O Tempo Não Apaga

Crys Carvalho · Capítulo 13 de 32

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O Tempo Não Apaga

Capítulo 12

 

Helen foi para seu quarto terminar de se arrumar. Estava dando os últimos retoques quando ouviu as vozes de Matheus e Samantha conversando animadamente e foi dominada pela insegurança. Abriu seu armário, pegou uma pequena caixa, ajoelhou-se e começou a mexer em suas lembranças. Eram fotos, cartões e cartas de outro tempo de sua vida, mas procurava uma em especial. Pronto, lá estava ela. Observou-a por um longo momento e ficava impossível acreditar que aquele casal, se olhando apaixonadamente, agora não passavam de completos estranhos. Helen leu a frase no verso da foto.

Talvez tenha sido um beijo e nada mais, mas eu fiquei assim: apaixonado por você.

Neoqeav

Aquela foto foi a mesma escolhida por ambos para decorar a sala de jantar do apartamento dele. Seus olhos encheram-se de lagrimas. Depositou as lembranças de volta na caixa e a colocou de volta no armário.

Tocou o pingente.

Neoqeav.

Abriu-o e lá estavam eles, felizes no relicário que ela nunca conseguiu deixar de usar. Nem mesmo Fernando a julgou por isso. Fechou o pingente e levou as duas mãos ao rosto. O anel se enroscou em seus cabelos, ela o tirou do dedo. Neoqeav.

As evidências da história que tinham vivido a machucavam.

— Olá, Helen, posso entrar? — Samantha perguntou após bater na porta.

— Sim, claro — ela respondeu, enxugando as lagrimas que ameaçavam cair.

— Olha, o Fernando disse que eu podia vir aqui.

— Ah, sem problemas. Só estava terminando de me arrumar. Onde está sua sobrinha?

— Com o pai e não para de perguntar por você. Uau! Seu quarto é lindo — Ela encarava o pingente que Helen ainda apertava entre as mãos. — E esse pingente? Isso foi... Foi ele... Foi meu irmão quem te deu?

— Sim — confirmou, tirando as mãos do pingente enquanto Sam tocava a joia admirada.

— É bem o tipo de coisa que ele daria a alguém como você. É simplesmente perfeito. Sempre tentei me convencer de que fiz o que foi necessário para cuidar dele, mas depois que conheci você, e fiquei sabendo da história que tiveram juntos, me sinto uma idiota. Talvez meu irmão nunca volte a ser o mesmo que conheceu, Helen. — Samantha alertou.

— Não foi certo o que você fez, nem sei se um dia vou conseguir digerir o que me contou, mas por que acha que ele não vai conseguir? — Helen indaga.

— Pelo que me contou, meu irmão era uma pessoa certinha, que tinha seus objetivos traçados. Já hoje é avesso a tudo que me disse. É seguro de si, intimida às vezes com aquele porte todo, é apaixonado pela profissão, não tem medo do desconhecido, mas eu sei que no fundo ele tem muitas inseguranças e aquele olhar vazio alheio a tudo que o cerca.

— Notei as diferenças gritantes no pouco que nos falamos.

— E então, como você está?

— Nervosa e insegura, mas estou bem.

— Fique calma que vai dar tudo certo. E se não der, é porque tinha que acontecer mesmo!

— Samantha, eu preciso falar com você. Não tem que ser hoje, mas precisamos esclarecer algumas coisas. — Helen afirma.

— Por mim, tudo bem. Podemos marcar qualquer dia desses. Pode ser aqui mesmo, lá em casa talvez não fique à vontade.

A porta do quarto se abriu novamente. Tatiana entra como um furacão.

— Então é assim que alguém recebe seus convidados? Trancada dentro do quarto e um ex-marido maluco enchendo a paciência dos pobres coitados lá fora?

— Boa noite para você também, Tatiana. A propósito, Samantha, essa mal-educada aqui é a minha melhor amiga, aquela de quem te falei — disse, fuzilando a amiga com um olhar de reprovação — Essa é a irmã de Matheus.

— Ah! Prazer, me desculpe. É que, normalmente, já sou neurótica. Grávida, então, sou muito pior. — cumprimenta a vizinha de Helen — Nossa, amiga, você não me falou o quanto ela é linda. A garotinha lá na sala realmente tem a quem puxar, viu?

— Obrigada, mas o prazer é meu — respondeu sem jeito — Vejo que conheceu minha sobrinha então?

