O Tempo Não Apaga
Capítulo 23
Tatiana e Helen almoçavam no refeitório do hospital quando Vinicius e Fernando as encontraram.
— Hoje é o dia dos grandes encontros, não me lembro de ter convidado vocês para almoçarem conosco — Tatiana comentou, revirando os olhos.
— Desde quando eu e Fernando precisamos de convites para almoçar no refeitório do hospital? E então, garotas, como vocês passaram os últimos dias? Sei que minha irmã tem andado muito ocupada com o novo integrante da família. Me diga qual é a sensação de saber que tem uma vida sendo gerada dentro de você?
— Nem queira saber, Vini. Nunca pensei que ser mãe daria tanto trabalho, a começar pela sensação de que tenho uma criação de borboletas morando, por tempo indeterminado, no meu estômago. Mas eu aguento! Estou como deveria estar: feliz, apesar dos contratempos.
— Cunhadinha do meu coração — Fernando sentou-se ao lado de Tatiana, passando a mão em sua barriga arredondada —, não vejo a hora de ver a cara desse meu sobrinho. Aposto que ele vai ser corintiano como o tio.
— Negativo, Fernando. Ele será flamenguista como a tia. Nem venha colocar minhocas na cabecinha do meu sobrinho — Helen alfinetou.
— Fala sério, deixem meu pimpolho escolher por qual time idiota vai torcer.
— Apesar de ter certeza de que ele torcerá pelo Corinthians, como o Fernando disse, me recuso a entrar nessa discussão besta. E então, dona Helen, você tem notícias do meu paciente? Depois de um mês o acompanhando, tenho a impressão de que você é a única que sabe o que realmente acontece com ele.
— Foi um mês difícil, confesso. Mas acho que ele está indo bem, ainda um pouco confuso sobre as lacunas não preenchidas. Pelo menos, muitas coisas estão voltando aos poucos. É estranho porque agora ele é uma mistura do cara que eu me apaixonei há dez anos e esse outro impulsivo que me deixa, literalmente, sem ar — revela, se abanando com o cardápio da mesa e arranca risos dos amigos — Confesso que estou até com pena de Samantha. Matheus a está deixando doida com tantas perguntas que ela não consegue responder.
— Fala sério que você sentiu pena daquela vadia nojenta? — Tatiana falou, exaltada — Ela merece arder no mármore do inferno!
— Que violência, cunhada! A moça bem que merece uma segunda chance. Ela fez tudo em nome da família. — Fernando ironizou, imitando a voz de Samantha.
— Que cobrinha venenosa essa nova coleguinha de vocês — Vinicius atiçou — E eu aqui, doido para ser envenenado por ela. Bem que ela merece uma lição pelas coisas que fez com a minha amiga — sugeriu — O que ela fez terá troco. Contem com isso, ou não me chamo Vinicius Pantoja. Deixe comigo, Tati, que essa parte do "arder no mármore do inferno" me encarrego sozinho.
— Parem com isso, pelo amor de Deus. Por mais que eu queira que ela pague por tudo que fez, acho melhor deixarmos isso por conta do destino. Afinal, acredito na lei do “aqui se faz, aqui se paga”. O que é dela está guardado — argumentou. Acreditava piamente no que estava dizendo. Já havia passado pela fase da raiva. No momento, estava na da indiferença. — Além disso, ela já está sofrendo o bastante. Só a distância que temos mantido dela já é o suficiente para que comece a pagar pelos pecados. Ela estava acostumada a viver rodeada de pessoas. Recebia atenção da mesma forma que dava. Atualmente, está restrita a visitar Olivia duas vezes por semana ou quando precisamos dela — Helen explicou.
Não discordava de que aquilo que a cunhada fizera era errado. E estava difícil de perdoar. Seria ainda mais difícil se não fosse grata por tudo que fizera por Matheus e Olívia. Não teria sido necessário caso ela não tivesse feito suas armações. Entendia seus motivos, mas discordava do modo como havia lidado com tudo. Ela foi manipuladora e egoísta. Em momento algum pensou nos outros.
