O Tempo Não Apaga
Capítulo 5
Helen passou o dia pensando no beijo. Chegou cedo do trabalho, tentou assistir um filme, mas não conseguiu. Então, resolveu caminhar um pouco no parque e acabou encontrando a irmã de Matheus.
— Oi, como vão as coisas? — Samantha perguntou, erguendo a sobrinha no colo.
— Ainda estou confusa com tanta informação na minha cabeça, mas está tudo bem. E vocês, como vão? — disse, referindo-se a ela e à sobrinha.
— Eu estou ótima, mas a Olivia está resfriada, mas não é nada grave. — Colocou a sobrinha no chão novamente. — Nossa, isso aqui é lindo — disse, apreciando a vista — Nada melhor que ar puro, hein?
— Verdade. Eu costumo vir caminhar aqui no fim da tarde. O bom é que nunca está cheio demais — ela voltou-se para a garotinha — E você tá gostando do parque Olivia?
— Tô, aqui é legal. Só lá em casa que é chato — resmungou a menina.
Helen riu.
— Mas por quê? Você não tem coleguinhas lá no prédio?
— Tenho, mas elas são todas maiores do que eu e não querem brincar comigo.
— Acho que conheço uma garota do seu tamanho que mora aqui perto. Que tal se eu levar você para brincar com ela um dia?
— É mesmo? Você deixa tia Sam?
— Claro que sim!
A garotinha exibiu um sorriso tímido para Helen, sua mais nova colega.
— Vou ligar para a mãe dela e depois confirmo com sua tia, combinado?
Olivia balançou a cabeça afirmativamente e começou a correr atrás de uma borboleta.
— Não vá muito longe, querida — Samantha disse virando-se para a vizinha — Acho que precisamos conversar sobre uma coisa.
— Também acho. Eu confesso que estou curiosa sobre... Sobre seu irmão, como ele está?
— Matheus está bem, só um pouco agitado nos últimos dias, ele tem dificuldades com a mudança de hábitos — disse, tentando parecer natural.
— O vi hoje. No elevador. Ele não conseguiu se lembrar do meu nome. — Não confiava naquela mulher o bastante para falar sobre o beijo.
— Pois é, eu sei. É melhor se acostumar com isso porque vai acontecer com mais frequência do que imagina.
— Nossa, é muito estranho. Achei que essas coisas só acontecessem em filmes!
— Bem-vinda à vida real! — Ela exibiu um sorriso sem graça. — Mas não é exatamente sobre isso que queria falar. Será que pode me contar um pouco sobre a história de vocês, sobre a vida dele antes do acidente?
A pergunta a pegou desprevenida.
— Não sei, Samantha. — Sempre foi muito difícil falar sobre esse momento de sua vida. — Não gosto muito de falar sobre isso.
— Desculpe, mas é que preciso saber mais sobre a vida dele e o que aconteceu entre vocês dois.
— E por que não fez isso antes? — A pergunta foi inevitável.
— Achei que não fosse necessário, confesso que foi egoísmo da minha parte — ela disse, constrangida. Ao menos estava sendo sincera, pensou Helen — Agora sei o quanto estive errada. Por favor, me diga. Preciso saber — ela suplicou.
— Tudo bem — Helen assentiu.
Por causa da dor que seguiu o abandono, Helen tentava esquecer tudo aquilo. Havia dado um fim em boa parte do que trazia lembranças dele, sobrando apenas as pequenas coisas das quais não conseguia se livrar facilmente.
As fotos e aquela droga de pingente. E havia também o anel no fundo de sua gaveta.
Mas já que teria que se torturar contando a história deles para Samantha, que fosse da maneira correta. Voltou sete anos no tempo, para época em que seus dias pareciam tão perfeitos que ela chegava a duvidar; quando podia, todos os dias, ouvir o homem de sua vida dizer que a amava e quando isso não exigia que ele se lembrasse dela. Fechou os olhos e, de repente, tudo tinha voltado ao normal.
***
Haviam se conhecido no trabalho de Helen, que na época era atendente de laboratório. Quando seus olhos se encontraram, ela teve a certeza de que aquele era um momento especial. Ainda não sabia o quanto. Aqueles olhos a cativaram de tal forma que ela soube, imediatamente, que não os esqueceria jamais.
Por coincidência, ele morava na mesma república que o namorado de sua melhor amiga e só precisaram do primeiro encontro para saber o quanto eram perfeitos juntos.
Ele era órfão, sua mãe morreu quando ele tinha quinze anos, e não conheceu o pai. Após o falecimento dela, Matheus decidiu ir para São Felipe, onde conseguiu passar no vestibular para arquitetura em uma das melhores faculdades do estado e acabou morando na república para estudantes.
Quando a conheceu, estava no quarto ano do curso e tinha conseguido um estágio em uma construtora, o que o levou a Helen aquela manhã.
Ela morava com os pais e sua irmã mais velha. Estava com quase dezoito anos e trabalhava no laboratório. Semanas antes de Matheus aparecer no seu trabalho e mudar sua vida para sempre, ela tinha passado no vestibular para biomedicina. Se apaixonar foi uma das melhores coisas que aconteceu em sua vida.
Após a formatura, Matheus ganhou uma promoção na empresa que trabalhava. Depois de dois anos de namoro, achou que estava na hora de eles oficializarem o relacionamento, afinal, Helen era a pessoa com quem queria passar o resto de sua vida. Já tinha seu apartamento e nada os impedia de se casarem.
Então, a surpreendeu com o pedido de casamento.
Em um ano se casariam. Marcaram a data, começaram a arrumar os preparativos para a festa e a adaptar o apartamento para ambos. Tudo corria muito bem, mas três meses antes do casamento, ele simplesmente desapareceu e Helen teve que cuidar de tudo que já tinham agendado: salão da festa, bufê, decorador, vestido. Tudo isso lhe doeu bastante, só que o sumiço dele machucou muito mais. Tudo levava a crer que havia se arrependido e fugido do compromisso.
Naquele dia, havia deixado um recado estranho na caixa postal dela, avisando que precisava fazer uma viagem urgente para resolver uns problemas e assim que chegasse ao destino, ligaria e explicaria tudo. Só que a ligação não aconteceu. Seu telefone estava sempre fora de área. Passaram-se um, dois, cinco, dez, vinte dias, um mês e nenhuma notícia dele.
Helen ficou arrasada, repassava tudo em sua mente e não encontrava o motivo para aquilo ter acontecido. Por que ele faria aquilo com os sentimentos dela? De uma hora para outra, abandonou tudo que conquistou com esforço e sumiu. Helen decidiu que não iria procurá-lo; talvez isso só piorasse as coisas e se machucaria mais. Decidiu esquecê-lo, por mais que doesse. Essa era a decisão mais sensata.
Só que isso a levou a uma terrível depressão. Não saía de casa, abandonou o emprego, trancou a faculdade, não comia direito e atentou contra a própria vida algumas vezes. Seus pais e sua irmã já não sabiam o que fazer. Ela ignorava até a melhor amiga, não cuidava nem de si mesma.
Após semanas de muita insistência, Tatiana conseguiu convencê-la a sair de casa, conhecer gente nova, fazer algo que ocupasse a sua mente. Até mesmo conseguiu que retomasse o curso e foi a principal responsável por conhecer Fernando.
O ex-marido ganhou cada vez mais espaço em sua vida e foi o grande responsável por sua recuperação. Por fim, soube que jamais amaria alguém que não fosse Matheus.