O Inferno

Auguste Callet · Capítulo 24 de 77

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O Inferno

A carmelita ou o ideal da perfeição theologica.

Comvosco admiro as religiosas que, sob diversos nomes e com diversos habitos, assistem ao genero humano, tanto com suas orações, com o seu trabalho quotidiano, com toda a celeridade de seus pés, com toda a agilidade de suas mãos, como com todas as forças de seu ser. Credes que não é possivel seguir mais do que ellas os divinos vestigios do Salvador. Ah! quanto vos enganaes! Quanto são baixas e eivadas de heresia as vossas idêas! A perfeição não consiste na vida activa e benefica das irmãs da caridade; onde ella está, segundo o ensinamento dos theologos, é na vida contemplativa.

Se procuraes, senhora, o modêlo para vós e vossos filhos, encontral-o-eis na carmelita, com preferencia á irmã da caridade. Aquella morreu para o mundo, jaz no seu cubiculo como em um tumulo. Vá quem quizer agasalhar orphãos, ensinar ignorantes, restaurar peccadores, curar doentes, ensinar officios a servos, dar voz a mudos. Affronte quem quizer o contagio de nossos vicios! Quem quizer que cure a nossa lepra! Esses cuidados vulgares não os quer a carmelita para si. Aos pés do altar, com os braços levantados ao Senhor, é o seu posto. Não se bulirá d'alli, ainda que todo o paiz arda ensanguentado. Não lhe digaes: vosso irmão está a morrer; vossos sobrinhos vos estão chamando. Não lhe digaes: arde a peste na cidade; á vossa porta está a maca. Ha muito que ella concebeu tedio do mundo; não lhes leveis novas d'elle, que perturbarieis o seu socego. Quanto menos ella se inquieta d'essas transitorias miserias, mais os theologos a admiram. N'isso mesmo, —crêl-o-eis?—é que está, segundo elles, a sua superioridade sobre a irmã da caridade, cujo coração virginal arfa como coração de mãe

ao grito da criancinha [4].

A carmelita não pensa, nem tem que pensar senão em sua propria salvação, e tal pensar é um manancial das commoções que unicamente lhe são permittidas. Bem que ella viva dez, vinte, cincoenta annos sob o veo, fará todos os dias, á mesma hora e da mesma maneira, a mesma coisa sem poder por seu arbitrio alterar-lhe o minimo. São-lhe pautados os movimentos, e contados os passos. Em todo o curso de sua vida não ha a menor surpreza, o minimo abalo, o imprevisto, a menor liberdade, ou elevação espontanea das faculdades moraes. Estão definidas e immutaveis as suas relações com todas as coisas animadas ou inanimadas que a cercam: não se afeiçoa, não escolhe, não se decide. É-lhe prohibido ganhar affecto a coisas e a pessoas. A abelha é mais livre do que ella em sua colmeia, e menos inflexivel que as regras monasticas é o instincto que a dirige. Uma communidade de freiras parece-se a um povo de automatos e não a um enxame de seres viventes. E essa é que é a condição pela qual a harmonia subsiste. N'estas sociedades contra natureza, é prudente que a natureza seja algemada; pois, se lhe dessem folga, ella se revoltaria; e por tanto é forçoso esmagar a liberdade como cautela para que a licença não vingue. É pois a carmelita em todos os seus actos mera machina. Tem alma para obedecer e trabalhar na sua interior perfeição, destruindo em si, cada vez mais, vontades, desejos, e individualidade até ás raizes. Onde está a lucta está a vida. N'esse immutavel centro, solitario e silencioso, onde se caminha sem mudar de piso, passa a adolescencia sem curiosidade, e a velhice sem experiencia nem memoria. Ahi nada se renova; o dia que chega nada promette; o dia que finda nada deixa; é a vida um livro, cujas paginas em vão se folhêam: sobre essas paginas brancas ha uma só phrase, do começo ao fim, sempre a mesma: «pensa em ti, pensa na eternidade.»

