O Inferno

Auguste Callet · Capítulo 38 de 77

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O Inferno

Capítulo II

Eis aqui, em summa, a idêa que se nos dá do inferno, observado em sua natureza physica, e nas penas corporaes que lá se padecem. Lêde os escriptos dos padres e antigos doutores, interrogae as piedosas legendas, examinae as esculpturas e paineis das nossas egrejas, attentae o ouvido no que se diz em nossos pulpitos e sabereis muitas outras coisas.

 

II

Reflexões sobre as penas materiaes dos condemnados

De qualquer modo que as figuremos, e quando mesmo por piedade ou qualquer outra razão se reduzissem só á acção do fogo, estas penas materiaes não poderiam ser eternas, porque, se a alma é immortal e póde soffrer sempre, não succede o mesmo ao seu involtorio terrestre: corpos de carne, á feição dos nossos, são de seu natural incapazes de resistir a similhantes agentes de destruição.

É um milagre a resurreição dos corpos; mas faz-se mister um segundo milagre para dar a estes corpos mortaes, já usados pelos transitorios attritos da vida, e de mais a mais aniquillados, a virtude de subsistir, sem se dissolverem, na fornalha onde metaes se evaporassem. Diga-se embora que a alma é algoz de si mesma, que Deus a não persegue, mas que a desampara pelo estado desgraçado que ella escolheu: isso ainda póde rigorosamente comprehender-se, posto que o desamparo eterno d'um ser desvairado e padecente pareça pouco conforme á bondade do Creador; porém o que se diz da alma e das penas espirituaes não póde por modo algum ser dito a respeito dos corpos e das penas corporaes; que para eternisar as penas corporaes não basta que Deus retire a sua mão; pelo contrario, é forçoso que elle a mostre, que intervenha, que opere, sem o que o corpo succumbiria.

Conjecturaram, pois, os theologos que Deus effectivamente opera, em seguida á resurreição, o segundo milagre de que fallamos. Primeiro, exhuma do sepulchro os corpos de argila que lá se haviam desfeito; tira-os taes quaes lá tinham entrado com as suas nativas infermidades e as degradações successivas da idade, da doença e do vicio, decrepitos, infesados, gotosos, cheios de precisões, sensiveis á ferroada d'uma abelha, cobertos das macerações que lhes fizeram o rossar da vida e da morte: eis o primeiro milagre. Depois, a estes corpos alquebrados, prestes a reverter ao pó d'onde surgiram, inflige uma propriedade que não tinham: a immortalidade, o mesmo dom que n'um lance de colera, ou, se o quereis, n'um lance de misericordia, elle tinha subtrahido a Adão quando o expulsou do Eden: eis o segundo milagre. Quando Adão era immortal, era invulneravel; e, quando cessou de ser invulneravel, tornou-se mortal. Á dôr seguiu-se o morrer.

A resurreição, portanto, nem nos repõe nas condições physicas do homem innocente, nem nas condições physicas do homem culpado; é uma resurreição das nossas miserias sómente; mas com sobrecarga de novas miserias, infinitamente mais horriveis; é, até certo ponto, uma verdadeira creação, e mais maliciosa que imaginação alguma ainda concebeu. Dir-se-ha que Deus reconsidera e varia, quando accrescenta aos tormentos espirituaes dos peccadores tormentos corporaes de duração infinda, e muda de repente as leis e as propriedades por elle prescriptas ás composições da materia desde a origem d'ella. Resuscita carnes doentes e corruptas, e, atando com indesatavel nó elementos que tendem a separar-se, mantém e perpetúa, contra a ordem natural, aquella podridão vivente, que é posta no fogo, não para se depurar, mas para ser conservada qual é, sensivel, padecente, ardente e immortal.