O Tempo Não Apaga

Crys Carvalho · Capítulo 26 de 32

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O Tempo Não Apaga

Capítulo 25

 

Sete anos antes...

 

Helen estava sem palavras diante das imagens que o delegado responsável pelo caso do desaparecimento de Matheus acabara de lhe mostrar. Seu noivo aparecia nas gravações de câmeras de segurança, durante a semana que antecedeu seu sumiço, discutindo calorosamente com uma mulher desconhecida.

Suas pernas fraquejaram e o olhar de pena do homem a sua frente não ajudava em nada.

Matheus não podia ter feito aquilo com ela!

— Você é nova, garota — O delegado disse, em um tom sério e condescendente, encarando Helen — Vai ficar correndo atrás de um homem que fugiu das suas obrigações? Se ele quisesse ser encontrado, já poderia muito bem ter te ligado. Tenho mais o que fazer do que ficar me metendo em briga besta de casal!

As palavras do homem e aquelas imagens a perturbaram por muitas noites. Não teve coragem de contar para Tatiana. Era vergonhoso que tivesse se enganado tanto com ele.

Não quis que as pessoas soubessem que havia sido trocada por outra mulher às vésperas do casamento. Achou melhor que pensassem que apenas tinha sido deixada por qualquer motivo banal.

Aquela dor foi crescendo e dilacerando sua alma dia após dia.

Matheus te trocou por outra!

Matheus nunca amou você!

Você nunca vai achá-lo!

Aquela voz irritante e debochada dentro de sua cabeça aumentava o repertório na mesma velocidade em que a dor crescia em seu peito.Ela não tinha mais forças para lutar contra o abismo que se abria sob os seus pés. Os antidepressivos receitados não diminuíam sua dor, não o trariam de volta.

— Não vale a pena viver — ela dizia, desolada a Fernando. Ele foi o único de quem não conseguiu esconder as recentes descobertas. Ele afagava suas costas e tentava achar um meio de tirá-la da areia movediça que ameaçava envolvê-la por inteiro — O que você ainda faz aqui? Deveria ir. Há tantas garotas boas aí fora... Me deixe aqui sozinha e vá procurar alguém que valha a pena.

— Sabe que não posso fazer isso — o amigo disse, puxando-a para si e não dando espaço para ela se sentir mais só do que já estava — Helen, me prometa que não vai fazer nenhuma besteira. Sua vida vale mais do que isso.

— Não consigo. — As lágrimas não caíam mais. A única coisa que restara foi uma angústia infinita. — Vá embora, é o melhor que tem a fazer.

— Não vou a lugar algum. Dei minha palavra a seus pais que ficaria ao seu lado — a dor na voz dele era quase palpável — Não vou te incomodar.

Helen foi tomar banho enquanto Fernando lutava contra o sono. Deitado no sofá da sala da casa dos pais da amiga, que haviam viajado para ver a filha mais velha, sentiu um aperto no peito. Algo estava errado. A demora dela começou a incomodá-lo. Foi até a porta do banheiro e bateu duas vezes. Chamou por ela e obteve resposta. Apenas escutava a água do chuveiro caindo no chão.

Sem pensar duas vezes, arrebentou a porta e a encontrou desacordada. O frasco de antidepressivo na mão.

— Helen, fale comigo, por favor — implorou. Tentava reanimá-la, mas não teve êxito.

Não, não, não... Ela não pode ter feito isso comigo!

— Alô, aqui é o doutor Fernando. Preciso de uma ambulância — por mais que estivesse acostumado a esse tipo de situação, nunca era fácil ver alguém naquele estado. Principalmente aquela garota que não o deixava raciocinar direito. Manteve a calma e ditou o endereço com precisão. Afinal, era um médico. Sabia como lidar com isso. Por dentro, entretanto, estava apavorado.

Fernando controlou o desespero durante o percurso até o hospital. Dentro da ambulância, ajudou os paramédicos a mantê-la estabilizada.

— Por favor, Dr. Fernando, o senhor precisa ficar aqui. Conhece as regras. Nós cuidaremos bem dela — uma das enfermeiras assegurou enquanto a levava para a sala de procedimentos.

Quando o médico plantonista, um conhecido de Fernando, saiu da sala, informou que havia feito uma lavagem estomacal e a medicado. Pouco tempo depois, foi autorizado a vê-la.

Deitada em uma cama conectada a vários fios, não parecia a Helen por quem estava apaixonado. Aquela era uma mulher frágil. Mais frágil do que quando consciente.

— Oi — ele disse assim que ela abriu os olhos na manhã seguinte — Como se sente?