Ahi vem agora com que espancar o tedio do mosteiro. Á mingoa de grandes e formidaveis combates do lar domestico e da sociedade, isto é, da vida real qual Deus a fez, a ociosa carmelita pugna heroicamente contra sua razão, contra seus sentidos, imaginação, e faculdades inactivas. Crê resistir ao diabo, resistindo á necessidade de operar, de amar, de saber, e ser util: estafa em puerilidades a sua virtude. Se durante o officio, uma mosca lhe pousa no nariz, é um caso, é uma provação. Se está distrahida, assalteam-na remorsos; se impaciente, vai confessar-se d'isso. Uma pulga é outro inimigo terrivel, outra occasião de grande queda ou de grande victoria! Um alfinete mal pregado, um vêo descomposto, uma lembrança, um gemido, um pensamento clandestino, o rastilho d'um rato atraz do armario, um Ave esquecido, ó cathastrophe! ó remorso! ruina de Sião! prantos de Job! brados de Rachel! transportes de Jeremias! Qualquer bagatella a alvoroça como materia de peccado mortal; qualquer futilidade lhe avulta com proporções monstruosas; pesa grãos de areia, e mede os atomos.

Pois se ella conseguiu esquecer sua familia, seu paiz e o mundo, não a cuideis completamente impassivel como se vos figura: o que ella fez foi concentrar em si e para si o amor e piedade que nega aos outros. Idolatra-se, não ao modo dos sybaritas, mas por um theor que, posto não seja sensual, não é menos egoista: absorve-se em contemplação de sua alma; no proprio coração preenche o vacuo de familia e de amigos, e de quantas creaturas de lá expulsou. Contempla-se sósinha, entre o inferno e o céo, a tremer perante um tal espectaculo, e sempre fluctuando entre estes abysmos, ora nas alturas, ora nas profundezas, passa de um delirio a outro, e das palpitações do terror ao extase dos seraphins.

Eu por mim não sei se Deus sorri a taes futilidades, a tal vida que não é viver, e a tal morte que não é morrer; mas os theologos affirmam que é n'isto que a perfeição consiste.

E forçoso é concordar que elles tem razão, se ha inferno. Se ha inferno, a irmã da caridade é imprudente, e nós, os admiradores d'ella, somos sandeus. O sequestro mais rigoroso é a consequencia legitima, natural, necessaria e fatal d'este dogma selvagem. O alicerce, a porta e o tecto do mosteiro é aquelle dogma, que desata as sociedades naturaes e viventes avinculadas pelo amor; é elle o occulto liame d'aquellas sociedades de automatos que não permaneceriam um dia, nem hora, nem momento, se tal dogma fosse proscripto. Sem inferno, a vida claustral não se percebe; com inferno, não ha imaginal-a mais a ponto, e é obrigatorio confessar que, de feito, a perfeição está n'ella, visto que a razão está com ella.

Não obstante, filhos do seculo, não renuncieis afogadilho de seculo, que vol-o prohibem os theologos.

Ficai entre peccadores, no foco das tentações, dos escandalos, dos erros, e das ciladas que vos tramam. Razoavel coisa seria fugir para o porto seguro que vos offerecem; mas não vades; continuae a navegar entre restingas, á mercê dos tufões, aos clarões dos relampagos. O convento não vos quadra; porque não foi feito para muitos.

Entendo, direis, que o convento se abriu para os entes mais debeis, para os incapazes não só de ajudar a outrem, mas tambem da mesma mente se salvarem, sem se arriscarem ás tempestades. Faz-se mister ás almas frageis e justamente timidas o estreito cenobio do claustro, a protecção das gradarias, a escravidão, as regras, o véo sobre os olhos, a mordaça nos labios; sem o que se perderiam. Em quanto os valentes combatem, vão ellas esconder-se longe do inimigo.

No seu caminho se arrastam gemebundos alguns fugitivos, fallidos de animo, cahidos por terra, feridos de suas proprias armas, e quem sabe se alguns heroes alanciados no coração! Entendo, direis, que o claustro é o refugio dos pusillanimes, o porto dos naufragados, o hospital dos infermos, e aqui se mostra a apparente razão porque nem toda a gente lá póde entrar.

