O Tempo Não Apaga
Capítulo 13
Matheus estava levando Olivia ao banheiro quando ouviu a porta se abrir e Fernando cumprimentar alguém animadamente. Não pôde deixar de notar a expressão no rosto do casal recém-chegado, que pareciam felizes ao vê-lo como se já o conhecessem. O silencio ficou constrangedor e ele teve quase certeza de que já os viu antes. Olhou para as três pessoas sentadas à sua frente, porém não conseguia se lembrar do nome do rapaz com que conversava há pouco. Começou a ficar nervoso. Droga!
— Fernando, você disse que ia me ensinar a escovar os dentes do jeito certo quando voltasse — sua filha o salvou antes que pudesse entrar em pânico.
— Ah, sim! É verdade. Você já conhece meu irmão Lucas e sua esposa Tatiana?
— Não, mas a tia Helen me falou que ela come demais — a garota disse sussurrando e todos riram.
— Filha, não diga isso — Matheus repreendeu.
— Criança é desse jeito mesmo, Matheus. Como eu disse, esse é meu irmão Lucas e essa é sua esposa, Tatiana.
— Prazer em conhecê-los — disse, estendendo a mão para eles.
Em poucos minutos, sua filha já estava brincando com o casal como se os conhecesse desde sempre. A mulher logo foi atrás de Helen e Samantha, deixando os homens a sós. Conversando com Lucas, teve a sensação de que já se conheciam. Além disso, tinham uma coisa em comum. Eram arquitetos formados pela mesma universidade.
— Então você é arquiteto freelance? — Lucas perguntou, deixando Matheus intrigado. Não se lembrava de ter dito nada sobre sua profissão, mas confiar em sua cabeça nunca foi a melhor opção.
— Exatamente. Na verdade, também ajudo minha irmã na administração da concessionária. Acabei me mudando depois do acidente. E quando me recuperei, achei melhor trabalhar por conta própria.
— Acidente?!- Matheus não havia falado sobre o acidente com Lucas e sim com Fernando, mais que saco! Aquilo estava ficando muito chato.
— Sofri um grave acidente há uns anos. Fiquei em coma por alguns meses. Logo depois, com as dificuldades que tive devido à doença, achei melhor ir devagar do que trabalhar sobre a pressão em um grande escritório.
— Então, você teve estresse pós-traumático? — indagou Lucas.
— Mais ou menos isso. Isso sem falar na perda de memória, que não é nada legal.
— Como assim? Você perdeu a memória? Tipo, apagou tudo da sua vida? — A conversa tinha ficado interessante para Lucas.
— Não foi exatamente tudo, basicamente perdi as coisas mais importantes. — Tinha certeza disso, principalmente depois do que havia descoberto anteriormente — Já contei que morava aqui antes do acidente?
— Não, você mencionou alguma coisa sobre sermos formados pela mesma universidade. Você consegue se lembrar de alguma coisa da cidade? Algum lugar? Alguém em especial?
Aquilo estava ficando muito estranho, pensou Matheus. Parecia que aquelas pessoas sabiam exatamente o que perguntar a ele.
— Da cidade, lembro-me de quase tudo, mas existem lacunas a serem preenchidas. Por mais que tente, infelizmente não consigo me lembrar de ninguém, nem ao menos um nome. Para ser franco, quando decidi voltar esperava que alguém em algum lugar me reconhecesse, só que ainda não aconteceu.
Em parte, Matheus estava falando a verdade, porém não revelaria suas suspeitas a um estranho que acabara de conhecer, apesar de sentir-se a vontade como se fossem velhos amigos.
— E a sua irmã não conhecia ninguém, nenhum amigo? — A pergunta o pegou desprevenido.
— É complicado. Parece que não morávamos juntos na época. Meu pai estava doente e... Não sei, tudo foi muito difícil para ambos, mas aprendemos a lidar com esse problema, ou pelo menos nos enganamos pensando assim -Matheus sorriu tentando aliviar a tensão que tinha tomado conta da sala.
Fernando observava cada movimento, palavra e gesto de Matheus. Procurava algum indício de que pudesse estar mentindo e, felizmente, ele parecia ser sincero.
— Vou pegar as bebidas — Fernando decidiu que estava na hora de mudar os rumos da conversa. — Vocês aceitam alguma coisa?
