O Tempo Não Apaga
Capítulo 14
Uma força maior que ele o atraia para aquela mulher! Essa foi a única explicação que Matheus encontrou capaz de justificar o fato de querer beijar Helen todas as vezes que ela se aproximava dele. E no momento que suas bocas se tocavam, era como se a conhecesse desde sempre. Gostava daquela sensação de que a mulher lhe pertencia. Teria sido assim com a garota do desenho?
Estava deitado em sua cama, olhando para o teto e pensando no que tinha se passado nos últimos dias entre ele e a vizinha. E a comparação entre as duas mulheres parecia inevitável, alguma coisa no olhar de Helen o fazia lembrar-se da outra garota e sentia-se desconfortável por isso.
Foram interrompidos por Olivia que acordou chorando. O filme acabou sem que eles percebessem, então, se juntaram aos outros que, aparentemente, não perceberam nada. Quando o outro filme acabou, todos estavam exaustos. A noite foi muito agradável. Aquelas pessoas realmente sabiam como se divertir, mas Matheus tinha a estranha sensação de que escondiam algo pela maneira cautelosa como o trataram em determinados momentos. Talvez fosse apenas paranoia de sua cabeça.
Samantha abriu a porta do seu quarto.
— Oi, posso entrar?
— Pode sim — ele disse, voltando a realidade.
— Você também não está conseguindo dormir?
— Não. Acho que estou precisando conversar com alguém, mas e você? Porque está acordada até essa hora?
— Fiquei preocupada, pensando em trabalho e outras coisas mais. Então, você quer conversar? Prometo que serei uma boa ouvinte.
— Quinta pela manhã, quando voltei da escola de Olivia, o porteiro me entregou isso — Matheus disse, sentando-se na cama e tirando um envelope do criado mudo — Confesso que o conteúdo me deixou um tanto intrigado.
Samantha abriu o envelope com uma surpresa fingida que não passou despercebida por Matheus.
— Sam, está tudo bem?
— Hãn? Sim, está tudo bem. — Ela sentou-se ao lado dele.
— Você sabe alguma coisa sobre isso?
— Eu?! Não. — Samantha respondeu, encarando os pés - Quem lhe enviou isso?
— Não sei, pode ter sido até mesmo essa mulher. O fato é que... Sei lá, isso mexeu com a minha cabeça. Eu resolvi ir ao meu antigo apartamento. — Sua irmã ficou tensa novamente — E confirmei a minha suspeita sobre o passado. Algo que, talvez, no fundo sempre soubesse. Eu amei uma mulher. Não, provavelmente ainda ame essa mulher. E parecia ser tão intenso e real.
— Como você pode ter tanta certeza? — Ela estava feliz por ele finalmente descobrir uma coisa concreta sobre si mesmo, mas não pôde evitar o nervosismo que a tomou. Teve a mesma sensação quando esteve lá. Tudo naquele lugar escancarava o amor que o irmão sentia por Helen. Escondeu boa parte das coisas e, como sabia que ele provavelmente nunca iria lá, não se preocupou em guardar tudo, talvez tivesse sido um erro.
— Tenho a impressão de que você não ficou surpresa. Você sabia disso, não é mesmo? Por que escondeu isso de mim? Sabe que não tinha esse direito. É a minha vida. — Ele estava com a voz alterada, pois tinha certeza de que ela sabia alguma coisa. Como pode enganá-lo por tanto tempo?
— Eu já te falei tudo que sabia — ela desconversou.
— Não minta para mim, Sam. Esteve no meu apartamento, viu tudo aquilo e preferiu não me contar. Por favor, eu odeio quando você faz isso — Matheus a forçou olhar para ele. — Preciso de respostas e algo me diz que você as tem.
— Matheus, sabe que não mentiria para você. Eu não tenho as respostas que procura. Sim, vi o quadro e não sabia quem era aquela mulher. Não fazia ideia de onde a procurar e eu mal o conhecia — dizer meias verdades a ele nunca doeu tanto, mas não estava preparada para falar a verdade naquele momento.
— Sabe, Sam, às vezes tenho a impressão de que não estava realmente indo embora dessa cidade. Alguma coisa nessa sua história não encaixa, sempre achei isso. E depois de ter visitado o apartamento, só confirmei minhas suspeitas. Responda-me, por que eu iria embora amando alguém com tanta paixão? O que realmente aconteceu?
Ela estava assustada com a enxurrada de perguntas do irmão, mas não podia respondê-las. A verdade é que não sabia como fazer isso, escolher as palavras e contar o que realmente aconteceu.
— Lamento, mas não posso te responder, não tenho suas respostas — mentir para ele dilacerava seu coração, mas sentia que aquele não era o momento de Matheus ficar frente a frente com o seu passado. O irmão nunca a perdoaria, e essa possibilidade fazia seu peito doer. Poderia ter uma crise nervosa, devido ao seu estado emocional, e começaria tudo novamente. — Você ainda não respondeu a minha pergunta. Como pode ter tanta certeza do que está falando?