Passou. Helen não estava disposta a perder o sono por causa de Samantha. Cultivar ódio limitava o espaço que tinha para o amor. Não queria mais pensar naquilo.
Contou para os amigos o que pensava sobre ela e a situação. Disse que, apesar do que fizera de ruim, tentou se redimir oferecendo ao irmão o melhor tratamento possível. Isso era verdade. Ela o havia levado aos melhores especialistas do país. Não poupara esforços, nem gastos, no tratamento de Matheus. Com Olívia era a mesma coisa. Cuidava dela como se fosse sua própria filha.
— É pura mentira essa parte de Matheus ter sido tratado pelos melhores médicos do país — Vinicius interrompeu — Eu não me lembro de vê-lo uma única vez no meu consultório antes do acidente que aconteceu há um mês. — Todos riram. Vinicius e seu bom humor descontraíram o tom da conversa.
— Você se acha mesmo, né? O cara publica meia dúzia de artigos científicos, faz parte de uma pesquisa besta sobre doenças neuro-sei-lá-de-que com um dos melhores especialistas do país e já pensa que é o príncipe do pedaço — ridicularizou. Depois, apontou o dedo para Tatiana e depois para o irmão dela — Eu falei sério quando disse que não quero ninguém fazendo nada contra a minha santa cunhada. Espero que me entendam e respeitem minha decisão.
— Por mim, nada será feito à santinha do pau oco — Fernando disse em apoio à ex-mulher — Só que se depender desses dois, a Samantha ainda vai sofrer um bocado.
— Aquela mulherzinha besta não vai se livrar de mim tão fácil. Ninguém pode com uma mulher grávida, neurótica e furiosa.
— No que depender de mim aquela esquentadinha venenosa vai ter o que merece. Isso se eu sobreviver ao envenenamento — Vinicius disse, exibindo um sorriso sarcástico e pegando seu jaleco — A conversa ficou muito interessante, só que o neurologista mais requisitado desse país está se retirando. Uma fila quilométrica de pacientes me aguarda na recepção.
— E eu posso não ser a melhor do país como meu irmão lindão — ela disse, levantando-se e agarrando o braço de Vinicius —, mas nada me impede de ser a enfermeira bambambã desse hospital. Tenho a tarde cheia. Todas as mulheres dessa cidade resolveram ter bebê hoje. Vocês dois, como têm vida mansa, fiquem aí curtindo a cor ridícula do refeitório. Cunhadinho, seu consultório não está funcionando, não é? Tirou férias permanentes, foi?
— Pare de ser invejosa, Tatiana. Sei que, lá no fundo, você queria seu eu. Vá trabalhar e cuide bem do meu sobrinho!
Após mais algumas alfinetadas e piadas, o casal de irmãos se retirou, deixando Helen e Fernando a sós. Ela estava embasbacada com as declarações deles. Não sabia o que fazer com os dois. Eles nem deram chance para que ela contestasse o que haviam sugerido.
Sua vida tinha sofrido uma reviravolta. Ela e Matheus estavam tentando dar continuidade ao namoro esquisito que haviam começado. Tudo corria naturalmente, exceto por ele dar indícios de não lembrar sobre o seu casamento com Fernando. Durante o último mês, apresentou pequenas crises de ciúmes da relação deles. Helen ficou apreensiva, mas não teve coragem de contar o que tinha se passado no período que ele esteve ausente da vida dela.
Passavam a maior parte do tempo livre juntos. Aos poucos, as coisas voltavam ao normal. Ele ainda não tinha voltado ao trabalho. Não estava preparado, nem tinha a cabeça necessária para tal.
— Você pode até enganar esses dois paspalhos — Fernando disse, a tirando de seus pensamentos —, mas a mim você não engana. Por que, de repente, virou a defensora da Sam?
Ela suspirou.
