O Inferno

Auguste Callet · Capítulo 71 de 77

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O Inferno

Capítulo II

Similhante lavor, porém, ainda que eu o compendiasse á essencia do debate, cansaria a paciencia dos leitores, que se dispensam de tão barbaro apparato para saberem ao que devem atter-se do que lhe ensinaram desde o berço. Mas as provas de memoria as sabem; sobejam-lhes nas suas livrarias; não carecem de folhear concilios, obras de santos padres, bullarios, constituições de bispados, revelações de Santa Catharina, Santa Thereza, e outras bem-aventuradas; não se lhes faz preciso consultar Bossuet, Bourdaloue, Massillon, nem outros illustrissimos oraculos que nem sempre nos estão á mão. Mais boas de encontrar são as minhas provas: acham-se nos labios e nos ouvidos das creanças que estudam o cathecismo; acham-se em mãos de nossas irmãs, esposas, e mães, na sua Imitação, no Quotidiano christão, no Combate espiritual, na Vida dos Santos, no Livro d'ouro, no Pensai-o-bem, e em milhares de livrinhos d'este jaez, approvados pelos bispos e universalmente manuseados.

Os paladinos do inferno, se os houvesse, não ousariam, talvez, atacar as passagens d'este livro, de antemão atalaiadas d'uma guarnição formidavel de batinas, de chapeos vermelhos e de barretes; mas quem sabe se atacariam como abastardados, alterados, e erroneos os trechos que eu desprecavidamente não defendesse? Em tal caso, nada me valeria amontoar notas. Se m'as pedirem, eu lh'as darei em quantidade que lhes pareça de mais. Convenho, se quizerem, em incommodar com ellas os adversarios; mas tão sómente os adversarios; quanto ao publico, a minha intenção não é adormecêl-o; antes eu quizera acordal-o, esclarecêl-o e agradar-lhe. Mal andaria eu se, a proposito de taes polemicas, sacudia aos olhos dos leitores a poeira dos meus livros traçados!

 

II

Se não podem accusar-me de má fé na exposição dos principios que tentei impugnar, não faltará quem me accuse de máo juiz em tudo o mais. Estejam certos que não ficará aqui. O inferno tem seus devotos que não sacrificam ás Graças, mas ás Eumenides. Bem os ouço gritar: impio! incredulo! ignorante! detestavel pensador! monstro! scelerado! por que o não prendem, e mandam ás galés! Ousar descrer das penas eternas! Que faz o ministerio publico? Onde está o carrasco? Em França já não há lenha para uma fogueira? Votamos pelo inferno, queremos que os nossos paes e os nossos filhos sejam condemnados. Ao fogo com os selvagens, idolatras musulmanos, judeus, indianos, herejes! Ao fogo com os peccadores recalcitrantes! fogo eterno com os philosophos impenitentes! Não nos esbulhem d'esta amavel crença. Que havia de ser da moral? Queremos inferno e diabo, a maldição e o mal. Se muita gente se condemna, peior é isso, mas a culpa é d'ella. Que ardam para sempre! É vontade de Deus. O teu debil sopro, ruim pensador, não apagará as chammas salutares que não corrigem os mortos, que pouco emendam os vivos, mas fazem tremer as freiras nas suas cellas e alegrar os santos no paraiso. Viva o inferno! Se se elle apagasse, haviamos de accendêl-o com os teus livros. Queremos o inferno e seus supplicios, embora lá vamos cahir com as nossas mães e com as creancinhas que riem no collo d'ellas. Sem inferno não ha fé, nem Egreja, nem religião, nem lei, nem familia, nem moralidade, não ha nada. Conservemos o inferno! É absurdo? mais um motivo. Crédo quia absurdum. Parece-te isto injusto, incredulo, impio, perverso que não queres acreditar que Deus creasse tantos entes fracos para perdel-os sem missão! Imprudente! que ousas escutar a tua consciencia, quando a tradição falla! Malvado! coração de pedra que não dás dinheiro ao Papa para lhe redourar a thiara e vais dal-o a pobres e proscriptos, e estás ahi a lastimar os billiões de creaturas que povoam o abysmo. Ó sandeu! Ó miseravel! Algum proveito colhes atacando verdades tão uteis. És como os malfeitores que quebram os lampeões. Se assim vais, arrasarás os carceres. É bem de vêr, lá tens as tuas razões para querer destruir o inferno; se fosses de melhor casta havias de crêr n'elle.