O Tempo Não Apaga
Capítulo 22
Quem era o homem que escreveu aquilo?
Matheus se perguntava desde que começara a ler as notas em seu celular e as anotações que a irmã trouxera. Não se recordava de ser a pessoa descrita ali. Seus planos, sua vida, tudo que lembrava era de ser um cara muito certinho, com metas traçadas e uma pitada de insegurança. Só que o cara que escreveu tudo aquilo era impulsivo, seguro de si. Aparentemente, tinham em comum a paixão pela profissão e o amor por Helen. Samantha foi o centro do seu mundo por um tempo, até a chegada de sua filha. As coisas mudaram com a presença de Olívia, e ele ganhou mais firmeza em suas decisões.
Como foi capaz de se envolver com uma mulher como Juliana, que só pensava em si mesma?
Talvez, inconscientemente, quisesse provar que não seria como seu próprio pai. Queria dar tudo aquilo que nunca havia recebido dele.
De todas as lembranças que tinha, a do abandono foi a única que não se apagou por completo. Tudo o que sofreu por não ter um pai. Aquele homem abandonou sua mãe com uma criança recém-nascida por um punhado de ouro e um rabo de saia. Os deixou na rua, literalmente, e se não fosse a bondade de algumas pessoas, talvez eles não tivessem sobrevivido. Sua mãe definhou até a morte, em cima de uma cama, por puro desgosto.
Quando ela faleceu, finalmente teve notícias concretas de que Tião, seu pai, havia se tornado um homem rico. Ele tentou entrar em contato com o filho, e foi aí que tomou a decisão de o apagar de sua vida. Juntou suas coisas e mudou-se para São Felipe. Prometeu a si mesmo que seria alguém na vida. Provaria para aquele trapo de gente que se dizia seu pai que não precisava dele. Sua vida mudou. Teve que ralar bastante, mas conseguiu alcançar seus objetivos. Apesar do sucesso, carregava em seus ombros um fardo pesado de mágoas, tristezas e desilusões.
Entretanto, a história contada pela irmã não fazia sentido algum. Aliás, nunca fizera. Segundo as próprias anotações, sempre soube que ela escondia algo muito importante dele. Analisando cuidadosamente, percebeu o quanto Samantha era parecida com seu pai. Talvez não devesse julgá-la sem conhecê-la, afinal, ela o acolheu no momento mais difícil de sua vida.
Matheus não podia ser hipócrita ou ingrato. Ela tratava sua filha como se fosse dela. Os vídeos denunciavam essa verdade, que era uma coisa bonita de se ver. Fora isso, ela se desdobrou para dar conta de tudo. Conseguiu os melhores médicos para cuidar dele e, por fim, tinha uma coisa que buscava há muito tempo: uma família unida e feliz.
Contudo, tinha uma aura obscura pairando sobre Sam que o intrigava há muito tempo, e toda essa confusão em sua cabeça acabou acendendo uma alerta para isso. A inquietação de Helen indicava que sabia de algo muito sério. Será que o que ela havia feito de bom poderia apagar as maldades que cometera?
As coisas estavam muito estranhas. As lembranças do dia anterior estavam envoltas em uma névoa escura. Quanto ao restante, não fazia sentido algum. Sentiu que estava se perdendo novamente.
Porém, se reconfortou ao saber que Helen continuava em sua vida, e que o vazio que sentia havia sido preenchido por quem nunca devia ter saído do seu lado.
As coisas que tinham vivido anos antes se misturavam aos acontecimentos dos últimos dias, e ele não conseguia desmembrar o que era real das próprias fantasias. Apenas algumas coisas apareciam claras em sua mente. O restante era incerto.
Como tocaria sua vida com tantas mudanças drásticas acontecendo a cada momento?
Sua filha, uma princesa, extremamente ligada a ele.
Como faria aquilo dar certo?
A irmã, que parecia ter moldado sua vida e de uma forma quase imperceptível, o controlou por anos.
Tudo lhe pareceu tão absurdo. Fechou os olhos por um momento e foi tomado por uma lembrança aleatória de Helen. Talvez nem fosse real, mas não estava em condições de lutar.
