O Inferno
Capítulo IV
Ha d'elles, porém, que se forram ao mal, contidos por sentimento ainda mais nobre que o medo da opinião. Esquivam-se, não do peccado mortal, mas do maleficio que a sociedade civil pune ou reprova: afasta-os d'isso com asco um natural sentimento, sem esforço. Educação e habitos fortaleceram esses bons instinctos. Não são perfeitos, mas são probos, sinceros, generosos, capazes de grandes sacrificios occasionalmente. Com certos deveres nunca especulam. Denotam que a si se respeitam, que a propria estima se lhes faz precisa, ainda mais que a da sociedade, facil de transviar-se. E bem que não sejam philosophos nem devotos, sentem vivamente a dignidade de seu ser. É certo que este sentir lhes seria mais delicado e firme, se abrangessem as perspectivas da vida futura, em vez de concentrar-se cá; mas é forçoso aceitar os indifferentes quaes são; e tanto entre os peores como entre os melhores, a vida futura não é movel nem empêço: é uma coisa esquecida.
IV
O grupo dos devotos
Será medo do inferno que impede os devotos de matar, de roubar, de se retoiçarem, como javardos, no lamaçal dos sentidos? Crer-se-ha que elles de per si sejam insensiveis á honra, ao opprobio, e aos mais freios moraes e nobres estimulos que regulam a ordem e andamento das sociedades temporaes? Ririam elles das galés e até da forca? Seriam elles, em verdade, infames da ultima ralé, se não receassem a condemnação?
Se ha ahi tal raça de christãos, confesso que eu não confiaria d'elles nada, nem a minha bolsa, nem minha mulher, nem o meu segredo, nem eu mesmo adormeceria socegado entre elles. D'um scelerado a um devoto d'esta laia a distancia é tão curta que os meus pobres olhos não na enxergam. Dizem que ha uns pessimos soldados que, á vista do inimigo, olham para traz e só marcham para a frente com a bayoneta nos rins. E, se os não vigiaes, eil-os que desertam; e, até quando se batem, albergam a perfidia no coração. Pois bem: aquelles devotos são peores que os soldados tredos, por que destemem os homens e os juizos humanos, e os supplicios que os homens inventaram. O que elles sómente receiam é o fogo eterno, uma pena á qual se foge mediante a confissão. Ageitado o ensejo, roubam-vos, atraiçoam-vos, matam-vos, com a certeza de serem absolvidos occultamente, por uma mêa culpâ. Desgraçadamente é certo que a crença no inferno ha gerado monstros assim; a europa barbara tem milhares d'elles; ha bastantes para lá dos montes, e bem póde ser que mesmo cá; senão vejam aquelle devoto padre, cuja historia as gazetas contaram ha pouco: era um padre que matava todos os seus filhos no berço para se forrar ao incommodo de os crear; mas é provavel que os baptisasse, com o receio de que se perdessem. Eu de mim não quero chamar christãos, nem sequer homens, a taes feras. Deus nos livre de encontrar similhantes christãos em uma serra por noite de luar.
A honestidade d'estes meus devotos custa-lhes pouco; são creaturinhas que podem ver a felicidade dos outros sem sentirem cocegas de lh'a empalmar; não roubam nem matam por que a forca os embaraça, e a opinião dos homens ainda mais; pessoas, em fim, que tem mais mêdo ao crime que aos castigos correspondentes. Taes são os meus devotos. Devotos denomino eu todos os leigos que não duvidam, nem são indifferentes, nem se esquecem de ir á missa, nem deixam de confessar-se ao menos uma vez cada anno. É verdade que eu não os incampo a ninguem como anginhos já cosinhados para a canonisação. Se elles não andassem por igrejas com tanta regularidade, não sei bem como estremal-os, quanto ao seu proceder, do bando dos indifferentes. Não são elles os derradeiros a informar-se d'onde sopra o vento, onde aquece o sol, e onde está o idolo do dia para o saudarem, nem tambem são os ultimos a apedrejar o idolo da vespera. Quantas villanias sobre-douradas e quantas villanias bem nuas e patentes lhes não attrahem as barretadas, e os cumprimenteiros sorrisos! Como elles se curvam deante do que desprezam! Que impio acatamento prestam á força, e até, com medo de se enganarem, ás apparencias da força! Que vulgares mexericos, que vulgares ambiçõezinhas, que exemplarissimas ingratidões!