Matheus sabia que a irmã nunca faria algo para magoá-lo. Sua alteração de humor estava mais relacionada ao fato de estar se culpando por não conseguir se lembrar de nada sobre sua vida naquela maldita cidade. Precisava controlar suas frustrações. Droga! Suas mãos começaram a tremer. Manter o controle, às vezes, era muito difícil.
— Você esteve lá, viu aquele quadro. O sentimento é quase palpável. O meu olhar, a maneira como minhas mãos seguravam a cintura dela, e tem aquele anel. Mesmo sem lembrar, sei que não o daria a uma mulher a menos que a quisesse ao meu lado por toda vida. Fiquei curioso. E continuo achando que você sabe de alguma coisa, talvez só não esteja preparada para me contar, mas tudo bem.
— Me perdoe por nunca mencionar o quadro. Tive medo. — Samantha sabia que, quando a verdade viesse à tona, ele nunca mais olharia na sua cara. Alguma coisa lhe dizia que esse momento poderia estar muito próximo, mas até onde ele havia descoberto sobre Helen?
— Tem uma coisa me incomodando bastante. Se realmente nos amávamos, por que ela nunca me procurou? — Matheus estava mais calmo e pensando racionalmente — Cheguei à conclusão de que aconteceu alguma coisa nesse meio de tempo que nos separou. Pretendo descobrir o que é.
— Se realmente existiu alguém em sua vida, talvez tivesse seus motivos para não ir atrás de você, Matheus. — Então, ele sabia de quem se tratava o quadro. Esteve com Helen, a viu com o anel e ligou tudo. Um frio percorreu sua espinha — Agora que você sabe, por que não pergunta a ela você mesmo o que aconteceu?
— Eu não sei quem ela é. Simplesmente não consigo me lembrar. Alguns traços não são estranhos, e tem aquela máscara que cobre praticamente todo seu rosto. A foto não revela quem ela é, a menos que as memórias voltassem de repente.
Samantha suspirou aliviada. Ainda teria tempo para se preparar para a tempestade futura.
— Que pena.
— Como se não bastasse saber de tudo isso sobre meu passado, estou muito confuso. Tenho a impressão de que essa história foi mal resolvida, e me sinto na obrigação de ir atrás dessa mulher, mas não sei por onde começar.
— Calma. Quem sabe não seria melhor deixar tudo como está, já que você não faz ideia de quem ela é? — Sam começou a ficar preocupada. Pressentia que essa história viria à tona cedo ou tarde, só que ainda não estava preparada para enfrentaras repercussões.
— Acho que devo parar de fugir do meu passado. Estou cansado de viver com esse buraco no meio peito. Tenho que descobrir quem é a garota da foto, e alguma coisa me diz que ela pode estar por perto e preciso mesmo fazer isso. E é exatamente nesse ponto que entra Helen.
— Helen? O que tem ela? — O irmão estava juntando as peças e isso não seria tão simples como Sam imaginou.
— Tem uma força que faz com que eu vá para ela. Algo inevitável. Não posso continuar com tantas dúvidas sobre mim mesmo.
Isso surpreendeu a irmã. No fundo, ela imaginava que Helen causava alguma coisa em Matheus, mas ouvir aquilo da boca dele a fez sentir-se ridícula, mesquinha, por tudo que tinha feito para ter o irmão em sua vida.
— Matheus, tem certeza de que não está me escondendo algo? Não se lembrou de alguma coisa?
— Não. Quem esconde as coisas aqui é você. Cedo ou tarde, vou descobrir. — Sam encarava a estampa da poltrona, sem retrucar o comentário. Ambos sabiam que era verdade. Ele pegou seu caderno de anotações e abriu na última página em que havia escrito — Você sabe o que quer dizer Neoqeav?
— Não, por quê? — Conhecia a palavra, mas não o significado. Estava gravado nas alianças da caixinha de veludo.
— Nunca esqueça o quanto eu amo você. — Matheus colocou a cabeça nas as mãos — Foi essa a promessa que fiz àquela garota, só que a esqueci completamente, e alguma coisa me diz que ela não sabe por que a deixei.
— Não fique assim, Matheus, o tempo cura todas as feridas — tentou acalmá-lo.
— Será mesmo? Apesar de todas essas coisas, não consigo parar de pensar em Helen. Ela me deixa nervoso, feliz e confuso. Tudo ao mesmo tempo! E eu a beijei...
— Como assim? — Samantha percebeu que tudo estava conspirando a favor dos dois.
— A beijei e não foi à primeira vez. É o que sempre faço quando estou perto dela. Perco o controle. Aquela mulher tem um imã que me atrai, não consigo evitar!
Apesar de não acreditar nessa coisa de destino, almas gêmeas ou sei lá o que, a irmã de Matheus estava convencida de que quando duas pessoas estão destinadas, não existe nada que as impeça de se encontrarem e, em algum momento de suas vidas, seus caminhos terão que se cruzar.