Sua mão traçava o desenho do sorriso estampado no rosto de Helen. Todo o seu corpo vibrava. O toque desencadeou uma corrente de emoções, seu coração batia descompassado e tudo que queria era tê-la mais um pouco ali aninhada ao seu peito.
A mão dela, agarrada à camiseta dele, liberava um calor que o fazia querer muito mais do que um abraço. Roçou a barba no rosto dela e sentiu seu cheiro adocicado. Levou a mão à nuca dela, deixando seus lábios se encontrarem em um beijo desesperado. Subitamente, Matheus soube que sempre havia sido ela. Um gatilho disparou em seu cérebro, deixando-o sem reação. Foi tomado por um medo incontrolável que o fez afastar-se dela assim que a porta do elevador se abriu. Uma estúpida ironia! Quando a chave entrou na fechadura, um pequeno apagão o deixou desorientado por segundos. Logo em seguida, recordava-se apenas das sensações de ter aquela linda mulher em seus braços.
Ela sempre estivera ali, nos recantos mais escuros de sua mente. Não saber o motivo de terem rompido anos antes o deixava inquieto.
Como teria sido a vida dela sem ele?
Segundo as notas em seu celular, ela usava o anel de noivado. Ele sorriu com a lembrança. Sempre fora o dono do coração dela.
Mas ela havia mudado e não apenas na aparência. Apesar de parecer ser a mesma mulher meiga e doce por quem se apaixonara anos atrás, a sua garota não tinha mais aquele brilho próprio.
— Por que está tão pensativo, querido? — Helen perguntou ao entrar no quarto.
— Por nada. Me sinto estranho, só isso. Por favor, ligue para Samantha e peça para ela trazer Olívia. Estou pronto para vê-la. Não quero mais adiar nada em minha vida.
— Tudo bem. Só para esclarecer, vai ser difícil administrar essa situação, mas quero deixar claro que não vou sair do seu lado até ter certeza de que tudo está realmente bem.
— Não esperaria menos de você. Porém, imagino que deva ter uma vida além de mim. É serio, não quero te atrapalhar — disse de maneira cautelosa — Só que te ter por perto é tão maravilhoso, que não vou protestar se quiser ficar.
Helen não resistiu e deu uma risada. Estava tão feliz em tê-lo ali, ao seu lado, que todo o resto podia ficar para depois. Aproximou-se dele e o beijou nos lábios. Foi um beijo casto, apenas um selinho, mas que mostrava que ela não queria ir a lugar algum. Deixou que a ação falasse mais alto do que qualquer palavra.
— Obrigado por estar aqui — ele disse com a testa encostada na dela —, mesmo depois de todos esses contratempos. Segundo esse diário, me tornei um metrossexual, extremamente seguro de mim. Você foi a mulher perturbadora que me tirou da zona de conforto, levantou questionamentos e plantou a semente da dúvida em mim. Aconteça o que acontecer, você continuará sendo a luz da minha vida. Eu te amo por todas essas coisas — Matheus declarou. A puxou para mais perto, fazendo com que ela se sentasse ao seu lado. Aproveitou a proximidade e a beijou novamente. Usou o beijo para mostrar todos os sentimentos que não conseguia expressar com palavras.
***
Fernando havia voltado ao hospital para dar alta ao seu paciente. Por acaso, encontrou Samantha e Olívia na recepção. Cumprimentou a cunhada de Helen friamente e virou-se para a menina.
— Oi, princesa, tudo bem? — ele disse, afagando os cabelos dela.
— Claro. Olha, eu não estou doente, viu? A tia Sam me trouxe para eu ver o papai. Você o viu? Sabe onde ele dormiu? Ele tá doente?
— Nossa, quantas perguntas. Não vi seu pai, mas sei onde ele "dormiu". Não acho que ele esteja doente. Na verdade, ele nunca esteve tão bem como agora. Sua tia Sam não te disse?
A mulher o lançou um olhar confuso, que ele ignorou. Com certeza, ele não iria falar nada comprometedor para uma criança, mas foi bom ver Samantha com a guarda baixa.