— Aceito, sim. Fernando, onde está Helen? — Lucas percebeu que havia forçado a conversa além do que deveria.
— Foi terminar de se arrumar. Quer tomar alguma coisa, Matheus?
— Eu?! O quê? — Ele não fazia a mínima ideia do que Fernando havia perguntado. A partir do momento que Lucas perguntou por Helen, todos os seus pensamentos se voltaram para a vizinha. Não a tinha visto ainda e estava ansioso para encontrá-la novamente.
— Bebida, aceita? Refrigerante, cerveja, água?
— Água, por favor.
— Tia Helen — Olivia gritou e correu em direção à vizinha assim que a viu.
Matheus girou a cabeça, o olhar seguindo a filha. Quando viu Helen, teve um impulso de apertá-la em seus braços da mesma maneira que ela fazia com Olivia. O que sentia quando via aquela mulher tinha se tornado uma coisa incontrolável. A ligação entre eles era difícil de explicar com palavras e quando seus olhos se encontraram, foi quase impossível resistir à tentação de tomá-la para si.
— Oi, princesa, você demorou. Achei que você nem viria ao nosso jantar especial — Helen disse, ainda com Olivia nos em seu colo.
— Boa noite, Matheus — a anfitriã disse, sem jeito — Fique à vontade!
— Tudo bem — ele percebeu o nervosismo dela e resolveu não prolongar a conversa.
— E ai, Lucas, como tem passado? — Helen cumprimentou o ex-cunhado.
— Estou ótimo. Já sabe que vou ser pai, não é?
— Ah, claro, parabéns! Nossa, como é que a gente vai fazer para suportar essa sua mulher agora, hein?
— Enfim chegamos a um assunto que precisamos tratar urgentemente — Lucas disse, com um sorriso no rosto.
Todos conversavam animadamente. Quando foram para sala de jantar, Helen evitou olhar para Matheus, por medo que seus olhos lhe traíssem. Por insistência de Olívia, que não parava de colocá-los em situações embaraçosas, acabaram por sentar juntos à mesa de jantar. Ao final da refeição, Tatiana e Samantha foram arrumar a bagunça enquanto Helen preparava a sala para assistirem ao filme. Os rapazes continuaram à mesa, conversando.
— Nós terminamos aqui, Helen. Você escolheu os filmes como eu pedi? Para não perdermos tempo? — Ela fez que não com a cabeça.
— Fernando, faça a pipoca, por favor. — O amigo a olhou desconfiado, mas concordou. — E vocês podem ir decidindo qual filme querem assistir. É só olhar na minha lista. Já podem ir se organizando na sala. Eu prometi à Olivia que a levaria para sua sessão particular, não é mesmo querida? — A garota com certeza não poderia assistir ao mesmo filme dos adultos.
— O papai vai também, não é, tia Helen? — A pergunta a pegou desprevenida. Sentiu seus amigos trocarem olhares maldosos pelas suas costas.
— Claro.
Sob o olhar desconfiado dos outros convidados, Helen seguiu em silencio para o quarto com Matheus e Olívia. O coração dela estava quase saindo pela boca e suas mãos suavam. E se ele lembrasse tudo? Se ele a reconhecesse, o que ela faria? Mas não aconteceu nada estranho quando chegaram ao quarto. Ligou a televisão, colocou o filme, e a garotinha logo se esparramou em sua cama. Foi quando surpreendeu o pai e a vizinha outra vez.
— Vocês vão assistir ao filme da princesa comigo?
— Não, filha. Eu e a Helen iremos assistir ao outro filme com os amigos dela e sua tia Sam, lá na sala.
— Tia, diz para o papai ficar e assistir comigo. E você também.
— Querida, não posso convencer seu pai, mas posso fazer o seguinte: eu fico aqui um pouco e depois vou para sala, tudo bem pra você?
— Tá, mas queria tanto que o meu pai ficasse comigo. Só mais um pouquinho — a garota choramingou.
— Está bem, filha. — Matheus respirou fundo, sentou-se no tapete macio, encostando-se na cama bem ao lado de Helen, e Olivia deitou-se entre eles. Tinha algo naquela mulher que o fazia querer estar por perto, mesmo achando que não deveria.