— Sim, uma garota muito esperta. E você, Helen, obrigada por dizer a uma garotinha que sou comilona — comentou com um ar de reprovação -Mas e aí, Samantha, o que está achando da cidade?

— O ritmo é menos acelerado do que a minha cidade natal, mas é muito boa, principalmente para os negócios. Eu e Matheus ainda estamos nos adaptando às mudanças.

— O Matheus está se adaptando às mudanças, sei... — disse sarcasticamente, sem perder a oportunidade de alfinetar Samantha.

— É. Ele sofreu um acidente, perdeu a memória e são muitas informações para processar — A outra retrucou, um pouco na defensiva.

— E você, certamente, deve saber o tipo de informação que ele perdeu e o dano que isso causou a seu irmão e a Helen— disse, alterando a voz, mas Samantha ficou paralisada apenas escutando.

— Tatiana — Helen a repreendeu.

— Essa mimadinha tem que ouvir umas verdades. Com que direito você fez isso? Por culpa sua, a Helen quase morreu — ela falava descontroladamente.

— Tatiana, pare já com isso. Desculpe, Sam, infelizmente esse é o normal dela — disse, puxando a amiga para o banheiro e trancando a porta.

— Você pode me soltar agora?

— Sua desequilibrada, o que pensa que está fazendo? Arruinando a noite? Você prometeu que não iria fazer besteira.

— Nossa, está toda nervosinha, hein. Eu não disse nenhuma mentira.

— Helen tinha vontade de esganá-la. — Desculpe, foi mais forte do que eu!

— Pois trate de manter essa sua língua solta dentro da boca. Agora você vai lá fora e vai pedir desculpas. Ela não é sua inimiga e muito menos minha. Já lhe ocorreu que não pode sair gritando e julgando as pessoas sem antes conhecê-las?

— Você é boazinha demais e eu não tinha pensado por esse lado ainda — ela confessou, mas só para provocar Helen — Você não me disse que ela era tão bonita e amigável. Confesso que fiquei chateada por ela não ser a cascavel, pronta para dar o bote, que imaginei. Então, pensei que se a provocasse, ela baixaria o nível. Acho que posso acabar gostando dessa abusada. Ela deve se sentir muito culpada porque nem sequer gritou comigo — Tati comentou com um sorriso travesso no rosto.

Helen ficou imaginando como é que iria suportar a amiga pelos próximos meses. Ela tinha frequentes oscilações de humor, e com a gravidez, tinha certeza absoluta que iria ficar pior.

— Se recomponha. Vou esperar por você no quarto com ela. — falou, girando a maçaneta — Prometa-me que vai se desculpar por ter gritado com ela.

— Prometo.

Encontrou a irmã de Matheus sentada em sua cama ainda paralisada.

— Qual o problema dela comigo? — Samantha perguntou assim que percebeu a presença da vizinha.

— Quer mesmo saber?

— Com certeza — disse, voltando-se para Helen.

— Dor de cotovelo, hormônios da gravidez e paranoia dela mesmo.

— Ei, Helen, eu estou ouvindo — Tatiana gritou ao sair do banheiro — Samantha, será que pode me desculpar? Quando disse que sou neurótica, não estava brincando.

— Ah, claro que eu posso, mas você vai me prometer que não vai me assustar desse jeito nunca mais — ela falou, exibindo um sorriso amigável — Talvez você até tenha razão em algumas coisas sobre mim, mas se fizer isso na frente do meu irmão, eu juro que nem vou lembrar que você é uma gravida indefesa.

— Minha nossa, ela ainda tem senso de humor em uma hora dessas. Helen, essa sua “ex-quase-cunhada” não existe — Tatiana estendeu a mão para a irmã de Matheus — Então, amigas?

Samantha a fitou por um longo momento. O temperamento de Tatiana era um pouco parecido com o seu, por isso podia entendê-la muito bem, puxou-a para um abraço.

— Graças a Deus, vocês duas estão bem. Ah, como eu temi esse momento. Não se ofenda, Sam. É por que conheço muito bem essa aqui — disse, abraçando a melhor amiga — Ela consegue ser insuportável quando quer.

— Acho que temos que sair daqui e cuidar dos seus convidados! Samantha, ela fala de mim, mas você viu como ela recebe seus convidados? Deixando o maluco do meu cunhado na sala contando histórias escabrosas sobre seus pacientes.

— Ah, então você que é a cunhada do Fernando?

— Euzinha em pessoa.

As três mulheres perceberam que as coisas, nem sempre, vão de acordo com o planejado.