O Inferno

Auguste Callet · Capítulo 62 de 77

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O Inferno

Capítulo VII

Seja, porém! Prosiga elle na outra vida o medonho supplicio que tentou abreviar! Que esse incomportavel castigo redobre de hora a hora, de anno a anno, de seculo a seculo. É justo. Amen! amen!

Conte-se e publique-se em todas as linguas da terra que ha dezoito seculos Judas trahiu o Filho do homem, seu bemfeitor, seu amigo e mestre, e que o seu castigo dura ainda. Maldito seja elle e todos os seus similhantes! Maldito seja de pobres e ricos, dos filhos e das mães! Padres de Jesus Christo, levai esta nova a todas as choças e palacios; dizei-a a grandes e pequenos, aos que balanceam thuribulos, e aos que floream gladios, aos que julgam a terra e aos que são julgados! Ai dos hypocritas! ai dos ingratos! ai dos homens de duas linguas e duas caras! ai dos servos e dos irmãos tredos! ai dos que antepõem a amisade á justiça, e vendem sua alma ao sanhedrin, e contam as suas moedas em quanto o innocente é atormentado.

Dizei isto a toda a terra, padres de Jesus Christo, que não haverá ahi palavra que vos impugne.

Sim! Não ha ahi crueza de morte, e mormente voluntaria morte que expie tamanho crime. Judas soffre ha dois mil annos, e d'aqui a quatro mil soffrerá ainda, e em quanto o genero humano não terminar a sua peregrinação terrestre, viverá em supplicio recrescente de tormentos inauditos.

 

VIII

Entretanto, meu Deus, este mundo de provações, segundo dissestes e tudo o confirma, ha de acabar. E, quando este mundo fôr destruido e renovado, quando já não houver sol, nem berços, nem sepulchros, nem gerações de peccadores, não perdoareis então a Judas? Quando elle apparecer á vossa presença no dia do juizo, depois de tantos seculos de indescriptiveis dôres, não vos lembrareis de que elle foi vosso amigo? Dar-se-ha caso que Pedro, esquecido da sua culpa e do perdão que a disfarçou, diga ainda outra vez: «Não conheço este homem?» João, Matheus, Thomé e Thiago, voltarão o rosto indignado, como se não houvessem tambem peccado e duvidado? Não vos dirá o côro inteiro dos apostolos: «Senhor, apiedai-vos d'elle. Sem a vossa graça, o que não teriamos feito nós?»

Apiedai-vos d'elle, Senhor!—dirão todos os bemaventurados— que elle, sem o saber, foi o instrumento e a victima da salvação dos homens. Feliz culpa! dizia Santo Agostinho do peccado de Adão, feliz culpa que grangeou para o genero humano situação melhor que a do Eden. Feliz tambem, meu Deus, a culpa de Judas, pois era mister que, em cumprimento de vossos decretos, fosseis trahido por um dos vossos amigos. Horrendo, mas inevitavel crime, predicto muito antes pelos prophetas; crime salutar, introito mysterioso da paixão; crime que foi amaldiçoado e devia sêl-o, mas que hoje devemos perdoar e bemdizer, por quanto, sem tal crime, ó dôce Jesus, nem vós terieis morrido, nem o mundo estaria resgatado.

Apiedai-vos, pois, de Judas! Commiserem-vos seus remorsos, tormentos e lagrimas! Compadeça-vos a cegueira d'elle! É bem de crêr que fechais os olhos da alma aos culpados e esta milagrosa cegueira com que os affligis é já per si um castigo. Mas tambem os castigareis por peccados e erros commettidos com vossa licença, no seio d'aquellas vingadoras trevas que derramastes no seu caminho? Não, não, meu Deus, vós o dissestes. Lembrai-vos de vossas derradeiras palavras na cruz redemptora, quando pedieis a vosso Pae perdão para os algozes, para os sacerdotes que vos haviam comprado, para o amigo desleal que vos tinha vendido, para o soldado cruel que vos cuspiu na face, para o povo desvairado que vos injuriava no supplicio: «Perdoai-lhes, pae, que elles não sabem o que fazem!»

E vosso Pae, que tudo vos concede, perdoou-lhes o sacrilegio, a blasphemia, e tudo quanto em seu crime entendia com a vossa abscondita divindade; perdoou-lhes o que a justiça e caridade querem que se perdoe aos insensatos e aos cegos, e a quantos não sabem o que fazem. O que ficou sobre elles pezando é o peccado contra a humanidade, por que bem conheciam os peccadores a sua culpa no momento em que a commetteram. Meu Deus, perdoai-lhes! Pedevol-o o genero humano ensinado por vossas lições e exemplos, e resgatado por vosso sangue.