Está enganado o duro leitor, que nada percebe dos mysterios theologicos. Saiba pois que o claustro é o asylo dos fortes; e que só lá são recebidos os athletas a primor, mais puros e intrepidos, a flôr da juventude christã. Não soffre a menor duvida que é mil vezes mais de perigo a sociedade onde os soccorros são muito menos do que os retiros abençoados. Que nos faz isso! De logar abrigado e onde a graça superabunda é que os poucos são repulsos, com quanto, ao primeiro intuito, nos pareça creado para elles; ao mesmo tempo que do baluarte das luctas angustiosas se retiram os fortes, com quanto pareça tambem este o seu logar proprio.

Os coxos, os cegos e os inermes são postos na liça sanguinosa; os mais aguerridos soldados enclaustram-se. Espantem-se e riam-se, que a coisa é assim; e, senão, perguntem-no á Sorbonna.

E assim é preciso que seja, pois que a perfeita vida é a claustral, que, no entender dos theologos, vem a ser a mais avêssa ás inclinações de nossa natureza viciosa, e, por conseguinte, a de mais difficil observancia; mas, porque é impraticavel na sociedade, não se lhe dispensa de ser exemplo á sociedade; e, sem presumpções de lá chegar, devemos propender para ella continuamente, visto que estamos tanto mais á beira do inferno quanto longe d'aquella vida perfeita.

Que se hade fazer, pois? Eis o problema. Cada qual tem no mosteiro um trilho feito, e o futuro certo, portanto está quite de cuidados que fóra d'ahi seguem a pobreza, o trabalho, e até a riqueza, além das responsabilidades que a toda a hora pendem dos actos de uma vontade livre, n'um viver sempre fluctuante.

No mosteiro é tudo exemplos edificantes; e, posto que seja defezo ahi grangear um amigo, em compensação não se adquirem inimigos.

Nem impeços, nem disputas, nem conflictos, males que a liberdade produz, sendo que a servidão lhes esmaga os embriões. No exterior é tudo recolhimento, paz, ordem, silencio, e esforço; perturbações, se as ha lá, vem do intimo e do recondito do nosso ser. O unico inimigo que ahi ha que recear é o diabo, tal invisivel e impalpavel adversario que todos trazem comsigo, fracos e fortes, mundanos e frades; porém tal inimigo perde no claustro boa parte das suas prerogativas; porque alli não está elle como em sua casa, e no seu reino: são-lhe menos os ministros, os vassallos, e os recursos. O recluso, afóra a pessoal energia de que é dotado e lhe assignala a vocação, topa ahi de todos os lados conselhos e amparos; e como quer que tenha em frente aquelle unico inimigo, soccorre-se de mil auxilios, que faltam ao homem do seculo, e, máo grado a sua fraqueza original, vence-os. Que fazemos pois n'este misero mundo em que a infermidade nos algema? Ha aqui o rir, o chorar, o renhir, o disputar, o abraçar-mo-nos, o odiarmo-nos, perseguirmo-nos, e o aniquillar-se o homem contra homem: é uma reluctancia sem fim, e sem regra, um retinir de espadas, um estrondear de martellos, de carros, de machinas, de cantares, de gemidos, um cháos, uma desordem, da qual a clausura não poderia dar-nos sombra de idêa. Aqui, são mil os objectos em que a alma anda repartida; as diminutas forças que temos dispersam-se. Acolá o inimigo identificado comnosco, traz escolta de auxiliares, e a lucta interna de que ninguem se izempta, complica-se com as luctas externas e inevitaveis. Cada homem tem de bater-se com uma legião. Quantos cuidados! Quantos deveres! Quantas incertezas e anciedades! Quantas encruzilhadas sem nome, sem pharol, sem sahida! Que poeiras, e que sombras!

Considerae aquella mãe de familia a quem encareceis as virtudes da carmelita.