— Honestamente, não a estou defendendo. Só não acho necessário que se vinguem dela. Não quero gastar minha energia com isso. Tenho coisas melhores, e mais importantes, para me preocupar — explicou. Fernando a olhava, desconfiado — Não quero virar Matheus contra a irmã, apesar de tudo que ela fez. Após ter alta, ele leu e releu todas as anotações que tinha feito. Olhou as fotos e assistiu aos vídeos. Ela pode não ter feito as coisas da maneira certa, e como disse, não a perdoarei tão facilmente, mas não irei fazer nada contra ela. Ele, também, está reticente com a irmã. As coisas não são mais como eram. E ela sabe disso. Não sou júri nem juiz. Não posso julgar, nem condenar, uma pessoa. Além do mais, não quero perdê-lo novamente.
Helen não precisava se justificar, porém Fernando sempre esteve ao seu lado. Com certeza ele entenderia suas motivações.
— Entendo você até certo ponto. Sei que a Samantha não é esse monstro que pintamos. Mas por que esse medo de perder o homem da sua vida agora? Sinceramente, não entendo. Ele te ama. Dá para perceber só de olhar a cara de bobo dele quando está perto de você.
— Fernando, não duvido do que ele sente por mim, não duvido que ele continue me amando. Só não posso esquecer o fato de que ele tem algo que sempre quis ter: uma família que o ama. Não posso ser egoísta, assim como ela foi. Sam construiu uma relação sólida com ele e Olívia, mesmo em cima de mentiras. Ele sabe que faltam coisas importantes nessa história. O nosso rompimento sem explicação, por exemplo. Ontem, fiquei preocupada com o teor da nossa conversa. Ele me pediu um tempo para digerir essa loucura e descobrir o que realmente aconteceu para que deixasse sua vida nessa cidade.
— Não se apegue a isso, querida. A Sam não é mais a garotinha idiota de antes. Não acho que ela seria capaz de nada contra vocês. Não uma segunda vez.
— Sei lá, Fernando. Como disse, não farei nada. Para o bem ou para o mal. Ela vem adiando a conversa desde que ele estava no hospital. Usava a recuperação do irmão como desculpa para postergar a revelação. Eu a coloquei contra a parede, e ela concordou em contar a verdade a ele hoje — Helen contou — Confesso que estou com medo de acontecer tudo de novo. Temos nossas diferenças, mas não vale a pena eu ficar nessa guerrinha idiota contra ela.
— Helen, não sei o que te falar. Espero, sinceramente, que ela tenha mudado. Mudando um pouco de assunto, você já contou a ele sobre nós, sobre o nosso casamento? — Fernando quis saber.
— Ainda não tive coragem. Depois da última crise de ciúmes dele, fiquei com medo de falar. Ele ficou com raiva porque viu você sair do meu apartamento. Não estou acostumada a isso — Helen disse. O relacionamento dela com o ex-marido era algo que a fazia bem. Fernando sempre fora um excelente amigo, e o divórcio não mudou isso — Você é meu amigo. Não acho que precise ficar explicando isso o tempo todo.
Helen via mais uma vez Matheus se distanciando dela. Só que dessa vez, estava consciente dos seus sentimentos. Queria entender, e até tentava, mas afastar-se dele sempre esteve fora de cogitação. Principalmente agora, pois tinham a chance de consertar os erros do passado.
— Você já pensou que, talvez, ele precise mesmo desse tempo, Helen? Ele não falou em terminar contigo, ou falou?
— Já pensei mil coisas, Fernando. Ele não falou em terminar.
— Querida, então por que se martirizar por isso? Fique calma, tudo se encaixará perfeitamente. Vamos lá! Coloque aquele sorriso lindo e vamos cuidar na vida porque o tempo urge.
Ela sorriu. Aquele homem sempre foi capaz de qualquer coisa por ela. Apesar de tudo, a amava sem cobrar nada. Sentia isso a cada vez que ele tentava protegê-la. Infelizmente, nunca foi capaz de retribuir o amor dele da forma que merecia. Tudo que tinha a lhe oferecer era amizade. Matheus era quem seu coração havia escolhido.