A garota escondeu o rosto entre as mãos, nitidamente envergonhada pelo que fizera. As lágrimas rolavam pelo rosto delicado.

— Ei, não chore — Fernando a consolou — Está tudo bem!

— Não está tudo bem, eu tentei... — ela não conseguia pronunciar a palavra.

— Shhh — Fernando estava sentado na cama ao lado dela, acariciando seus cabelos e sussurrando palavras de consolo — Não precisa dizer. Só me prometa que nunca mais fará isso. Não posso te perder, Helen!

— Não conte para os meus pais. Eles vão morrer de desgosto se souberem — suplicou, tomada pela vergonha.

— Tudo bem, será mais um dos nossos segredos. Só me garanta que nunca mais fará isso.

— Obrigada. Prometo que nunca mais farei uma bobagem dessas — ela disse, com os olhos cheios de lágrimas — Posso te pedir uma coisa?

— O que você quiser.

— Não me deixe. Nunca mais. Prometa que não se afastará de mim.

Para Helen, aquele era seu momento de maior vulnerabilidade, e Fernando estava ali, ao seu lado, ajudando quando mais precisou.

O brilho dos olhos dele se intensificou. Segurou o rosto dela entre as mãos, fitando-a intensamente.

— Achei que ia perder você. Tem noção do que eu senti? Foi desesperador pensar que eu não te diria o que tenho guardado aqui no meu peito — ele sussurrou, sua voz carregada de emoção — Eu te amo, Helen. Prometo nunca me afastar de você. Prometo nunca te machucar. Prometo tirar do seu caminho tudo aquilo que te causar dor. Prometo, acima de tudo, ser fiel ao que sinto por você.

Helen se agarrou a ele, que a apertou contra o próprio peito e beijou-lhe a pele macia do rosto.

— Não mereço alguém como você. — Uma lágrima solitária correu no rosto dela.

— Merece mais, muito mais — ele disse, olhando no fundo dos olhos dela como se pudesse, de alguma forma, decifrar sua alma — Quero que saiba que não costumo quebrar minhas promessas. Não estou prometendo que a farei feliz para sempre, mas darei o meu melhor para deixar seus dias mais alegres.

Seus lábios se encontraram timidamente, selando uma promessa que nunca quebrariam.

***

Dias atuais...

 

Os cinco amigos se entreolhavam sem dizer uma palavra sequer. Foi estranho não saberem o que dizer naquele momento.

Fernando tinha a sensação de que havia estragado tudo que vinha construindo ao longo dos últimos anos. Conviver com Helen sem tê-la foi uma condição imposta por ele para não se afastar dela. Jurou que não perderia o controle, por maior que fosse a dor em seu peito, mas agora todos tinham certeza de que ainda era apaixonado pela amiga. Havia deixado de ser apenas uma especulação.

Tatiana e Lucas sabiam sobre os sentimentos dele pela ex-mulher, só não achavam que o veriam brigar como um leão por ela, escancarando sem pudor o que sentia.

Helen aceitou a aproximação dele porque lhe fazia bem tê-lo por perto.

Ao contrário do que sentia por Matheus, estar com Fernando trazia uma calmaria a sua vida. Não havia aquela tensão, aquela tempestade de sentimentos. E, ao longo do tempo em que estiveram juntos, descobriu que gostava de tudo que ele proporcionava a ela.

Vinícius ficou surpreso com o rompante do amigo, pois o autocontrole dele sempre foi admirável. Imaginava como estava se sentindo naquele momento. Provavelmente, estaria se punindo mentalmente pelas palavras cuspidas no momento de descontrole.

— Então, Fernando, nessa sua casa não tem algo comestível? — Tatiana resolveu quebrar o silencio constrangedor que os tomava.

Aquela seria uma noite de comemoração pela volta de Vinicius. Depois dos últimos acontecimentos que bagunçara a ordem da vida deles, não houve tempo para que se juntassem. Como tudo parecia entrar nos eixos, resolveram marcar logo, mas deu tudo errado.

— Se você contar barra de cereal como uma coisa comestível, tem uma caixa dentro do armário.

— Como é que a pessoa assume a responsabilidade de nos trazer para a casa dele e não se dá o trabalho de fazer algo para comer? Nem abasteceu a despensa! — a grávida exclamou — O jeito é pedir pizza, gente. Enquanto ela não chega, me contento com uma barra de cereal mesmo.

Tatiana arrancava mordidas da tal barrinha. Sua fome de grávida, atualmente, estava fora de controle.

— Cuidado com essas barrinhas, amor. Se conheço meu irmão, podem estar presas ai desde o século passado— Lucas tentou fazer os amigos sorrirem.

