

Capítulo II

Deus é uno, com infinita variedade de attributos, cuja manifestação lhe não lesa a unidade. Conhecemol-o n'este mundo por fé unicamente, porque o não vemos qual é, e não temos d'elle, em nossos corações, senão uma imagem imperfeita, e, para assim dizer, mutilada. Por tanto, aquelle sagrado nome exprime o que sabemos realmente, mas tambem o que não sabemos, e o que saberemos de Deus, no dia derradeiro. Encerra Deus todas as perfeições, cujo complexo, de que apenas concebemos parte minima, é o mysterio que adoramos atravez d'um véo, que a morte levantará, assim para santos como para pecadores.

Sem duvida que os mais obdurados peccadores hão de vêr Deus; e hão de vêr não sómente alguns attributos seus, mas todos; não hão de vêr sómente a sua eternidade, por quanto a eternidade está em Deus, mas a eternidade não é Deus; não hão de vêr sómente a sua justiça e infinita omnipotencia, por quanto a justiça infinita e omnipotencia são em Deus, mas não constituem toda a sua essencia; não hão de vêr sómente a sua justiça, por quanto a justiça está em Deus; mas só ou unida ao poder eterno a justiça não é Deus: senão seriam tantos os deuses quantos são os attributos e virtudes distinctas na unidade divina.

Quando os peccadores virem Deus, então hão de vêr quanto ha em Deus, sua bondade, misericordia e justiça; vel-o-hão a toda a luz, d'um só lance de olhos, por que tudo o que a nossa lingua separa é inseparavel em Deus; e, se elle retrahisse dos peccadores um só resplendor de sua face, ficaria sendo o Deus abscondito que a nossa fé adora, e não o Deus visivel perante o qual toda a incredulidade se dissipa. Pelo que, ao mesmo tempo que sua justiça encher de medo as almas, a sua bondade as consolará mediante a confiança e arrependimento.

 

III