Fernando levantou-se, sentou-se na cadeira ao lado dela e a abraçou. O calor dos braços dele aliviou a dor dela. Era seu analgésico nessa jornada louca que se tornou a sua vida nos últimos anos. Ele beijou o topo da cabeça dela e passou a mão pelas madeixas ruivas.
Uma paz enorme tomou conta deles. Poderiam ficar abraçados eternamente.
— O que significa isso, Helen? — a voz furiosa de Matheus quebrou o momento de silencio.
Afastaram-se instintivamente, como se tivessem feito algo repugnante. Fenando levantou-se em um pulo e pegou seu jaleco em cima da mesa.
— Desculpe, Matheus. Não é nada do que está pensando — Fernando os defendeu.
— Por que estava agarrando minha mulher, Fernando? — Ele tinha um olhar descontrolado.
— Acalme-se, Matheus, não precisa disso.
— Que diabos vocês acham que estão fazendo? Exijo uma explicação! — Matheus disse, encarando Fernando de forma irada.
— Você está muito nervoso, Matheus. Acho melhor deixarmos essa conversa para depois — ele sugeriu.
Fernando virou-se e deu alguns passos em direção à porta. Porém, seu corpo foi arremessado contra a parede e sentiu um soco encaixar em seu rosto. Tudo aconteceu tão rápido que não teve tempo de reagir.
— Que porra é essa, Matheus? Você, mais do que eu, deveria saber que Helen não é esse tipo de mulher. O que pensa que está fazendo? O que acha que aconteceu durante sua ausência? Que ela se trancou em uma torre a sua espera? — A ira invadiu Fernando e ele perdeu o controle da situação. Sem filtros, despejou tudo que estava entalado, apontando o dedo na cara de Matheus enquanto os seguranças do hospital o seguravam.
— Fernando, por favor, não faça algo que vá se arrepender depois. Se lembre da promessa que me fez. — Helen disse, tentando conter a raiva que via no olhar dele.
— Eu nunca vou quebrá-la, mas ele precisa saber quem ficou ao seu lado, Helen, depois da sacanagem que fizeram com você. Fui eu, Matheus! — Fernando bateu no peito e aproximou-se ainda mais do homem enfurecido a sua frente. Enfrentaria o mundo e quem mais ousasse ferir aquela mulher. — Eu que estive presente nas noites depois que você sumiu. Enxuguei cada lágrima. Fui eu quem correu para esse hospital com ela inconsciente quando ela se dopou de remédios tentando esquecer a dor insuportável que sentia. Então, não banque o macho alfa, porque esse papel não lhe cai bem. Se essa mulher me amasse como ama você, tenha certeza de que eu nunca duvidaria dela como está fazendo agora. No seu lugar, eu iria querer saber o motivo que nos separou e não acreditaria em qualquer baboseira que me vendessem.
Um soco, talvez, tivesse causado dores menores em Matheus. Chocado, encarava Fernando, tanto pela cena que causara no local de trabalho de Helen, como pelas revelações que acabara de ouvir. Aquilo não podia ser verdade. Olhou incrédulo para a mulher que agora havia se colocado entre os dois.
— É verdade isso, Helen? — perguntou com a voz trêmula — Esse cara está falando a verdade?
A pequena plateia que se formara, voltara-se para Helen em busca da resposta à pergunta feita.
— Sim. Esse cara como você diz, é meu ex-marido, meu melhor amigo e confidente. Sinto muito, mas esquecemos de assinar o contrato de exclusividade antes de você me abandonar à beira do altar — Helen falou sarcasticamente. A vontade que tinha era de esmurrar Matheus por toda aquela cena idiota — Por favor, nos dê licença. Não temos mais nada para conversar. Venha, Fernando, vamos dar um jeito nesse seu nariz.
O ex-marido passou o braço ao redor dos ombros dela, numa vã tentativa de defendê-la dos olhares curiosos. Saíram do refeitório, deixando para trás um homem completamente perplexo com as revelações que acabara de ouvir.