É pobre, todos os seus parentes são pobres, os filhinhos rotos, famintos, quasi sempre doentes, o marido alquebrado do trabalho, ou que, desanimando, se envileceu e a espanca, um patrão, um proprietario, credores, mestres, amos, amigos, e que amigos! conselheiros, mas conselheiros de Job! Se tal mãe é rica, tem uma casa que reger, creados a dirigir, os quaes nem fizeram voto de pobreza, nem de obediencia; filhos a educar, sagrados interesses que defender, relações que receber, um marido a contentar, quer seja honrado ou não, quer seja piedoso ou impio. Com vontade ou sem ella está continuamente a braços com as paixões alheias, com caprichos, interesses, vontades e affectos contrarios; de continuo em face de circumstancias imprevistas, casos litigiosos e incertos, onde lhe é forçoso resolver-se quando qualquer resolução é perigosa, não o sendo menos os perigos, se se absteem. É preciso que ella, se quer salvar-se, seja a um tempo economica e caritativa; communicativa, mas discreta; umas vezes branda, e outras inflexivel; expedita, mas reflexiva; previdente, mas conformada a todos os sobresaltos da fortuna; que viva ao mesmo tempo em si, e nos outros, para si, e para todos: missão indefinivel, cheia de contrastes, de atravancos, de cruzes, mais ardua e mais difficil que a missão da freira.

Digam embora que esta mãe de familia tem na sua miseria satisfações, tranquillidade e jubilos que não goza a carmelita: depende isso de saber se os jubilos de que fallam são comparaveis ás dôres que a freira ignora. De mais, esqueceis que esses prazeres são um engodo e que se prendem n'elle sem o conhecer, e se prendem tambem quando o conhecem. A saciedade, o desgosto, e o cansaço são as naturaes barreiras da voluptuosidade. Chegará até ahi a mulher christã? Não o permitta Deus. Até onde irá? É ponto mathematico que separa o peccado do prazer licito; e, quando o limite se procura, onde fica elle já? Raras vezes estamos a sós com a serpente como Eva no Eden, e a freira na cella. Á mesa e em toda a parte ha quem vos distraia, seduza e arraste; bebemos sem sêde; está a bocca repleta, mas os olhos famintos; o gozo que satisfaz a precisão aguilhôa o desejo. Quem houver de parar a tempo na ladeira onde o aventurarmo-nos é permittido, ha de ter mil vezes mais vigilancia, cuidado e poder sobre si, do que lhe seria preciso para lá não pôr o pé. Conceder alguma coisa á natureza é contiçar o fogo que quizeramos extinguir; é alimentar o leão que desejaramos estrangular. Das delicias menos carnaes, toucador, conversação, emprego de teres e do tempo, é ainda mais desconhecido o limite, maior a liberdade, e mais temivel a responsabilidade.

Não me fallem de umas satisfações mentirosas que o terror empeçonha quando se pensa n'ellas, e que o inferno corôa, quando se não pensa no inferno. Por certo que é duro, mas o mais prudente é regeital-as. A abstenção é uma lei simples, clara, e breve: é bastante que haja coragem para a praticar sobretudo nos votos conventuaes. A freira, com o andar do tempo, afaz-se á lucta; curva-se ao jugo; os sentidos privados de excitações amortecem, até que, por fim, a coragem se torna tão inutil quanto lhe foi em todo o tempo inutil o espirito de proceder. Mas, se a lucta intima se prolongasse, a freira para evitar os desvios e as fugitivas rebeldias do corpo e da vontade, careceria de ter até ao seu derradeiro suspiro o inferno diante dos olhos, o cilicio na cintura, e o terror na alma. Assim é, mas que importa? Comparado aos soffrimentos de uma mãe, o que é o cilicio de uma virgem? Quem ousará comparar essas duas existencias? Comparar receios pessoaes com receios generosos? Combates sem testemunhas a combates exemplares? Trabalhos infructiferos a fecundos suores? E fallando sisudamente, e na melhor fé, se uma d'essas duas pessoas devesse copiar a outra, não é de certo a mãe que deveria servir de modelo? A irmã da caridade não é já de si mãe? E a esposa de José que trouxe em seu seio, e nutriu com seu leite o Filho do Homem, e ao pé da cruz lhe recebeu o ultimo alento, não foi ella, em sua amargura, a mãe adoptiva de João, o amigo d'Aquelle por quem chorava?

