O Inferno

Auguste Callet · Capítulo 25 de 77

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O Inferno

Capítulo III

mas que tambem é mister instruil-os como filhos de Deus, os melhores

amigos de Jesus, e sua visivel imagem na terra: o que rigorosamente fazem

as irmãs da caridade, e não fazem as contemplativas.

 

III

Discurso de uma mulher de sociedade que havia tocado a

perfectibilidade theologica

De que serve amar-se a gente n'este mundo? Acaso nascemos uns para os outros?

Somos apenas companheiros de viagem que uma eventualidade ajuntou por momentos, mas que breve se hão de apartar, e talvez para sempre. Prestemo-nos de passagem alguns serviços, mas por amor de Deus, sem nos ligarmos reciprocamente. Por que ha de a gente amar-se? Vós que me ouvis, sabeis quem sou? E eu que vos fallo sei quem vós sois? Tendes um ar angelical, ó meu irmão, mas o interior de vossa alma não o vejo; o semblante do homem é enganador; a sua lingua é atraiçoada, as suas proprias virtudes são perfidas.

N'este mundo é tudo armadilha e mentira. Que demencia o amar, quando, com certeza, ninguem póde fiar-se d'outrem! Que injustiça querer um que o amem, quando nem a si mesmo se conhece alguem, e a cada hora se altera o genio, e ninguem póde fiar mais da duração de seus sentimentos que da duração de sua vida! Viajamos mascarados, só conhecidos de Deus, mas tão occultos a nós mesmos quanto aos outros. A que propendemos? Mal o sabemos, tão fluctuante é a nossa razão. Se melhor nos conhecessemos, a maior parte de nós se mutuaria rancores; em vez, porém, de se odiarem, os homens se entre-buscam no seio das trevas, attrahidos pelo mysterio que os innubla, e que devêra, se elles fossem discretos, afugental-os uns dos outros.

Ah! não nos amemos, não nos amemos! Ai d'aquelle que dá seus amores á creatura! Ai dos que se amam sobre a terra! É sombra que abraça a sombra, é o nada que se une ao nada. Amavel é só o bem: o restante é detestavel. Meu pai, honro-te e sirvo-te, por que vai n'isso um dever meu, e porque podes ser, sem que eu o saiba, um santo; amar-te, porém, não posso, porque, se n'este instante morresses, ninguem me certificaria de que Deus te perdoára. Eu devo amar em ti, sómente o bem occulto que ahi póde estar, e o amo em ti como nas outras creaturas, sem predilecção por alguma; porque esse bem occulto não provém d'ellas; e, se em ti existe—o que eu não sei, mas muito desejo—não procede de ti. Não te julgo, meu pai. Se eu escutasse o sangue, creio que te amaria até culpado, unicamente porque és meu pai, e eu me lembro de ter dormido em teus braços. Mas estes momentos da natureza corrompida já eu venci. Nada me és. Tracto da minha salvação servindo-te e honorificando-te; mas amar-te seria perder-me, por que amar o homem em si mesmo é amar o peccado. Na outra vida não ha maridos, nem esposas, nem paes, nem filhos, nem familia. Pais e filhos, mães e filhas, irmãos e irmãs serão separados no dia do juizo, desatados todos os vinculos. Não amemos ninguem, ninguem! Já póde ser que o inferno se esteja escancarando para aquelle que amarmos, e quem sabe se nós não cahiremos lá tambem empurrados pelo nosso amor? Nada de sentimentos cegos; nada de sentimentos corruptores. A ternura do homem é um disfarce de odio; e mais valera que elle nos odiasse francamente. Não amemos ninguem! ninguem! Póde ser que por ao pé de nós andem condemnados, cujos nomes ignoramos. Não amemos alguem, que nos não vá sahir algum reprobo.

Sou tua serva, ó meu esposo; servir-te-hei, obedecer-te-hei; e para te agradar o dever me forçará a cumprir o que me pedires do coração, que não é teu.

São doentes os nossos filhos? Por que te assustas? São hospedes que te foram confiados, e que tu deves esperar vêr irem-se ao primeiro aceno de quem t'os mandou. Eu que os trouxe no seio e os criei, vel-os-hei ir, sem lagrimas. Quem sabe onde irão quando nos deixarem? Cumpria que lhes vissemos o fundo d'alma para os amarmos. Praza a Deus que elles morram na sua divina graça! É o meu mais ardente voto; e, se mais além eu fosse, a minha ternura seria fraqueza. Se elles vão ao céo, hei de eu chorar-lhe tamanha dita! E se são condemnados.... Não amemos ninguem, ninguem, nem os nossos filhos sequer! Familia temos só uma: é Deus com os seus anjos, e confessores e santos. Tudo mais não merece uma lagrima nem um sorriso. Roguemos, por tanto, uns pelos outros, filhos do peccado, mas nada de nos amarmos.