— Pessoal, sinto muito. A nossa festinha está muito legal, animada demais... Tanto que já tirei uns dois cochilos. Só que tenho um compromisso inadiável com o diretor do hospital. Desculpem-me.

— Pode ir, seu vira-casaca, nós entendemos que é o médico estrela. Depois não reclama que não gostamos de você, viu maninho?

Com a saída de Vinicius, Tatiana tomou uma atitude inesperada.

— Quer saber de uma coisa? Acho que você dois precisam conversar — Tatiana afirmou, puxando o marido do sofá — Portanto, comerei a minha deliciosa pizza de frango com catupiry no conforto da minha casa e com o meu maridão de companhia.

— Concordo com a minha mulher, acho que precisam mesmo conversar. Boa noite e juízo, crianças.

A porta se fechou e o silencio constrangedor ainda pairava sobre eles. Fernando sentou-se na mesa de centro, à frente da mulher, e encarou os pés.

— Helen, preciso te pedir desculpas. Depois daquela cena no hospital... — ele sacudiu a cabeça, nitidamente desapontado consigo mesmo — Sei que prometi a você e me perdoe por expor a sua vida na frente de tantas pessoas. Não queria fazer aquilo, mas as atitudes do Matheus me fizeram perder o resto de sanidade que tinha.

— Ah, Fernando! Entendo o que sentiu. Você só fez aquilo que não tive coragem de fazer — disse, encarando o quadro atrás dele — Conheço você, o tipo de pessoa que é, e sei que não faria isso para ficar bem comigo.

— É claro que me conhece! Sempre soube disso. Helen, preciso dizer isso olhando em seus olhos — ele falou, sua voz cheia de emoção. Tocava gentilmente o rosto dela, forçando-a a encará-lo — Nós dois sabemos das promessas que fizemos um ao outro ao longo desse longo caminho que percorremos, mas preciso dizer isso em voz alta, para que eu entenda que você sempre esteve aqui — ele pousou aponta o próprio peito — Juro que tentei te esquecer, mas não podia ficar longe. Eu disse que cumpriria minhas promessas e preciso estar perto de você para me sentir vivo. Por fim, resolvi ignorar meus sentimentos. Talvez eu seja apaixonado pela ideia de amar a única mulher que nunca pude ter realmente, talvez não. O fato é que continuo te amando com a mesma intensidade de quando me apaixonei por você. E hoje, quando vi outra vez aquela garota perdida que conheci em uma noite quente de verão, ficou impossível não me envolver.

— Esse é realmente um assunto que temos tentado evitar há muito tempo — ela concordou — Estou muito confusa, Fernando. Amo o Matheus, mas estou cansada de viver nesse vai e vem de sentimentos. Deixei de viver no momento em que ele sumiu. Nós dois somos os únicos que sabemos porque nunca fui atrás dele todos esses anos. Por mais que saibamos, hoje, quem era aquela mulher nas gravações, também sabemos que a culpa não foi realmente dele, e sim uma obra do destino ou sei lá o que — ela explicou. No fundo, continuava a culpar Samantha pelo que fizera — Agora, depois de termos a oportunidade de consertar os velhos erros, alguma coisa me diz que falhamos novamente. E você chegou à minha vida em um momento tão conturbado. Me salvou do meu próprio abismo... Nosso casamento foi um fracasso por minha culpa.

— Helen, quando nos casamos, eu sabia exatamente onde estava me metendo. Sabia que não seria fácil, mas me arrisquei e entrei de cabeça. Talvez um dia você superasse sua dor, então estaria ao seu lado. E tivemos nossos momentos. Hoje, não espero nada em troca. Seria burrice da minha parte.

— Você como sempre tão altruísta, e eu tão burra— eles riram de seus infortúnios — Aquela cena no hospital me fez pôr em questão muita coisa na minha vida. E a mais intrigante delas foi a de que não quero passar a vida inteira provando o que sinto por Matheus e o perdendo a cada esquina. Agora que está consciente, achei que seria mais fácil. Só que as coisas ficaram complicadas. Ele vive em uma constante busca por algo que talvez nunca encontre, e não sei se quero isso para mim.

— Nossa, você é um verdadeiro enigma. Quando penso que está na hora desistir, você chega e me fala isso. Querida, assim fica extremamente difícil me afastar.

Fernando a queria mais do que nunca, afinal, nunca a teve realmente. Ela sempre esteve ausente, sempre houve o fantasma do ex-noivo pairando sobre eles. Nunca haviam conversado abertamente sobre esse assunto.

Quem sabe aquele não pudesse ser o início de uma segunda chance?