O Inferno

Auguste Callet · Capítulo 69 de 77

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O Inferno

Capítulo II

[9] Conta-se que os apostolos, antes de se apartarem para levar aos

gentios a boa nova, trez annos pouco mais ou menos depois da morte do

divino Mestre, se reuniram e compozeram o Credo, elenco das verdades cujo

ensino lhes fôra confiado. O Evangelho ainda não corria escripto. Só depois

da separação, é que foi composto o de S. Matheus, que antecede a todos. O

symbolo da fé apostolica tambem não andava escripto; mas ensinava-se de

cór aos fieis, e por isso longo tempo se conservou na Egreja, bem como a

tradição egualmente oral da sua origem.

 

II

Viveu Origenes quasi coevo dos tempos apostolicos. Toda a gente ouviu fallar da santidade de seu viver, pureza de costumes, alento nas perseguições, vasta sabedoria e raro engenho. Pois ainda assim, aquelle insigne doutor, e illustre confessor de Christo, negava as penas eternas. Acaso receberia elle a verdadeira tradição dos apostolos, ou, á força de reflectir, atinára com a genuina accepção do Evangelho? Não sei. Todavia confesso envergonhadamente que ainda não li as poucas obras restantes que tão assignalado sujeito escreveu sobre tal materia. O que mais sei é que foi condemnado, muito tempo depois que morreu, por um edito do imperador Justiniano, e anathematisado, com a porção da obra relativa ás penas eternas, por o concilio ecumenico de Constantinopla, anno

553.[10] Não se deram os bispos á canceira de provar que elle era ruim logico; declararam-o herege, que era mais summario, e por contagem de votos.

É muito para notar que o primeiro concilio ecumenico de Nicea, anno 325, e o segundo de Constantinopla, anno 381, se abstivessem de decidir sobre a doutrina de Origenes, ainda nova e florecentissima, e á conta d'isso mais funesta, se por ventura escondesse perigo. Divergiam sobre o assumpto as opiniões dos padres d'aquelle tempo? Recusariam não se conciliarem? A questão confundil-os-hia? Inclino-me a crer que sim. O mais notavel documento que os dois concilios nos deixaram, denota indecisão de natureza a um tempo estranha e evidentissima: é uma profissão de fé muito particularisada, a mesma que hoje se entôa aos domingos na missa cantada nas egrejas do oriente e occidente.

O concilio de Nicea, ao redigir o symbolo da sua fé, desenvolveu em certos pontos o symbolo dos apostolos; mas, quanto ao mais, abreviou aquelle antigo symbolo, e o que mais espanta é a suppressão completa do descendimento aos infernos.

O concilio de Constantinopla, adoptando o symbolo de Nicea, aperfeiçoou-o, e additou-lhe alguns artigos, mas não lhe repoz a descida aos infernos.

Que quer dizer esta eliminação? Desceu ou não desceu Christo aos infernos? Se desceu, por que o não dizem? Acham que é insignificante o caso? Não merecerá a pena relembral-o?

Felizmente o symbolo dos apostolos subsiste, e os de Nicea e Constantinopla não vingarão desluzil-o.

[10] No anno 321, Origenes foi denunciado ao Concilio de Alexandria, e

interdicto do sacerdocio. S. Jeronymo attribue esta condemnação a ciumes e

invejas que inspirava a eloquencia de Origenes aos Padres reunidos

n'aquelle Concilio.