O filme começou e o coração de Helen batia loucamente por conta da proximidade de Matheus. Ela podia ouvir a respiração descompassada dele. Houve um longo momento de silencio, talvez porque nenhum deles conseguia achar as palavras certas. Até que Olivia adormeceu nos braços de Helen.
— Acho que alguém estava cansada demais para assistir ao filme — Helen finalmente quebrou o silencio — Acho melhor a colocarmos na cama.
— Ela não está acostumada a dormir tão tarde. Já são nove e meia. Nesse horário, geralmente, está dormindo — Matheus disse, ajoelhando-se para tocar o rosto da filha — Pelo menos poderemos assistir ao outro filme. — Ele riu.
Matheus ajudou Helen a levantar-se e colocar a filha na cama.
— Ela é muito linda, Matheus — Helen disse cobrindo a garota e diminuindo a temperatura do ar condicionado.
— Obrigado. — Ele percebeu que não sabia muito sobre a vizinha. — Você gosta mesmo dela, não é?
— Ah, sim. É que não tenho contato com crianças da idade de Olivia com frequência. O meu sobrinho é da idade dela, mas mora em Portugal e não o conheço pessoalmente. E a sua filha é tão linda e inteligente...
— E ela já te promoveu à tia — Matheus fez um gesto engraçado — É muita responsabilidade, viu?
Eles riram juntos.
— Então, você tem irmãos? — ele quis saber.
— Na verdade, tenho uma irmã. — era estranho ter que responder as mesmas perguntas que ele havia feito anos antes — Como disse, ela mora em Portugal.
— Samantha me disse que você é biomédica. Sempre quis saber o que vocês fazem realmente, pode me contar?
— Ah, claro. — A conversa se tornou leve, eles haviam sentado no tapete novamente, mas não assistiam ao filme, Matheus queria conhecê-la melhor, além dos beijos e do fogo que os consumiam quando se tocavam. Helen se dispôs a responder suas perguntas. Era bom tê-lo por perto, apesar das circunstâncias.
— Então, se a relação entre você e Fernando era legal, por que se separaram? — ele perguntou após ouvi-la contar sobre seu casamento.
— Ah... — ela suspirou, não poderia dizer o motivo real — Como ele mesmo diz, foi “incompatibilidade de gênio”. — Matheus sorriu — É sério, Fernando diz isso para todo mundo. E você? Até agora só quis saber sobre mim e não disse nada sobre sua vida— era bom conversar com ele, porque sentia que podia, de certa forma, lhe dizer tudo.
— A minha vida não é tão agitada quanto a sua. Contei a você que tenho um tipo de amnesia? — Por alguma razão desconhecida, Matheus queria que ela soubesse tudo sobre ele.
— Não, você me falou sobre um acidente. — Era extremamente difícil agir como se não soubesse muita coisa sobre ele — Pensando bem, acho que talvez tenha mencionado algo sobre perder a memória.
— Pois é. Minha vida é muito chata comparando com a sua. Eu nunca fui casado, sou arquiteto e não exerço a profissão em tempo integral, adoro fotografar, talvez em algum momento da minha vida eu tenha sido profissional — ele tencionou o corpo lembrando-se da tarde anterior —, só tive uma namorada, que eu me lembre, e ela é a mãe da minha filha. Nada de especial.
— Quer dizer que sua vida toda se resume a isso?
— Eu avisei que não era interessante como a sua. — Estava na hora de fazer aquela perguntinha inevitável. — Mas você não tem namorado? Noivo? Ou alguma coisa parecida? — Ele diz referindo-se ao anel em seu dedo.
— Não.
— Você usa esse anel enorme aí. Só quer confundir as pessoas, acertei?
— Talvez. — O sorriso dela reacendeu as chamas no corpo dele. — Acho que você já me perguntou uma vez sobre isso.
— E eu esqueci. — Ele exibiu um sorriso torto, e triste, imergindo-a em um mar de sentimentos conflituosos. — Pode responder a minha pergunta de novo? Prometo que vai ser a última vez — ele disse e abriu o bloco de notas no seu celular. Digitou: Por que Helen usa um anel enorme no dedo.
