O Inferno

Auguste Callet · Capítulo 70 de 77

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O Inferno

Capitulo Quarto

 

ADVERTENCIA FINAL

 

I

As idêas que empreguei no discurso d'esta obra andam por tantos livros disseminadas, e prégadas de tantos pulpitos, e tão notorias e populares, que me não temo de que m'as neguem. Diligenciei exprimir claramente os dogmas, preceitos, maximas, opiniões sempre admittidas nas faculdades de theologia, nos seminarios e conventos: era acto de boa fé e tambem de prudencia; que toda minha argumentação claudicaria, se eu attribuisse aos propugnadores do inferno linguagem que não fosse a d'elles.

Fui eu quem inventou a queda de Satan, o poder e maleficios da corte infernal, o peccado do Eden, e a maldição dos homens? Fui eu quem encerrou no claustro o ideal da perfeição christã? Fui o auctor das sentenças desesperadoras fulminadas contra o mundo e contra os affectos e luzes naturaes, contra o bom siso e contra a vida? Inventei eu as devotas reflexões, azadas para mirrar os corações das mães e dos filhos, e uns pensamentos afogueados que calcinam o cerebro como o alcool, embrutecendo uns, e desvairando outros em devaneios melancolicos? É culpa minha se o inferno parece coisa atroz? Não suavisei eu em vez de encarecer as pinturas conhecidas? Se é immoral, estava a meu cargo mudar-lhe a condição? Attribui eu ao padre Bohours palavras alheias, ou a S. Bernardo coisa que elle não dissesse?

É verdade que eu muitas vezes poderia auctorisar-me com textos, e dizer em grego ou latim, ou italiano ou allemão, em nome d'outrem, o que expuz a meu modo. Mas que tinha eu a ganhar com esse systema? Nenhuma das idêas que discuti pertence nominalmente a este ou áquelle theologo; junta ou separadamente todas lhes pertencem: é dominio commum. Seria apoucar e abater a questão conferir a uma crença tradicional visos de opinião particular. Acato a virtude, admiro o engenho, onde quer que os encontro, até nos mesmos que me ameaçam com as penas eternas; não mal-quero por tanto a S. Gregorio, nem a S. Jeronymo, nem ao padre Nicole, nem a algum theologo morto ou vivo. Não me estive a quebrar lanças com personagens mais ou menos eminentes: que são apenas eccos de doutrinas que vogaram muito antes d'elles. Se eu tivesse em cada pagina citado um doutor, julgar-se-hia que os outros doutores, não mencionados, depunham contra mim. Não aconteceu isso a Pascal? Nomeia elle as suas testemunhas, transcreve-lhes litteralmente as proposições, e vos remette ao volume e pagina d'onde as trasladou; pois responderam-lhe que se as proposições que elle combate estão nos livros d'onde as copiou, a culpa é dos auctores, e não da companhia que os instruiu. Claro está que eu tenho por mim auctoridades muito mais embaraçosas que os padres Petau, Penterau, Hurtado, Bille, Sanchez, Suarez, Escobard, Bauny, Molina, Reginaldo, Tannero, Filicitius e Azor. Tenho-as numerosissimas, a ponto de a mim mesmo me embaraçarem. Qual hei de escolher entre tantas? Que mais vale uma do que outra? Um capuchinho canonizado vale ou não vale um papa não canonizado, mas fallando ex-cathedrâ? E de mais um só auctor, por extremo que fosse o gráo de sua respeitabilidade, bastaria a tapar a bôcca aos altercadores? Quantos textos seria preciso adduzir para authenticar certas phrases alcunhadas de perigosas, levianas, absurdas e escandalosas? Quantos padres, papas, bispos e doutores teria eu de dispôr em batalha a meu favor? Confesso que não sei. Fui, pois, sobrio em citações, não por mingua do assumpto, mas antes por excesso. Convençam-se de que não ha linha n'este livro á qual eu não podesse cerzir, se me aprouvesse, paginas inteiras, senão volumes de annotações justificativas, hauridas nas fontes mais puras, mais frequentadas e veneradas.