O Inferno

Auguste Callet · Capítulo 8 de 77

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O Inferno

Capítulo VI

Detestam-se. Desde a sahida do Eden que se digladiam em duello sem fim, posto que desigual. Um primeiro crime gerou a colera divina; mas do primeiro acto da colera divina surtiram outros crimes, os quaes geraram novas coleras, e continuamente, em face um do outro, a colera e o crime se fecundam e reproduzem sem descanso. Os homens n'esta lucta são incansaveis como Deus, e, posto que trespassados e sanguinolentos e esmagados, ameaçam e conspiram ainda.

De semelhante espectaculo não ha nome condigno! Está o odio por toda a parte, na terra, no inferno, no ceo, nas creaturas e no Creador.

Accrescentemos que o que melhor se comprehende neste systema é a rebellião do homem, porquanto a nossa sorte é mais miseravel que a sorte de Adão, e cem vezes mais miseravel que a de Satanaz. Mas faz-se mister esclarecer este ponto, antes de passar além.

 

VI

Comparação da nossa sorte com a de Adão e de Satanaz

Em verdade nenhuma similhança temos com os habitantes do paraiso terreal; não lhes herdamos o saber adquirido sem trabalho, nem a pureza, nem a liberdade, que se agitava a bel-prazer em um tão vasto circulo, tendo um só limite perfeitamente distincto; nem tão pouco lhes herdamos a tranquilla felicidade. Para nós é tudo trevas, servidão, limite, trabalho e dôr. Apezar do peccado, outra vantagem nos levavam. Puniu-os Deus d'uma maneira que nos espanta; mas puniu-os pelo mal que propriamente fizeram. Comnosco não é assim. Primeiramente, aquelles actos, que Deus tão severamente castigou n'elles, continuam-se em nós, que não temos conhecimento d'elles senão por este proseguimento vingativo; depois, sem attender á nossa infermidade nativa, nos faz elle expiar nossas proprias faltas com tamanho rigor como se as nós tivessemos commettido na liberdade, na sciencia, e nos jubilos do Eden.