— Vai mesmo anotar isso? — perguntou, encarando a tela do celular e encostando o braço no dele com a proximidade — Não estou noiva. Aquilo é só um anel — mentiu e sentiu um aperto no peito ao dizer isso
— Quer mesmo que eu acredite nisso? — Os dedos ágeis digitaram: Ela diz que é só um anel (mas eu não acreditei). Então fingiu esconder o aparelho dela.
— Poxa vida, me dê algum crédito — Ele digitou logo abaixo: Talvez eu deva acreditar! A mulher encarou a televisão, com medo de que seus olhos lhe traíssem, e mudou o foco da conversa — E você? Não tem namorada?
— Eu? — Matheus a encarou e riu. — Talvez eu não seja um bom rapaz. — Foi a vez de ela rir — É verdade. As mulheres geralmente fogem de mim quando percebem que eu nunca vou me lembrar do dia em que nos conhecemos, da roupa que ela estava usando em certa ocasião, qual a sua cor preferida...
Parte, daquilo era mesmo verdade, mas ele gostava de vê-la sorrir.
— Isso é bobagem — Helen disse e tocou o pingente involuntariamente.
Ele encarou a mão dela, a joia em forma de coração era muito delicada.
— Também é só um pingente qualquer? — Matheus aponta, sem reconhecer.
— O quê? — Seguiu olhar dele para sua mão e seu coração congelou. — Ah, o pingente? Não, é uma lembrança muito boa.
Não é um pingente qualquer, é uma lembrança muito boa! Ele digitou no celular a fazendo rir.
— Engraçado — Matheus comentou, guardando o celular no bolso — Isso é exatamente o tipo de coisa que eu daria para alguém importante para mim.
— É mesmo? — ela questiona, embaraçada.
— Sim — o antigo noivo responde com o olhar perdido em alguma coisa atrás dela — Você gosta muito de fotos — disse, indicando os porta-retratos espalhados pelo cômodo — Eu adoro fotografar e com a minha doença isso acabou sendo muito útil, pois me ajuda a lembrar do rosto das pessoas.
— Que legal. — Helen respirou fundo para aliviar a tensão. Essa foi por pouco.
— Qualquer dia desses, mostro para você.
— Eu vou adorar — Foi sincera.
— É mesmo? Mas você me deixaria fotografá-la? — Matheus tirou uma mexa ruiva, e teimosa, que caía sobre os olhos dela.
— Cla... Claro — Fazê-la perder a fala era a nova habilidade dele.
— É que costumo esquecer o nome e o rosto das pessoas se eu não as vejo com frequência. Acho que não seria legal se não me recordasse de você. Volta e meia esqueço seu nome. — O olhar dele se iluminou por um momento e ele tirou o celular do bolso mais uma vez. — Vamos resolver esse problema. — O flash do celular disparou, a pegando desprevenida. — Pronto, não tenho mais desculpas para esquecer o seu nome. Ficou perfeita!
— Enfim, acho que já podemos ir assistir ao outro filme. — Devido ao rumo da conversa, ela achou melhor recuar.
— Você tem certeza? — O homem a prendeu em um olhar intenso — Tem certeza de que quer ir?
Ele acariciou a mão dela. Estava tenso, não queria ir rápido demais como nas outras vezes. Para ser sincero, queria ser capaz de parar o tempo, mas parecia impossível. Sentia-se tomado por um turbilhão de emoções controversas. Seu coração parecia querer saltar do peito quando ela, entregue a magia do momento, tocou seu rosto contornando a cicatriz atrás de sua orelha. Um arrepio percorreu seu corpo e,de uma maneira estranha, sentiu que ela lhe pertencia.
Aquele olhar fez todo o seu corpo estremecer; a sensação foi maravilhosa.
Suavemente seus lábios se encontraram em um beijo, entrando na mesma sintonia. Aquela mulher parecia ser uma extensão dele.
Matheus não se lembrava de ter se sentido tão completo quanto naquele momento. O aroma doce dela se misturando ao dele, os pequenos gestos que o deixavam completamente imerso em todas as emoções que sentia. Intensificou o beijo. Não era algo que podia controlar, pois tê-la em seus braços fazia com que ele perdesse completamente a capacidade de raciocinar. A queria cada vez mais, e nada parecia ser o suficiente para preencher o vazio que sentiria quando a soltasse.