O Inferno
Capítulo II
Um dos primeiros effeitos da perfidia de Judas foi a defecção dos apostolos. Em vez de seguirem o Mestre, falsamente accusado de sacrilego e seductor, dispersaram-se: Thiago, Simão, Thadeu, que elle chamava seus irmãos, João, o seu amigo dilecto, todos por egual covardes, não cuidaram senão em salvar-se. «Conheces este homem?» perguntaram a Pedro.—Não,—diz Pedro, o chefe, o mais corajoso de todos—não o conheço.—Renegou-o trez vezes; trez vezes mentiu; trez vezes testemunhou de falso em face dos accusadores: depois, chorou na escuridão, e calou-se. Todos deixaram injuriar, calumniar, chibatar e morrer Jesus, sem erguerem brado em sua defeza e duvidando que fosse Deus, duvidando-lhe da missão, das promessas; bem que, para grande opprobrio d'elles, certos de sua amisade, pureza de vida, e excellencia da moral. Para se reanimarem foi preciso o milagre que o pae Abrahão recusou ao rico avarento; nada menos que resuscitarem os mortos, e que propriamente Jesus saísse do sepulchro, e que elles o vissem, e conversassem e comessem em sua companhia, e que Thomé lhe tocasse as chagas. Desde então é que prégaram com inabalavel fé a divindade de Jesus.
III
O peccado dos apostolos, n'esta lamentavel historia da Paixão, é, na essencia, egual ao de Judas, bem que não tanto odioso. Faltou-lhes a todos a fé; porém, sendo a fé um dom sobrenatural, não devemos arguil-os desabridamente porque não receberam o dom. O que do seu proceder nos irrita é deixarem ir até final, sem publico protesto, a obra de Judas; é que abandonassem o innocente amigo que os outros tinham vendido; é que não dissessem a Pilato ou Herodes: «Não! este homem não é sedicioso; quer que se dê a Cezar o que é de Cezar, e a Deus o que é de Deus; paz, desinteresse, e caridade são a sua doutrinação.» Isto bem o sabiam elles, e não o disseram, e deviam têl-o dito, sem medo, e não abafarem, como fizeram, o grito da consciencia. Este é que é o crime dos apostolos, crime natural, como o de Judas.