O Inferno
Capítulo III
Que lucram as pessoas de bem que esses patifes creiam no inferno? Está com isso a sociedade mais segura? E tal crença de que lhes serve a elles? O que os incommoda não é o diabo, é a policia; inquieta-os mais o degredo que o inferno.
Vá lá!—dizem elles—venha o inferno que não nos ha de faltar boa camaradagem! Quantas pessoas toparemos lá d'umas que n'este mundo se empavonavam todas, e não queriam rossar-se por nós! Havemos de vêl-os lá, mais apoquentados e castigados do que nós, esses patetas condemnados por pensamentos e palavras, por coisa nenhuma. Quanto á pessoa d'elles, tanto monta como a nossa, pois que hão de ser tão condemnados como nós. Não ha dois infernos, parceiros; ha um. Lá nos esbarraremos com capitalistas, com fidalgos, com duquezas, com comicas. Andaremos á ilharga dos juizes, dos quadrilheiros, dos escrivães, dos jurados e melhor ainda —viva a patuscada!—com deputados, com camaristas reaes, com bispos, com abbadessas, com principes e princezas, reis e rainhas. Venha o inferno! é tentador lá ir com tal sucia.
Tal é o raciocinio dos desalmados e a influencia que tem sobre elles aquella extravagante justiça, que nenhuma proporção gradua entre delictos e crimes, condemnando para sempre quem peccou uma hora, e o scelerado de toda a vida.
III
O grupo dos indifferentes, etc.
Estas pessoas cuidam em ser felizes com o auxilio da honestidade; pelo quê, se abstem do mal que o codigo define. Pelo que respeita aos sete peccados mortaes, não se preoccupam d'isso. Dizer que todos sejam invejosos, avarentos, luxuriosos, e o mais, seria mentir. N'esse innumeravel grupo abundam negociantes honrados, meninas castas, esposas fieis, pobres sem inveja, ignorantes modestos, ricos bemfazejos, e muitas abelhas para cada zangão; mas perfeito ahi não ha ninguem; ninguem ahi vive em graça; o melhor do rancho é aquelle a quem Deus, no dia do juizo, só accusar de ter violado sem escrupulo todos os mandamentos da Egreja. Mas, com esse só peccado na consciencia, o melhor do rancho será condemnado.
Se o roubo e o homicidio são raros n'essa assemblêa, não procede isso do medo do inferno. Ahi é bastante motivo para condemnação uma folha de papel escripta, um «sim» apenas balbuciado e ouvido, um lance d'olhos, uma flor murcha, e essa, onde entra amor—amor no peccado, meu Deus!—é de todas as condemnações a que mais piedade desperta. Porém, n'esse immenso circulo, onde tudo pecca, cada qual se condemna á sua vontade: um por fastio; outro por vaidade, este por curioso, aquelle por pusillanime; condemna-se um por um casal, outro por uma venera, por um acepipe, por um prato de lentilhas, por um penacho, por uma fitinha, por um trapo, por trinta contos, por trinta reis. Condemna-se este a trabalhar, aquelle a passear, um a comer, outro a jejuar, a ler, a dansar, a palestrar, a meditar, a vestir, a despir, desde a aurora até ao escurecer, desde a noite até ao dia, todos se condemnam a bel-prazer.
Distinguem-se lá os peccados que Deus pune indistinctamente. Permittem-se os que Deus castiga até com eternas penas, quando é elle só quem pune; recua-se, porém, dos que Deus castiga e a sociedade tambem. Não se diga pois que o inferno atalha os crimes dos indifferentes. Tambem ahi é manifestamente esteril similhante crença. O que se teme é o vigia, a patrulha, o commissario da policia, essas personificações vulgares, mas terriveis da opinião e da lei. Temem-se as algemas, o carcereiro, a masmorra, e ainda mais á mistura com os scelerados. Por muito dura e inevitavel que se figure, a pena material não os conterá sempre quando a paixão os esporêa. Do mesmo modo que affrontam o inferno, affrontariam a cadêa e até a forca, se a forca estivesse ás escuras; porém a vergonha, o estrondo da queda, é para o maior numero a pena intoleravel. Seriam capazes de desafiar carrascos e diabos; e não ousariam encarar o desprezo do amigo, do visinho, do estranho, do transeunte, do mendigo; não lhes faz grande mossa a ignominia diante de sua mãe ou de seus filhos, e tremem de se vêr baralhados com creaturas devassas que são máos sem repugnancia, e medram no mal como em seu nativo elemento.