O Tempo Não Apaga
Capítulo 24
Matheus assistiu a cena acontecer em câmera lenta, sentia como se estivesse fora de seu corpo. Não podia ser verdade! Ele saiu sem destino do hospital, havia ido até lá para se desculpar com Helen pela maneira como tinha se expressado. Precisava de um tempo, mas não queria ficar longe dela. Não do jeito que ela imaginou.
Os últimos dias não foram fáceis. Se deu conta de que, em meio a todo aquele caos, tinha uma família de verdade. Mesmo com a desconfiança crescente de que sua irmã tinha algo com o sumiço repentino dele anos antes, não conseguia ignorá-la por completo. Sabia que escondia coisas dele, apesar de ela não as ter exposto ainda. Aguardava, ansiosamente, pelo dia que conheceria a verdade nua e crua. Contudo, não iria forçar mais do que já estava fazendo. Algumas lembranças tinham voltado naturalmente como se nunca tivessem ido, enquanto outras se apagavam sem que ele percebesse.
Sabia que todos escondiam coisas dele e seria só uma questão de tempo para que pudesse descobrir o que era. Porém, ter algumas dessas verdades jogadas em sua cara, com uma plateia atenta, foi impactante e desagradável. Causou certa confusão em sua cabeça. De alguma maneira, sabia que, dessa vez, não surtaria. Estava mais forte, mais no controle de sua vida.
Caminhou sem direção pelas ruas da cidade. Ignorando todas as ligações de sua irmã, passou em frente ao restaurante onde se encontrou com Helen pela primeira vez. Quando percebeu, já estava na praia e a noite já caíra. Sentou-se na areia com o olhar perdido na imensidão daquele rio. Viu ao longe as embarcações passarem lentamente e pôde ouvir a melodia que tocava ao longe.
Que o nosso amor pra sempre viva
Minha dádiva
Quero poder jurar que essa paixão jamais será
Palavras apenas
Foi o suficiente para que ele se sentisse ainda mais culpado. Ela se casou. Aquilo não saia de sua cabeça. Teve outro homem, que não foi ele, e havia tentado se matar!
Fernando poderia ter sido um cara repugnante, mas, por ironias do destino, era um homem admirável. Não se lembrava dele, mas os seus diários o mencionavam como uma espécie de protetor dela e nunca como seu ex-marido. Vê-lo ali, abraçando a mulher que amava, foi como um gatilho.
Não era hora para ficar sentindo pena de si mesmo. Era hora de reconquistar a mulher que sempre amou. Assim como ele, ela teve um passado que não o incluiu. A culpa não era dela. Era dele. Ele havia sumido. Ele havia perdido a memória. Ele havia mudado de cidade. Peças não se encaixavam no quebra-cabeça de sua vida. Precisava saber o porquê de tudo isso ter acontecido. Não se conformava com a ideia de tê-la deixado a alguns dias do casamento. Nada disso fazia sentido.
Quanto às burradas daquele dia, percebeu que a magoara mais do que imaginou. Havia duvidado de sua moral e fidelidade. Não queria que Helen pensasse que não confiava nela, mas vê-la nos braços de outro foi demais para ele. Principalmente em um momento de dúvidas e descobertas como aquele.
— Devia ter tatuado “idiota” na testa — disse, em voz alta, para si mesmo.
— Talvez devesse culpar outra pessoa por se sentir assim — escutou uma voz conhecida falar e virou-se para encarar a irmã.
— O que faz aqui, Samantha?
— Fiquei preocupada com você depois que soube do que aconteceu no hospital. Não sabia mais onde procurar. Imaginei que pudesse te encontrar aqui — ela confessou. Seu rosto exibia uma mistura de preocupação e ansiedade — Matheus, preciso falar com você. Acho que já adiei demais essa conversa.
— Agora não, Sam — a interrompeu. Estava chateado demais para ouvi-la.
— Não estou te dando opção. Você precisa me ouvir — enfatizou -Adianto que não espero compreensão, redenção, perdão ou qualquer coisa do tipo. Tive muito tempo para pensar em como desfazer, e não encontrei um jeito fácil de fazer isso, mas acredito que contar-lhe a verdade seria um bom começo. Além do mais, irá diminuir a culpa que sente agora. Sou responsável por toda essa confusão que está acontecendo em sua vida. A culpa é totalmente minha por você ter abandonado Helen nas vésperas do casamento.
— Do que você está falando, Sam?
— Sempre soube do relacionamento de vocês, da importância dela na sua vida. Não falei nada porque fui egoísta. Achei que precisava mais de você do que ela.
— Você está louca? — Matheus levantou-se para olhar nos olhos da irmã e percebeu que falava a verdade — O que fez, Samantha? Por quê?
— Matheus, eu era só uma garota idiota com muita raiva de um irmão que tinha aparecido do nada. Meu pai estava morrendo e queria ver você. Eu vim a essa maldita cidade determinada a te levar nem que fosse arrastado. — Matheus lançou lhe um olhar de desprezo e fez com que a irmã se sentisse uma pontada no peito. — E o que você fez? Estragou todos os meus planos, foi grosso comigo. — Ele estava imóvel, apenas ouvindo aquela história sem pé nem cabeça. Raiva, mágoa, tristeza. Inúmeros sentimentos tomavam conta dele. Era como se tivesse em uma experiência fora do corpo. As palavras dela tornaram-se distantes — Você sofreu um terrível acidente. Tudo havia se voltado contra mim. De repente me vi sozinha com esse enorme problema nas costas. Quando acordou do coma e não lembrava nada sobre sua vida, vi uma segunda chance. Queria consertar as coisas com você, afinal, era a única família que tinha me restado. Não queria ninguém atrapalhando nossa reaproximação e me julgando pelos meus atos. Sua noiva não sabia sobre mim porque você preferiu poupá-la do aborrecimento às vésperas do casamento. Decidi apagá-la da sua vida. Enviei uma carta sem sentido algum em seu nome a dispensando. Graças ao Fernando, ela nunca chegou a saber de mais essa idiotice minha. Inventei uma história bastante convincente, que deu muito certo, até mudarmos para essa cidade.
Estava difícil processar tudo que havia acabado de escutar.
— Não tinha esse direito! — exclamou. O ódio estampado no rosto dele a fez estremecer. — Samantha, eu confiei em você por todos esses anos. Quem pensa que é para sair fazendo o que bem entender com a vida dos outros? Por isso Helen te olha daquele jeito? Ela descobriu tudo, não é mesmo?
— Sim, ela sabe — confessou — Contei em meio ao desespero no hospital. Talvez, nunca me perdoem pelo que fiz. Por você, nós deixamos nossas diferenças de lado. Prometi a ela que te contaria a verdade o quanto antes. Até tentei falar, mas a conversa sempre acabava indo para outro rumo. E para ser sincera, temia sua reação. Não queria que me odiasse, nem que piorasse. Agi errado, sei disso, e não pense que passei todos esses anos me sentindo a melhor pessoa do mundo, porque não foi assim. Essa culpa me consome todos os dias. — Matheus não sabia o que dizer. Por um lado, queria gritar com a irmã. Por outro, queria sair correndo e procurar Helen. Sua vida era um caos. — Quando falou em voltar para cá, dois anos atrás, fui totalmente contra. Não sabia se eu conseguiria enfrentar os fantasmas do seu passado. Mas entenda que amo você. É a única família que me resta.
— Pare de repetir essa frase o tempo todo. Para de usar isso como desculpa para as suas atitudes estúpidas. Sei que sou sua única família, só que isso não te dá o direito de agir como agiu! Família é amor, apoio. Não posse! Entenda uma coisa, Samantha, Eu. Não. Sou. Seu — enunciou cada palavra para que ela pudesse ouvir com clareza.
Samantha se desfez em choro. Por mais que estivesse preparada para que o irmão não a compreendesse, não esperava tanta frieza dele. Após alguns minutos tentando conter as lágrimas, continuou:
— Quando sua doença começou a se agravar ano passado, conversei com o seu médico e contei o que realmente havia acontecido. Fui aconselhada a vir para cá com você. Talvez fosse hora de descobrir o seu passado. Foi uma decisão difícil — concluiu.
Matheus passou a mão nos cabelos e socou o ar. A raiva tomava conta dele. Não podia acreditar no que tinha ouvido. Sabia que a irmã escondia coisas dele. Não pensou que fosse dessa seriedade. Nunca poderia ter imaginado que ela fosse capaz de ser tão manipuladora.
Desde que saíra do hospital, e recuperado algumas partes de suas memórias, seu relacionamento com a irmã estivera abalado. Agora, estava destruído.
Suspirou e falou pausadamente.
— Samantha, não se iluda em pensar que, só porque me contou a verdade, eu te perdoarei. Você diz que suas ações foram em nome da família. Mentirosa — Matheus acusou — Tudo o que fez foi pensando em si mesma. Parabéns, irmãzinha — ironizou —, você acabou com tudo que construiu. Por sua causa, a mulher que eu amo tentou se matar.
A cada palavra de Matheus, Samantha chorava mais. Ela estava inconsolável; completamente tomada pelo sentimento de culpa e arrependimento. Quando, finalmente, se acalmou um pouco, conseguiu continuar a falar:
— Apesar de querer muito o seu perdão, sei que não o receberei. — Matheus apenas continuou olhando para ela. Estava com nojo da irmã. — Só contei tudo isso porque eu não queria que as coisas entre você e Helen ficassem melhores.
— Se você pensasse tanto assim em Helen e eu, nunca teria feito o que fez. — Na cabeça dele, não conseguia entender como uma pessoa podia ser tão egoísta a ponto de se usar da doença de uma pessoa para benefício próprio.
— Já ouvi suas acusações, Matheus. E pode ter certeza de que eu já me havia acusado das mesmas coisas. Sei que errei, sei que não deveria ter agido dessa maneira. Porém, não posso mudar o passado — Samantha estava quase gritando — Só posso mudar o futuro. Ou, pelo menos, tentar.
— Continue — ele deu permissão para que ela continuasse falando.
— Todos sabem que o que você tem com a Helen vai além do amor. Você e aquela garota nasceram um para o outro. Sei que não conseguirá seguir em frente se continuar se culpando por tê-la deixado, se não compreender o que aconteceu em sua vida nos últimos anos. Por isso estou aqui, te contando toda a verdade e te ajudando a seguir em frente com a sua vida.
Descobrir que a irmã era uma pessoa má — ou pelo menos havia sido —, não estava nos planos de Matheus. Foi um balde de água fria. Mas ela tinha razão. Ele precisava disso; precisava da verdade para seguir em frente. Seu passado foi bastante confuso, mas seu futuro era certo. Queria estar com Helen e sua filha. Elas eram a razão para a felicidade dele. Não deixaria um dia se passar sem que elas soubessem disso. Se ele tivesse sorte, Helen o aceitaria de volta. O perdoaria por todas as besteiras que fizera e permaneceria ao seu lado até o fim.
Precisava fazer alguma coisa. Passou as duas mãos pela cabeça, em um sinal evidente de frustração. Aquilo tudo o estava tirando do sério.
— Pare de andar de um lado para o outro como se não tivesse rumo na vida — Samantha ralhou, fazendo com que ele olhasse para ela de forma surpresa - Soube do que aconteceu no hospital. Desculpe, não percebi que você tinha perdido isso em meio às loucuras do último mês.
— Não perdi, apenas, a informação. É quase possível que eu tenha perdido Helen. Por sua culpa novamente.
— Não. Dessa vez a culpa não foi minha — Samantha se defendeu — Você não deveria ter batido em Fernando. Ele só quer protegê-la. Pelo que soube, você se descontrolou ao vê-los juntos.
— Claro que me descontrolei. Odeio ver minha mulher nos braços de outro homem. Me mostre um que goste!
— Aquele homem a ama, Matheus, e você precisa conviver com disso. Para tristeza de Fernando, ele nunca a teve por inteiro, por sua causa. Ela sempre te quis, mesmo casada com ele. Só que hoje, você deu motivos para que ela desse mais uma chance a ele.
— Cale a boca, Sam. Não suporto mais ouvir a sua voz. Depois da merda que fez, você vem me dizer que nós nascemos um para o outro e apontar o dedo na minha cara e criticar minhas atitudes. E, para piorar, ainda tenta me dizer que a minha mulher vai voltar para o ex-marido. Você não cansa de me machucar? É esse seu objetivo de vida, me ferrar? — esbravejou. Continuava a andar em círculos, como se fosse um leão enjaulado.
— Ela não é sua mulher — Samantha gritou — E nem vai ser enquanto ficar aí parado e com raiva do universo. Você não estava aqui, por isso ela se casou com outro e teve uma vida na qual você não fazia parte. Não seja hipócrita. Você também teve uma vida. Inclusive, teve uma filha com outra mulher.
— Eu sei disso. Não quero seus conselhos de meia tigela. Depois de tudo que fez, agora vem munida de boas intenções. Chega a ser ridículo, Samantha. Tem noção do que fez com a minha vida? Você a destruiu. Me tirou o que mais amava — disse as palavras a centímetros da irmã. A olhava nos olhos. Os dele era cheios de raiva. Os dela, de receio.
Ela baixou o olhar, não conseguindo encará-lo por mais tempo. Sentia-se envergonhada.
— Eu sei o que tirei de você. Pensa que não sofro por isso? Sabe quantas vezes eu quis contar? — Sussurrou enquanto novas lágrimas escorriam por suas bochechas — É impossível mudar o passado, mas quero que você e Helen fiquem bem. Vá até ela e resolva a besteira que fez hoje.
De repente, todas as lembranças dos dias que antecederam sua partida invadiram sua mente como se nunca tivessem se perdido. A pressão foi tanta, que precisou se sentar, colocando a cabeça nas mãos e massageando as têmporas. Samantha se assustou ao ver a cena, mas não fez nada para interferir.
Matheus se lembrou da garota petulante que achava que podia mandar nele, das discussões acaloradas que tiveram, do sequestro, do acidente... Droga!
Lembrou-se de acordar perdido no hospital, e de ela estar do seu lado, mesmo que ele não fizesse a mínima ideia de quem era ela. Do olhar arrependido que a mulher tinha, do choro constante sempre que estava perto dele nos primeiros dias. Foram dias bem difíceis. Nada fazia sentido, mas aos poucos ela foi conquistando sua confiança. Ele sempre soube que ela escondia uma coisa importante, mas nunca quis saber, de fato, o que era. Tinha medo de machucá-la.
Viu, aos poucos, aquela garota petulante desaparecer e dar espaço à mulher decidida que via ali. E a sua irmã, sim as recordações traziam provas irrefutáveis disso, não estava ali implorando seu perdão. Apesar do arrependimento escancarado nos olhos dela, estava ali para fazê-lo enxergar o que era realmente importante em sua vida. Precisava de um tempo longe de toda aquela confusão para pensar direito e agir da maneira correta.
O que Sam tinha feito era uma coisa imperdoável. Não podia, simplesmente, esquecer. Que irônico.
— Não quero mais falar com você agora, Sam. Se um dia estiver pronto, entrarei em contato. Por favor. Limite sua presença enquanto isso.
— E Olívia? — ela questionou. Não conseguia imaginar sua vida sem a menina. A tinha como filha e não aguentaria se afastar dela ainda mais.
— Passe uns dias com ela. Preciso de tempo para absorver tudo que sei e lembrei. Não quero te ver. Tome conta dela, por favor.
— Claro. Pode deixar. Eu amo aquela pequena mais do que qualquer outra coisa em minha vida.
Ele virou as costas e começou a caminhar na direção oposta. Samantha não aguentava vê-lo indo embora. Era seu irmão e o amava imensamente.
— Me perdoe, Matheus — gritou, fazendo com que ele se virasse para encará-la novamente - Por ter te afastado do amor da sua vida. Por tudo — ela chorava compulsivamente. Queria muito um abraço do irmão, mas teve que se contentar com os próprios braços — Sabe aquela carta que recebeu outro dia? — ele assentiu — Eu a enviei. Já estava na hora de você ir atrás do seu passado. Queria que, por iniciativa própria, fosse ao seu antigo apartamento e visse o que tinha perdido, mas tinha medo de acabar fazendo ainda mais besteira.
Ele não respondeu nada. A cada momento, ela revelava novas coisas que havia escondido. Ele estava cansado. Precisava se afastar e refletir sobre tudo que ouvira. Virou as costas e seguiu seu caminho, deixando a irmã — e todas as mentiras — para trás. Acharia uma forma de garantir seu futuro.