Não podia negar que ela continuava linda, apesar de ser uma falsa e fingida. Se não soubesse do que ela foi capaz de fazer com o irmão, provavelmente a abraçaria naquele momento. Ela parecia arrasada e digna de pena. Só que merecia tudo aquilo por ter sido tão mesquinha e mimada.
— Fernando, você me leva até o meu pai? A tia Sam não tá muito legal hoje.
— Bem, se ela concordar, Olivia, eu a levarei. Tudo bem pra você, Samantha?
Ela apenas sacudiu a cabeça concordando. Ele podia perceber que estava fragilizada com todos os acontecimentos. E, antes de levar Olívia para ver o pai, pediu à menina alguns minutinhos a sós com a tia. A menina se sentou no sofá da sala de espera e, rapidamente, foi hipnotizada pela televisão.
— Antes de você me acusar de alguma coisa, peço que você não coloque minha sobrinha contra mim. Sei de todos os meus erros. E, se quiser, me xingue à vontade. Só não a coloque no meio das coisas. Você não acha suficiente Matheus estar tão confuso? Ontem ele não se lembrou de mim. Ele nunca me perdoará por tudo que fiz. Não complique ainda mais a minha vida!
— Ei, fique calma — ele disse, erguendo as mãos na defensiva — O que você pensa que sou? Alguma espécie de juiz? Embora tenha vontade de te falar muitas verdades, saber mais detalhes sobre o que a fez escrever aquela maldita carta, acho que esse não é o momento. Só queria saber como você e a menina estão. Além disso, vim te pedir para medir suas palavras quando estiver falando com os dois lá dentro. Eles já passaram por muitas coisas. — O corpo dela enrijeceu com as palavras.
— Desculpe, mas estou bem. Tenho consciência das burrices que fiz, e se houvesse um jeito, acredite, concertaria tudo isso. Sei que você gosta de Helen e tenta protegê-la de tudo. Percebi isso no jantar de sábado. O vi procurando indícios de mentiras na história de Matheus e vi seu incômodo quando eles não voltaram logo quando foram ao quarto com Olivia. Não se preocupe, não pretendo me intrometer na vida dela e do meu irmão. A partir de agora, deixarei as coisas acontecerem naturalmente. Quanto à carta, não tenho uma explicação plausível. Me desculpe, fui uma idiota mesquinha.
— Que bom que tem consciência das burradas que fez. Tentei, sim, proteger Helen. Apesar disso, ainda permiti que ela confiasse em alguém como você. Espero mesmo que deixe tudo acontecer naturalmente, Sam — afirmou, segurando o braço dela e forçando-a a encará-lo — Não tente apressar as coisas, deixe que a vida siga seu curso. Suas tentativas só acabaram mal. Sei que está sofrendo com tudo isso e que não é o monstro que todos pensam, mas nem por isso vou aliviar sua barra.
— Concordo contigo sobre as minhas tentativas. No fundo, eu e você somos iguais. Com a diferença que eu só faço besteira em nome do amor, enquanto você, pelo que já percebi, faz as coisas certas em nome do que sente por Helen. Admiro sua coragem.
— Que fique claro que não vou tolerar uma nova tentativa de prejudicar Helen. E se precisar de alguma coisa, pode me procurar.
Samantha concordou em silêncio. Fernando se responsabilizou pela garota e conseguiu que a deixassem entrar na ala de internação. Eles chegaram ao quarto, ele deu duas batidas na porta, esperou um pouco e girou a maçaneta.
— Papai — a menina exclamou, soltando a mão de Fernando e correndo para os braços do homem deitado na cama — A tia Sam me disse que estava doente.
Fernando e Helen notaram o olhar confuso de Matheus para a garota. Então, ele a abraçou forte, como se de repente ela fosse desaparecer. O gesto foi carregado de emoções.
— Minha querida, minha princesinha. Papai estava com tanta saudade de você. Tive tanto medo de te esquecer.
No momento em que ele viu a menina, foi como se nada houvesse acontecido. Era a sua filha, sua menininha. Como poderia esquecê-la? Havia pedido tanto para que ela não fosse apagada de suas memórias, e suas preces tinham sido atendidas.