O Inferno
Capítulo II
Diz com rasão Fleury que a vida dos nossos monges regulares corre parêlhas com a do commum dos fieis da Igreja nascente, cuja
continuação é [2] [3] . E accrescenta que já entre aquelles fieis havia ascetas d'ambos os sexos vivendo reclusos. Eram os mais perfeitos, e exemplares. Taes ascetas, verdadeiros ascendentes dos monges contemplativos, trappistas, cartuchos, carmelitas, claristas, etc., esforçavam-se por imitar a vida de João Baptista no deserto e a de Elias no Carmelo.
Curavam elles pois, como já dissemos, uma perfeição diversa da de Jesus: anhelavam a perfeição negativa, qual os judeus e os orientaes a preconisavam; judaisavam sem darem d'isso tento, e os christãos seus imitadores continuavam inadvertidamente a tradição, não já de Jesus, mas de João Baptista e Elias, tradição congruentissima com o inferno. Já no tempo das perseguições era povoada a Thebaida; não tinha então a Igreja um tecto debaixo do ceo; e só depois que principiou a erguer templos é que edificou mosteiros, sua primeira obra depois que sahiu das catacumbas. É pois evidentissimo, em que peze aos protestantes, que o catholicismo não se apartou do espirito dos tempos apostolicos, nem das praticas de então, e que a vida monachal detestada por elles, é ainda hoje em dia o que outr'ora foi, a mais bella flor, e o mais mimoso fructo dos dogmas hebraicos, que elles tão piedosamente tem conservado.
[2] Costumes dos israelitas e christãos, tom. II, cap. 53.
[3] Costumes dos israelitas e christãos, cap. 26.—Citei esta excellente obra
por que ella é manuseada por todos, e facilima de consultar. De mais a mais,
depara-nos a indicação das fontes onde o auctor bebeu, dispensando-nos
assim de as indicarmos n'este livro.