O Inferno

Auguste Callet · Capítulo 61 de 77

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O Inferno

Capítulo V

Vida de opprobrio e remorsos é expiação. Judas deveria viver. Porque se matou? Se elle cresse na divindade de Jesus, não se mataria, pois que, matando-se, ía entregar-se nas mãos d'Aquelle que atraiçoára. Por que se matou? O suicidio nada remedeia, e tira da contemplação dos homens o salutar espectaculo d'um criminoso contricto. Procurava elle anniquilar-se? A anniquilação ser-lhe-hia doce refugio: o nada não é pena. Ora é certo que ninguem disse que Judas fosse atheu. Se elle descrêsse de Deus e da vida futura, como explicar-lhe os remorsos? Que é crime, quando se crê que tudo acaba comnosco? Se não cresse em Deus, Judas guardaria os trinta dinheiros. Que temia elle? Como cumplices de seu crime tinha todo Israel, os padres que o corromperam, os senadores, Pilato, Caiphás, e a côrte de Herodes, e os proprios apostolos que negaram a victima. Então por que se matou?

 

VI

No suicidio de Judas ha terrivel mysterio; mas tambem, n'este mysterio, ha relance luminoso, e vem a ser que Judas, depois de confessar a perfidia, na face dos tentadores, calcando o ouro recebido, vagando loucamente pelas ruas de Jerusalem, valia tanto pelo menos como o senado judaico que continuava deliberando friamente a morte do justo, como Pilato que lavava as mãos, como Herodes e sua côrte que riam de tudo, e como os covardes amigos cujo testemunho, n'aquella conjunctura, seria muito mais importante que o d'elle. Tal monstro revertido a homem, de si mesmo horrorisado, saiu da cidade, entrou aos campos por onde tantas vezes estancára com o affavel Mestre, viu-se indigno de apertar a mão d'um amigo, porque havia trahido o mais fiel de todos; viu-se indigno de piedade por que a não tivera; e, por fim, desejou acabar. Nunca tinha sentido como então, nem quando ouvia Christo, o nada das riquezas, a vaidade do mundo, o desgosto dos prazeres, o horror dos vicios que os seguem. Oh! se elle podesse retroceder, delir de sua vida aquella nodoa de sangue, sacudir o pezo que lhe abafava o coração, quão diverso do que fôra não seria! Como agora se lhe figurava formosa a innocencia! Como as tentações lhe pareciam boas de subjugar! Ah! se elle podesse quebrar as prisões de Jesus, e banhar-lhe os pés com suas lagrimas! Se podesse offerecer a vida a trôco da que o povo ía sacrificar! Com que prazer se deitaria na cruz, e ahi morreria em paz, se lhe fosse dado perdão de seu crime com tal condição!... Mas, ao longe, estrugia a grita da multidão enfuriada, bradando: «Crucifica-o!» Escutava o tropel dos cavallos, o retinir das armas, e a pancada do martello que cravava os pregos nas mãos bemfazejas do amigo que elle vendêra. Iriçaram-se-lhe os cabellos, reçumou-lhe suor glacial ao rosto, mal se tinha nas pernas como ebrio, sentia retrahir-se-lhe o chão debaixo dos pés. Oh! como Jesus padecia! Mas Judas padecia mais, porque soffria como criminoso, e não como justo. Os soffrimentos de Judas excedem todo o confronto. Não ha ahi agonia que lhes compareis. Em um dia, n'uma hora soffreu mais do que cem annos de penitencia no deserto, cem annos de vergonhas e supplicios entre os homens. A sua alma era uma fornalha em chammas. Os caminhos abrolhavam-lhe espinhos dilacerantes debaixo dos pés. Com os proprios dentes lacerava os beiços. O sangue estuára-lhe nas veias. Aquelle viver já não era vida de homem. Nem fome nem sede o espertavam do lethargo horrendo. Fulgurava-lhe um só sentimento: o horror do seu crime. O que elle levava pelos campos além era um cadaver já insensivel á dôr; e esse vil cadaver é o que elle estrangulou pendente da arvore. Fez mal. Melhor lhe fôra morrer ajoelhando, supplicando misericordia. Ah! acaso sabemos como elle morreu? Por ventura, a dôr refinada até aquelle extremo não será a mais eloquente supplica? Quem o sabe n'este mundo?