O Tempo Não Apaga

Crys Carvalho · Capítulo 9 de 32

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O Tempo Não Apaga

Capítulo 8

 

Matheus perguntou, durante o percurso de volta para casa, o que fora aquilo no apartamento da vizinha. Estar no mesmo ambiente que ela o deixava irracional e despertava seus instintos mais primitivos. Sentia todo seu corpo se acender com a proximidade dela. Era como se ela fizesse parte de sua vida desde sempre e não conseguia evitar o ímpeto de tomá-la em seus braços, tocar a maciez dos seus cabelos, ter o gosto dela em sua boca. Queria o cheiro doce dela impregnado em seu corpo. Era uma mistura de saudade e loucura incontrolável que ele nunca entenderia.

Deveria escrever sobre isso, não queria esquecer como tudo tinha acontecido. Ainda podia sentir o perfume adocicado, o hálito fresco e a intensidade com que os olhos âmbar o fitavam. Passou o resto da noite com aquele momento em sua mente, mas com a sensação de estar esquecendo algo importante. Lembrava-se do que tinham conversado, mas não sabia por qual razão havia perguntado quando ela se casaria. O que ela respondeu? Aliás, ela ao menos respondeu?

— Planeta Terra chamando Matheus — a irmã praticamente gritava com ele — Por acaso você ouviu uma palavra do que eu disse?

— Hum... O que foi? — Para ser sincero havia entendido perfeitamente a pergunta dela, mas queria ganhar tempo. — O que disse?

— Que o prédio está pegando fogo — ela falou, com um tom de deboche — O que aconteceu, Matheus? Lembrou-se de algo?

— Não, não. Só estou pensativo mesmo. E então, o que queria?

— Que você pegasse minha escova de cabelo, por favor. — Ela estava secando o cabelo na sala, e ele se tocou de onde vinha aquele barulho infernal.

— Onde está?

— Na pia do meu banheiro.

Matheus estava intrigado com algo e não sabia o porquê, mas foi atender ao pedido da irmã. Não encontrou a escova onde Samantha havia dito. Estava procurando no armário sob a bancada da pia quando encontrou a caixinha de veludo entre as toalhas. Tinha deixado lá no dia anterior.

— Matheus, achou a escova? — Ouviu Sam perguntar.

— Não, estou procurando.

Na verdade, já tinha encontrado, mas o conteúdo da caixinha sempre o deixava intrigado.

H. Neoqeav, leu em uma das alianças, a mesma que sempre usava para espantar as garotas atiradas da nova cidade, já que não encontrou outra maneira de se esquivar delas. Só que tinha certeza de que a caixinha guardava algo muito importante do seu passado. Apertou o pequeno objeto na palma mão e o colocou no bolso da calça. Voltou para sala sem a escova.

— Cadê? Você a encontrou?

— O que tinha que encontrar?

— A escova, Matheus — Ela revirou os olhos. — Deixa pra lá. Eu mesma vou pegá-la.

H. Neoqeav

Lembrou-se das palavras novamente, passou a mão por cima da caixinha em seu bolso e foi para o seu quarto.

A primeira letra tinha que ser uma abreviação — do quê, ele não sabia —, mas a palavra não lhe era estranha. Lembrava-se de tê-la pesquisado no Google e, provavelmente, fez alguma anotação sobre ela. Abriu a gaveta do criado e começou a folhear sua velha agenda.

O significado sempre o surpreendia: Nunca Esqueça O Quanto Eu Amo Você.

Encontrou algo sobre a palavra que, agora conseguia recordar, sempre o fazia sentir um aperto no peito. Nesses momentos, tinha certeza de que havia perdido uma parte muito importante da sua vida.

Tratava-se de um casal juntos há cinquenta anos que jogavam um jogo que haviam começado desde o início do namoro. A regra era simples: um tinha que escrever a palavra “Neoqeav” num lugar inesperado para o outro encontrar. Quando encontrasse, deveria escrevê-la em outro lugar e assim sucessivamente. Eles se revezavam deixando “Neoqeav” escrita por toda a casa, e não havia limites para onde a palavra poderia surgir. O amor entre eles era profundo e o relacionamento era baseado em devoção.

Até que a mulher foi acometida por um câncer que a consumia dia-a-dia, mas o marido não a abandonou e esteve ao seu lado em cada momento, amando-a e confortando-a, orando e pedindo a Deus que cuidasse dela. Então, ela partiu. Mas o homem amou a esposa até o último momento.

Depois de ler aquela história, começou a pensar que talvez devesse lembrar-se de uma coisa importante sobre sua vida, mas ele não conseguia. Havia apenas aquele vazio em seu coração.

***

Eu podia quebrar a cara desse idiota, Fernando cogitava. Soube de quem se tratava no momento em que viu Matheus naquele jantar, pois tinha visto muitas vezes aquele rosto nas fotos que Helen escondia. A primeira vez que as viu, teve vontade de confrontar a esposa, mas depois percebeu que de nada adiantaria. Só a faria sofrer. Decidiu, então, fingir que nunca as tinha visto.

Porém, sempre quis era quebrar a cara desse sujeito; com que direito a abandonara? Sem falar na carta idiota, que com explicações ilógicas que havia interceptado. Graças a Deus, Helen nunca soube nada sobre isso.

Imaginava que, cedo ou tarde, ele apareceria novamente. Cogitou várias formas de fazê-lo pagar por tudo que fez a sua ex, mas quando o conheceu e descobriu sobre sua doença, percebeu que tinha uma grande possibilidade de que ele não fosse o responsável pelo envio daquela carta sem pé e nem cabeça. Uma outra pessoa havia feito aquilo, e jurou descobrir quem. Tinha evitado visitá-la depois do jantar porque estava pensando em formas de conseguir o que queria.

Quando a cunhada ligou à tarde e contou o que realmente havia acontecido a Matheus, sobre a doença dele, sentiu que precisava fazer alguma coisa. Por maior que fosse seu amor por Helen, Fernando só poderia ter sua amizade. E mais do que qualquer pessoa, desejava que ela fosse feliz. Tinha se cansado de ver aquele sorriso sem brilho no rosto dela. Quantas noites acordou com ela chorando? Quantas vezes a consolou? Esse cara teria que merecê-la primeiro. Fernando teria que saber se tudo aquilo não passava de uma farsa, e se Matheus ainda a amava. Quando tivesse certeza, pensaria em alguma coisa para fazer.

***

Existiam poucas pessoas em São Felipe que reconheceriam Matheus se o vissem, e as probabilidades de toparem com ele eram mínimas.

E todas, inclusive a irmã dele, sabiam que ele e Helen haviam compartilhado algo lindo e único. Esses amigos do passado, provavelmente, fariam alguma coisa para juntar os dois, porém ninguém podia despejar a verdade de uma hora para outra.