O Inferno

Auguste Callet · Capítulo 73 de 77

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O Inferno

Capítulo IV

Que vos parece isto? que redarguís? Ser-vos-ha mister mudar a propriedade das palavras, crear linguagem nova, dirimir as leis da razão, e cuidar em extinguir tanto em vós como nos outros as vivas luzes da consciencia, se quereis impugnar estas proposições.

 

IV

Mas ninguem póde desluzir de seu espirito o reflexo que ahi lampeja a verdadeira luz, se uma vez a entre-viu. Quando houverdes lido este livro, ser-vos-ha aprasivel fechar os olhos, e injuriar-me; não obstante, sentir-vos-heis alumiados, crentes na verdade a vosso pezar; e, embora o negueis, é a vós mesmos que mentis. Negal-o-heis com a bôcca; mas não com a consciencia.

 

V

Espero resignadamente as insolencias. Se m'as não disserem alto, dil-as-hão baixinho. Este livro irá ao Index, e tal, que o não tiver lido, se julgará abundantemente auctorisado a prohibil-o aos outros, como livro pernicioso. Vedar-se-ha ao peccador inveterado, contentissimo de sua recente conversão, de buscar aqui motivos para ser mais humilde; vedar-se-ha á viuva lagrimosa de procurar consolar-se n'esta leitura. Divulgar-se-ha que este livro é tição do inferno, que queima os dedos que lhe tocam. E ha de haver muito quem o diga na melhor boa fé.

A Egreja não alenta curiosidades de espirito. Porquê? De que se teme? Profunde-se cada vez mais a moral de Christo; que ella nos irradiará cada vez mais formosa, mais salutar e verdadeira. Por si mesma se justifica; dispensa pregões; nos labios d'um menino inflora-se tão bella como nos discursos d'um sabio.

As leis moraes não são arbitrarias; não são caprichos divinos nem tenebrosos decretos cuja sabedoria se esconde á nossa intelligencia. São perfeitamente adequadas á nossa natureza e necessidades. Não ha uma só, cuja inobservancia não surta graves desordens; uma só que não proteja a dignidade humana, a liberdade, o direito, o debil contra o forte, o innocente contra o cavilloso. São freio de paixões, luz e regras das acções publicas ou clandestinas, particulares ou collectivas, condição que influe no desenvolvimento de nossas faculdades, caução de nosso repouso, e complexamente de todos os nossos actos.

A Egreja, n'este ponto, desconhece a sua força, se a discussão a intimida; mas, por outro lado, cumpre confessar que ella desconheceria sua fraqueza, se tolerasse discussão de certos dogmas, e em particular do dogma das penas eternas. Se quer que haja crença no inferno com fé egual á crença da redempção; se quer a mesma fé para a colera sem fim e para o amor illimitado, imponha silencio a respeito de tudo, que é prudente. Mas d'essa imposição de silencio o resultado é este: