O Tempo Não Apaga

Crys Carvalho · Capítulo 12 de 32

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O Tempo Não Apaga

Capítulo 11

 

 

— Pra que tanto macarrão, tia Helen? — A garota perguntava

impaciente, debruçando-se sobre a mesa.

— Ah, minha querida, você não conhece meus amigos — respondeu calmamente a pergunta da filha de Matheus — Tem uma grávida, a Tatiana, que come feito um leão. Isso sem falar no marido e o cunhado dela — disse, rindo — Então, tem que ser muita lasanha. Me passa a cebola, por favor, Olivia.

— Por que as pessoas choram quando cortam cebola, hein? — Questionou, passando a tigela. Sentando na cadeira junto ao balcão, colocando as mãozinhas sob o queixo — Elas ficam tristes?

— Não, acho que é por que irrita os olhos, mas vou te contar um segredo — disse, baixando a voz e deixando a garota empolgada — Sei um jeito de não chorar cortando cebolas, quer saber como?

— Quero. — Balançou a cabeça afirmativamente — E vou ensinar pra tia Sam. Tadinha, ela chora tanto cortando cebolas.

— É só colocar na geladeira um tempinho antes de cortar. — Piscou com um olho só, fazendo a menina sorrir. — Onde você guardou o pote com molho de tomate?

— Ali. — Ela apontou para o outro lado da mesa — Que horas começa o jantar?

— Umas oito e meia, por quê?

— Nada. É que eu tô com fome. Que horas são agora?

— Seis e quarenta. Por que não disse que estava com fome? Você gosta de bananas?

— Sim — a menina respondeu e ficou em pé no assento da cadeira, tentando visualizar o que Helen estava fazendo.

— Cuidado pra não cair — alertou, ao vê-la na ponta dos dedos em cima da cadeira— Vou pegar para você. Não precisa ficar com vergonha quando estiver com fome. Me peça que eu pego alguma coisa para você.

— Descasca pra mim?

— Claro!

Havia levado Olivia para conhecer a filha de sua prima Carol. As meninas se deram muito bem e brincaram bastante. Depois, Helen as levou ao parque, tomaram sorvete e no fim do dia estavam exaustas. Depois disso, a garota se apaixonou pela vizinha. Matheus precisou ir a uma reunião com um cliente e acabou se atrasando para buscar a filha. E lá estavam elas.

Helen havia sido promovida a tia da garota em algumas horas.

Foi divertido passar a tarde com ela. A menina era muito parecida com o pai. Desde a cor dos olhos, aos gestos que fazia com as mãos. Helen levava jeito com crianças, mas não era lá tão experiente. Tinha um sobrinho de três anos que só conhecia por fotos no Facebook. Também tinha Isabella, filha de sua prima Carol, que algumas vezes ficava em sua casa. As crianças sempre traziam novos ares aos seus dias.

Devido à demora do pai, Olivia pediu para ajudar Helen a cozinhar enquanto esperava. Já eram sete horas, havia terminado de montar a lasanha e a pequena tinha se sujado toda. Antes que alguém a visse naquele estado, achou melhor dar um banho na criança. Foi quando a campainha tocou.

— Desculpe o atraso. Como disse ao telefone, tive uma reunião de emergência com um cliente — Matheus se justificou, arrumando a pasta de couro nos ombros, assim que Helen abriu a porta.

— Sem problemas. Entre, por favor.

— Obrigada, onde ela está?

— Está no banho. Se sujou toda me ajudando com a lasanha — Helen sorriu lembrando-se do rostinho dela cheio de molho de tomate. — Sente-se. Acho que vai demorar um pouco.

Ele tentava lembrar-se do nome de sua vizinha. Isso vinha acontecendo com mais frequência do que gostaria. Talvez fosse o fato de ficar sempre tão tenso quando estava perto dela. Era complicado não ter nada que pudesse ajudá-lo a recordar-se disso. Tinha que associar o nome dela a alguma coisa antes que pudesse passar vergonha.

— Tia Helen, quem foi que chegou? — Olivia gritou, curiosa, do banheiro.

Ele se sentiu aliviado ao ouvir a voz da filha o salvando.

— Seu pai — a mulher respondeu, satisfazendo a curiosidade da garotinha — Espere um pouco que já estou indo pegar a toalha.

— Ela deu muito trabalho, Helen? — Matheus quis saber, ainda em pé do lado de fora do apartamento.

— Não, imagina. — Ele tinha um jeito intimidador de olhar para ela que a fazia estremecer e não saber ao certo o que dizer. — Não vai entrar? — O homem passou a mão pela barba e riu — Pode ficar à vontade, vou procurar uma toalha para ela.

Matheus não tinha prestado muito atenção no apartamento da outra vez, até porque, a dona dele parecia ser bem mais interessante. Bem decorado, notou. Tinha que admitir que ela tinha bom gosto. Os cômodos eram bem divididos, mas achou grande demais para uma mulher sozinha. Ouviu o riso de sua filha vindo do quarto. Ela parecia estar se divertindo com a vizinha. Estava na cara que as duas se davam muito bem.

— Pronto, aqui está sua garotinha. Limpa e cheirosa como a recebi.

— Papai. — Olivia correu para abraçá-lo. — Eu ajudei a tia Helen a fazer a lasanha. Nós vamos esperar para comer, não é?

— Nós vamos comer sim, filha. Só que antes a gente vai para casa buscar a tia Sam. O papai tem que tomar banho também. — Helen sorriu com aquela cena, porque era exatamente do jeito que sempre imaginou. Sempre soube que ele seria um ótimo pai.

— Tia Helen, você convidou a Isabella para comer a lasanha, não é?

— Não, minha querida. A tia esqueceu, mas fica para outro dia — Helen confessou, passando a mão na cabeleira loira de Olivia.

— Bem, Helen, estamos de saída. Daqui a pouco voltamos. Mais uma vez, desculpe-me pelo o atraso e muito obrigada por ficar com ela — disse enquanto segurava a mão da filha.

— Tudo bem. Eu vou acompanhá-los até a porta.

— Filha, não vai agradecer a Helen por ter cuidado de você? — Matheus disse assim que chegaram à porta.

— Obrigada tia. Daqui a pouco eu venho pra gente comer a lasanha, tá bom? — disse, balançando as mãozinha se depois abraçando a vizinha.

Helen a pegou nos braços, a apertou e beijou. Matheus ficou observando aquela cena e, por alguns momentos, a mulher não lhe pareceu ser real. Quando ela lhe devolveu Olivia, seus olhos se encontraram e ambos ficaram presos um no outro por um longo minuto.

— Papai, vamos. A gente tem que voltar logo — A voz da menina os tirou do transe.

Assim que eles saíram, Helen foi tomar banho e se arrumar para esperar os amigos. Estava nervosa só de pensar em Matheus no meio daquelas pessoas que já o conheciam, mas que ele não fazia a mínima ideia de que eram. Prendeu o cabelo em um rabo de cavalo e colocou um vestido longo bem leve. Estava fazendo a maquiagem quando a campainha tocou.

Abriu a porta e se deparou com Fernando, que lhe sorria, com uma orquídea azul nas mãos.

— Meu Deus, como está linda essa mulher. Se eu não fosse seu ex-marido, você estava perdida — falou, lhe dando um sorriso, girando-a e abraçando-a com a mão livre — Boa noite. E ai, tudo bem?

— Por enquanto, sim. Ah, Fernando, eu estou com um friozinho na barriga. Será que isso vai dar certo?

— Trouxe essa orquídea para você, pois sabia que estaria tensa desse jeito. — Ele entregou o pequeno jarro a ela — Isso não é hora de dar chilique. Dará tudo certo. E se não der, estou aqui. A Tati também. Se bem que não sou grande coisa e a Tati então só causa confusão. Só o Vini é bom com essa coisa de apoio moral, mas de qualquer forma você pode contar comigo.

— Ah, é muito bom ter amigos como vocês. Tem notícias do Vini? — ela perguntou.

— Aquele ingrato deve estar muito ocupado com as pesquisas e as muitas mulheres caindo aos seus pés. Aposto que até esqueceu que tem amigos no Brasil.

— Ele é seu melhor amigo, não devia falar assim. Essa pesquisa é importante para a carreira dele! — ralhou Helen — Quem diria que o Vini seria um renomado neurologista, com reconhecimento internacional?

— Aquele cara realmente superou minhas expectativas. Talvez ele esteja de volta na semana que vem. A pesquisa já foi concluída, mas você sabe como é o Dr. Vinicius — debochou do amigo. Sua fama, realmente, não era das melhores.

— Você bem que queria estar no lugar dele que eu sei — Helen comentou com um tom acusador.

— Claro! Só não queria ter a Tatiana como irmã. Ela o deixa maluco com tantas mensagens por dia o ameaçando. — Ambos riram do infortúnio do amigo.

— Falando na Tati, você sabe por que estão demorando tanto? Ela disse que sete e meia estaria aqui e até agora nada! — Helen reclamou.

— Não se preocupe, falei com o Lucas agora mesmo. Eles pegaram um congestionamento, mas já estão chegando. O que você fez para a gente comer? — Ele disse, abrindo a geladeira.

— Lasanha e pudim, aquele que você adora.

— Não acredito! Estava com saudades da sua comida e só estou comendo porcaria — ele disse, colocando um pouco d’água no copo e sentando na cadeira do balcão — Você não sente falta?

— De quê?

— Da gente, das coisas que fazíamos juntos...

— Sabe que às vezes sim. Se lembra de quando resolvemos pintar a sala por que você cismou que a cor lembrava... Como é que disse mesmo? Cor de...

— Caixão de prefeitura! Lembro sim, com certeza. — Fernando pareceu triste por um breve segundo — Foi uma pena que não deu certo entre nós, não é mesmo? Ah, eu não acredito! — exclamou, parecendo bravo de repente, e Helen se assustou.

— Que foi?

— Eu não acredito que estou bancando o ex-marido abusado, quando, na verdade, estou caidinho pela sua convidada. Me perdoe — ele mudou de assunto.

— Que história é essa, hein?

— Acho que estou apaixonado pela sua “ex-quase-cunhada”. — Ele amava ser dramático. — De onde saiu aquele furacão de mulher? Só de pensar nela, fico todo nervoso.

— Seu safado! Eu vi como você olhava para ela na festa. Até parecia um lobo selvagem. Controle-se ou a pobre mocinha vai fugir de você. — Helen se desmanchou em risos.

— É, pelo visto não sou o único. Não é mesmo, querida? — Ele fez uma expressão engraçada — Fiquei sabendo que você bancou a babá hoje. Me conte como foi.

— Seu bobo, você anda sabendo de coisas demais. — Helen deu-lhe um tapa no ombro. — Até que foi bem divertido, sabe... Fazia muito tempo que não me divertia desse jeito. Ela é muito esperta, inteligente, fala pelos cotovelos. — Helen falava com tanta empolgação que Fernando não resistiu em fazer um comentário.

— Tem gente babando pela filha alheia ou será seu instinto maternal falando mais alto?

— Você está demais hoje, Fernando — ela disse, sorrindo — Fica só tocando nas minhas feridas. Você sabe que eu tenho muita vontade de ser mãe, mas até agora não deu.

— Não precisa ficar brava. É constrangedor, só que eu posso aguentar. — Ele a olhou travesso. — Acho que precisamos parar de ficar contando segredinhos um para o outro. É nisso que dá. Você vai receber seus amigos assim mesmo, com um lado do rosto maquiado e o outro não? — disse apontando para o rosto de Helen e rindo.

— O quê? Ah, fala sério! Tinha esquecido. Você fala demais Fernando, acabou me distraindo. Se eles chegarem, atenda a porta. Por favor, tente não espantar meus convidados com as suas histórias malucas.

— Olha, sabe que eu não posso prometer, mas vou tentar.