Que jactancia é essa então d'um desprendimento de affectos e vontades? Para que querem insinuar em nossos lares taes inquietações, terrores e escrupulos, unicas occupações do claustro? E para que é, em nome do ceo, sobrecarregar de jejuns e abstinencias a jornaleira, a camponeza, a mãe, que já vacillam sob o fardo do padecer e trabalhar?

Vê-se que theologia e bom siso são coisas infelizmente contradictorias. Vê-se que seria preciso abolir o inferno para que depois viesse a renuncia das macerações, terrores e falso ideal que um claro entendimento reprova.

Mas porque não se apaga o inferno? Extincto elle, brilharia o purgatorio com luz mais viva e salutar. O inferno é que faz odiosa a liberdade, rebaixando-a e vilecendo-a; o purgatorio volve-a estimavel, realçando-lhe bellezas, dignidade e grandeza, sem lhe dissimular os perigos e as penas. Quem crê no castigo eterno, enterra o talento para que o Senhor lhe não toque. Quem melhor conhece o Senhor e sua justiça faz render cinco talentos em casa do banqueiro, arriscando-se a perdel-os. O purgatorio actualmente de que vos serve? Dizem que a pobre carmelita se abalança a lá arder milhares de annos, por causa de algum secreto estremecimento do seu corpo que ella tanto disciplinou; por causa do captivo espirito que tão enfreado trazia, ou, emfim, á conta do coração generoso, cujas pulsações tantas vezes abafára.

O purgatorio deve aterrar principalmente a freira e os que vivem como ella; ora os mundanos não tem razão de se affligirem, antes devem consolar-se, pensando n'aquelle logar de supplicio. A nós, filhos do seculo, não nos é racionalmente permittido aspirar áquella dolorosa felicidade, que é castigo dos sanctos e o seu primeiro galardão ao mesmo tempo. Em vez, porém, de o desejar, e desejar em vão, como nós o temeriamos, se elle fosse a unica estancia em que se cumprisse a justiça de Deus! Que mudança se faria em tudo d'este mundo! A perfeição e a salvação não estaria na ociosidade em joelhos, no terror em oração, no fugir ao proximo, no entregarmo-nos a algumas privações e dôres corporaes, arbitrariamente substituidas ás dôres e sacrificios de uma vida proveitosa. Então se entenderia que ha dous modos de abusar de nossas faculdades, uma que está no desprezo d'ellas, com receio de as usar inconvenientemente; outra que consiste em nos servirmos d'ellas indiscretamente e ao avesso das intenções da Providencia que nol-as deu.

A doutrina do Evangelho não é doutrina de abstenção; é doutrina de acção: causa porque o purgatorio lhe quadra melhor que o Evangelho. Carecemos menos de frades que de christãos. Se o inferno refreia o mal, tambem impede o bem. A ameaça seria salutar; mas ella faz mais que ameaçar, empedra como a cabeça de Meduza quem a encara a fito. Tende a supprir com uma especie de passibilidade estupida a livre e intelligente actividade da alma. Não derime o egoismo, exalta-o a mais não poder, e tal exaltação devidamente localisada no deserto, n'uma gruta, no claustro, é medonha de vêr-se no seio das familias.

[4] Elles comparam as irmãs da caridade áquella mulher de Bethania

chamada Martha, a qual, vendo entrar Jesus em sua casa, se deu pressa em

lhe servir a ceia; e comparam a carmelita á Magdalena que, em vez de ajudar

Martha nas suas diligencias, lavava e perfumava os pés do divino hospede,

enxugando-os com os seus cabellos. Diz porém o Evangelho que Jesus

estava á meza quando Magdalena lhe abraçou e ungiu de lagrimas os pés.

Não ha palavra na relação dos apostolos, d'onde possamos colher que é

melhor orar pelos famintos do que alimental-os. O contrario é que lá se diz; e

quando Jesus nos faz assistir de antemão ao julgamento do dia final,

exclama: tive fome, e vós me alimentastes; tive frio, e me vestistes. A scena

de Bethania, e o louvor dado a Magdalena, não desluz o claro ensino do

Evangelho. Este episodio prova sómente que não basta alimentar os pobres,