Não os accuseis de hypocritas, que elles são sinceros, não fazem momices, vão ás procissões com a melhor boa fé, assistem ás festas do Mez de Maria, tem rosario, agnus-Dei, e penduram no pescoço medalhinhas de cinco reis carregadas de indulgencias. E, assim mesmo apezar da sua boa fé em medalhas, é bonito vêl-os, em sua casa, evitar o escandalo com melhor exito, e mais vigilancia que o peccado. E nem assim o evitam. Se sois curiosos, apanhai-m'os no ultimo degráo da escada, ahi por perto do altar: vereis o conego ás más com o deão; o sineiro bate na mulher; o sacristão tem má lingua; um juiz de irmandade casa a filha violentada com um velho, e dá cabo d'ella; outro, á sobre-meza, faz-se truão de chalaças de ebrio; e é de natureza tal, que a mulher por certas razões não admitte em casa creadas que não tenham edade e figura bastante canonicas, capazes de edificarem um mosteiro de bernardos; lá está um que é rico, mas economico, e d'isso estão os pobres tristemente convencidos. Ora, a esses peccados habituaes ajuntem, se quizerem, os peccados de occasião, e digam-me como se distinguem, por suas obras, o commum dos indifferentes do commum dos devotos.
Quereis subir ao primeiro degráo da escada? Luiz XI era devoto; Diana de Poitiers era devota; Brantôme devoto era; tambem era devota aquella regente de França que empregava as suas damas a seduzir, quero dizer, a converter os jovens huguenots e os velhos tambem. Todo o seculo XVII foi devoto, incluindo os cavalleiros farçolas, os bandidos, os abbades galans e os abbades demoniacos, os aváros e os glotões, os orgulhosos e os abjectos, as marquezas adulteras e os duques medianeiros, os magistrados venaes e as princezas aventureiras. Todos esses tinham bancada na egreja, iam aos sermões e discutiam ardentes sobre a materia da graça. Os amantes arrufavam-se na quaresma e faziam as pazes depois de Pascoa. Madame de Montespan, na côrte, cuidava em salvar-se, e ninguem quizesse obrigal-a a comer, á sexta feira, uma aza de borracho; o que ella então comia era salmão, lagostins, esperregado e pastelinhos de leite. Madame de Sévigné, uma das mais honestas e amaveis senhoras d'aquelle tempo, tambem devota, lia os Contos de La Fontaine, e ficava-se a rir com elles e mais a filha. O inferno era como se nada fosse n'essas coisas. Quem desgraçadamente pensava muito n'elle, enterrava-se no claustro, como Mr. de Rancé e M.elle de La Vallière; mas, pelo ordinario, havia pouco quem se debruçasse a espreitar o tal abysmo; e quem se desse a esses exames sahia impertinente, misanthropo e jansenista. Fallava-se do inferno; mas sem reflectir grande coisa; encaravam-no pela casca. O grande caso era rir, cortejar o rei, agradar a todos, inclusivè a Deus, dando-lhe a vêr com infinita habilidade, espectaculos de devoção, de jogo, de ambição e... do mais.
O tempo e as revoluções que tantas mudanças tem feito, não mudaram o coração humano. Os devotos não são tantos como d'antes, mas são da mesma estôfa, e tanto montam estes como os outros, vistos a vulto. Relaxação extrema em fidalgos e populaça; sêde ardentissima de enriquecer; sordidissimos orgulhos; amores desatinados; paixões eriçadas de remordentes espiritos e blandiciadas de prazeres! Deus me defenda de calumniar peccadores a cheirarem ao incenso das igrejas! Bourdaloue, que os conhecia, e os demais prégadores assim antigos que modernos, disseram d'elles mais mal do que eu. O que sei é que o medo não faz bons aquelles que o bem, só de per si, não convida. O pejo do peccado poderá restaurar os cahidos; mas o medo, depois do peccado, é de todo o ponto inutil.
Não esqueçamos, porém, que ha devotos quasi irreprehensiveis, os quaes, sem serem heroes nem se destinarem a tanto, cumprem, sem desfallecer, a modesta missão que lhes quadra sobre a terra. São bemfazejos em pequena escala; restringem-se a pouco mais de sua casa; quanto muito, chegam até á visinhança; e, se por vezes, a mão caridosa ultrapassa estes limites proveitosamente, de novo se retrahe ao seu limite, onde está a maior formosura e grandeza de sua missão. Estes devotos não se distinguem dos outros por grande assuidade nos templos; o que os differencêa é o serem esmoleres; e mais visivelmente se estremam por se absterem do mal. Não são rixosos nem maldizentes: tem ainda mais caridade na lingua do que nas mãos, por que ella os serve com inexhauriveis riquezas. D'aquelles peccados mortaes que a sociedade chama fraquezas, e em que diariamente as pessoas piedosas resvalam sem morrerem d'isso, fogem elles como d'um grande delicto. Amam a verdade, a ordem, a continencia, o pudor, a sobriedade, como vós amais a justiça. E, comquanto não descream do eterno fogo, a luz que os guia não esplende do inferno, vem de cima; no ceo é que elles a buscam em seu peregrinar; e assim vão alentados pela esperança e não pelo medo.