O Tempo Não Apaga
Capítulo 28
Para Helen, se afastar de tudo e todos havia sido uma necessidade. Seus amigos sentiam sua falta, mas ela sabia que era preciso. Usou aquele tempo para colocar a cabeça no lugar, repensar suas escolhas e traçar suas metas para o futuro. O único de quem não se afastara completamente foi Fernando. Após duras tentativas, conseguiu convencer Vinícius a desistir a parar de perturbar Samantha.
Depois de longas conversas com a mulher que havia destruído sua vida, resolveu que havia chegado a hora de passar por cima das diferenças. Todos tomam decisões e se arrependem. Por um lado, ela havia criado um grande problema. Por outro, havia se doado completamente ao irmão e à sobrinha. Se a motivação foi culpa ou amor, não tinha como saber. O que podia fazer era dar a ela uma segunda chance e deixar o que aconteceu no passado. Era hora de focar no futuro. Perdoá-la não seria uma coisa fácil de fazer, mas viver com toda aquela raiva não ajudaria em nada.
Passar um tempo desplugada foi bom. Ela queria estar com Matheus. Todo aquele abismo entre eles a estava matando; o silencio dele parecia não ter fim. Não que ele estivesse realmente calado. Nos últimos meses, foi surpreendida diversas vezes com pequenos bilhetes em lugares inusitados — em sua casa, em seu carro ou até mesmo em seu trabalho — com uma única palavra:
Neoqeav.
Não sabia como ele conseguia aquilo, mas aquecia seu coração a cada vez que encontrava o pequeno papel.
Três meses e nenhum encontro. Estava começando a se desesperar. Parecia que ele havia virado fumaça de repente, mas quando estava prestes a desistir de esperar, um daqueles bilhetes misteriosos aparecia para lhe dar força.
Estava sozinha com seus pensamentos, em sua bancada de trabalho, quando sentiu seu celular vibrar indicando uma nova mensagem. Seu coração saltou em disparada ao ler o nome de Matheus em sua tela.
Helen, o nosso amor é o único que pode diminuir o abismo que nos separa. Não desisti de nós, nem poderia. Então, não desista de quem somos. Eu sei que uma única palavra muda tudo. Tinha tantas dúvidas e a magoei. Agora eu sei. Quero você de volta em minha vida. Sei que o nosso amor pode salvar tudo. Daqui para frente, as coisas serão diferentes. Prometo cuidar do nosso amor. Me perdoa?
Neoqeav
Matheus quebrou o silêncio de meses assim, como se nunca tivesse ido. Sabia que ele estava focado em seguir com sua vida e conquistar algumas coisas que havia perdido ao longo dos anos. Só não achou que demoraria tanto. Releu a mensagem. Perdoá-lo era tão fácil, só que de uma forma boba sentia que ele a estava excluindo de sua vida e aquilo a incomodava.
Entrelaçou as mãos, fechou os olhos e encostou a cabeça na bancada.
Por que estava dificultando a própria vida daquela forma?
O sentimento de rejeição insistia em ficar, mesmo que algumas atitudes dele dissessem o contrário. Lembrou-se do anel de noivado. O tinha perdido em algum momento durante a última semana. Aquilo devia ser um sinal para desistir, mas seu coração insistia em amar Matheus acima de tudo.
Recordou-se do que não contou aos amigos. Em nome da busca de sua paz interior, iria fazer uma viagem sozinha. Só Fernando sabia da sua pequena aventura de apenas uma semana. Estava de malas prontas e seu voo sairia às cinco da tarde. Tinha certeza deque eles entenderiam quando explicasse suas razões. Escolheu Arraial d’Ajuda, uma pequena cidade à beira-mar na Bahia. Parecia um ótimo lugar para recarregar suas energias.
***
Matheus estava irritado com Samantha. A irmã não atendia o celular nem respondia suas mensagens.
— Aconteceu alguma coisa com a Olívia? — ela perguntou, confusa, ao retornar a milésima ligação dele.
— Não. E se tivesse, você provavelmente não saberia. Por que não atende essa porcaria de celular, Sam? Se você não sabe, hoje é o dia da minha viagem.
— Que viagem, Matheus? — ela questionou, fazendo com que ele bufasse impacientemente — Ah, aquela viagem misteriosa. Posso saber o que você está aprontando?
— Fique tranquila, não planejei fugir e deixar minha filha com você — garantiu — Será apenas uma semana e você nem vai sentir a minha falta. Te avisarei para onde estou indo assim que sair da cidade.
— Nossa, que irmão mais misterioso... Tem certeza de que não pode me adiantar nada?
— Sam, pare de falar e venha logo para cá! Tenho menos de uma hora para estar no aeroporto.
A irmã parecia estar acompanhada, mas não conseguia reconhecer a voz. Com certeza, era masculina.
— Chego aí em dez minutos — ela disse e encerrou a chamada.
Matheus estava na sacada do apartamento, com a filha no colo e olhando fixamente para a portaria do prédio quando a viu. Ela usava um vestido longo e florido, óculos de sol e a cabeleira ruiva presa em uma trança. Seu coração acelerou. Ele arriscaria qualquer coisa para amá-la outra vez.
Helen entrou no taxi e se foi.
— A tia Helen vai ser minha mamãe? — A filha o tirou de seus pensamentos.
— Se o papai fizer tudo certo, provavelmente sim — ele respondeu, colocando-a no chão e ajoelhando-se à frente dela — Torça muito, porque nós dois precisamos dela, não é mesmo?
Olívia sacode a cabeça em um sinal afirmativo. A criança sentia falta de Helen. As duas haviam se aproximado bastante antes da confusão acontecer.
A pequena alisou a pequena caixinha de veludo em sua mão. Olhava para ela de forma curiosa, como se não entendesse o motivo de algo tão pequeno criar mudanças tão grandes.
— Esse anel é tão lindo... Ela vai aceitar, papai. Por que você me fez pegar ele emprestado da tia Helen se vai dar para ela de novo? Essa parte eu ainda não entendi.
Matheus sorriu e passou a mão pelo rosto da filha.
— Esse é o nosso pequeno segredo — ele piscou e beijou-lhe a testa — Esse anel é a garantia de que ela aceitará nossa proposta. Onde está o seu desenho? Vamos deixar ela sem meios de dizer não.
— Tá aqui — ela disse e entregou um envelope rosa cheio de glitter com um papel dobrado dentro — Faz tudo direito, papai Do jeito que eu te ensinei. Vi no filme que você tem que dar flores para ela, depois vai se ajoelhar e vai dizer que eu e você precisamos dela — ela disse, apontando o dedinho para o pai e para si — Promete?
— Claro!
Abraçou a filha e agradeceu aos céus por tê-la ao seu lado. O que seria de sua vida sem aquela garotinha cheia de planos mirabolantes?
Um sorriso brincou nos lábios dele. Logo estariam no mesmo voo e Helen não fazia a mínima ideia disso.