O Tempo Não Apaga

Crys Carvalho · Capítulo 19 de 32

Páginas do PDF

O Tempo Não Apaga

Capítulo 18

 

Claro que conhecia, Helen pensou. Essa mulher sou eu.

Pegou o celular com as mãos trêmulas. A foto da formatura dele estava ampliada na tela do aparelho. Seu coração batia descompassado. Então Matheus esteve no apartamento? Isso significava que ele estava mais perto da verdade do que nunca. Ela sentiu um frio na barriga.

— Você a conhece?

— Eu... — ela pensou no que diria. Tocou o pingente, procurando coragem, e não conseguiu achar a palavra certa. Tentou desviar o foco da pergunta, mas sua voz a traiu — Por quê? O que exatamente sabe sobre essa mulher?

— Calma, Helen. Foi só uma pergunta. Não precisa ficar nesse estado — sugeriu, tocando o rosto dela que tinha os olhos cheios de lágrimas — Está com ciúmes? Desculpe-me, não quis causar esse constrangimento em você. Devia ter te explicado melhor. Essa pessoa faz parte do meu passado e, por algum motivo, eu sinto que tínhamos um tipo de ligação. Talvez ela seja a chave para todo esse mistério que envolve a minha saída dessa cidade. Só tem um probleminha. Não me lembro dessa mulher.

— Onde conseguiu essa foto? — Apertou o pingente entre os dedos.

Ela já sabia a resposta, mas precisava ter certeza.

— Não contei a você, mas tenho outro apartamento aqui. Acho que morei nele. É estranho não lembrar. Relutei muito em ir lá e dar de cara com o meu passado e quando finalmente decidi, encontrei evidências que, de certa forma, me levam a essa pessoa desconhecida. Preciso encontrá-la para saber o que houve realmente entre nós e que aconteceu comigo. Como te disse antes, estou convencido de que Samantha esconde coisas de mim.

— Matheus, talvez você deva conversar com sua irmã — ela sugeriu, encarando os pés.

— Ela sempre se fecha e muda de assunto quando começamos a falar sobre o assunto. Tem outra coisa que queria perguntar a você: há quanto tempo mora nessa cidade?

Eram muitas perguntas e, cedo ou tarde, teria que respondê-las, mesmo a contragosto de Samantha, que com certeza sabia mais do que imaginou.

— Doze anos — respondeu com o olhar perdido.

Matheus a olhou, curioso. Ela não conseguiu encará-lo ao responder, e ele teve certeza de que a mulher o conhecia há mais tempo do que ele acreditava.

— Há quanto tempo você me conhece, Helen? — exigiu a verdade. Ele tencionou os músculos, fechando as mãos em punho, e respirou fundo.

A pergunta a deixou extremamente nervosa. Por um momento, ela pensou que ele descobrira a verdade.

— Do que você está falando, Matheus?

— Não minta para mim, por favor — ele pede, segurando as mãos dela com a fúria contida — Vou perguntar mais uma vez: há quanto tempo você me conhece, Helen?

— Mais tempo do que você imagina. Não quero falar sobre isto. — Ela fitou o vazio, tentando conter as lágrimas. Ele levantou, passando a mão nos cabelos, e começou a caminhar de um lado para outro de forma impaciente. Passou alguns minutos em silencio tentando se acalmar. Por fim, sentou-se novamente.

— Olhe para mim, Helen. Porque me deixou pensar que não a conhecia?

— É complicado, Matheus. Samantha nos alertou para não te confundir, pois você poderia piorar.

— O que você quer dizer com “nos alertou”? Mais pessoas que me conhecem e fingem o contrário? — sua voz se alterava e, no minuto posterior, ele já estava gritando com ela — E quem, exatamente, são “nós”?

Helen não queria deixá-lo nervoso, mas visivelmente já estava fazendo isso. Apertava tanto seu pingente que os nós dos dedos ficaram esbranquiçados. E as perguntas só pioravam as coisas.

— Eu, Fernando, Tatiana e Lucas. Não nos julgue sem antes saber os motivos para nossos medos. Nós fomos seus amigos e ficamos preocupados quando descobrimos sobre seu acidente e sua doença. — Nunca esteve preparada para aquele momento e, provavelmente, nunca estaria. Não pretendia contar-lhe a verdade dessa maneira, e não precisava entrar em detalhes.

— Só que é a minha vida, entende? Você, seus amigos e a Samantha não podiam ter feito isso. — Matheus pôs as mãos na cabeça. — Vim para cá na tentativa de me conectar com o meu eu do passado, entender o que se passou em minha vida e preencher as lacunas. Você não sabe o que é viver sem conhecer seu passado, sua própria vida! Depender das memorias de alguém que nem sequer o conhece? Tem ideia das coisas que passei nos últimos anos?

As lágrimas de Helen ameaçavam cair, mas ela as segurou. Notou que as mãos dele começarem a tremer. Foi invadida pelo medo. E se ele tivesse um colapso nervoso?

— Me desculpe, não tive a intenção de lhe causar isso.

Matheus prendeu a respiração e soltou lentamente, numa tentativa de acalmar seus ânimos. Por que sua irmã insistia em se meter em sua vida, em querer que ele esquecesse o passado?

— Porque não solta esse pingente e começa a me contar o que está escondendo de mim? — Notou que Helen estava à beira das lágrimas, tomou a mão dela, que apertava o pingente, e tocou a peça. Leu a palavra que já conhecia e baixou o tom da voz. A fúria inicial estava indo embora e a respiração voltava ao normal — Sabe o que essa palavra significa, Helen?

A mulher apenas balançou a cabeça afirmativamente. Não conseguiu conter as lágrimas.

— Ei, não chore — ele pediu, tocando seu rosto. Vê-la naquele estado lhe causava um aperto no peito — Me desculpe, não deveria ter gritado com você. Não sou muito bom em controlar minhas emoções.

Estava mais calmo, sabia que ela não era culpada por tudo aquilo. Claro que foi errado esconder, mas ela só seguiu as instruções de Samantha. Ele a abraçou, arrependido.

— Me desculpe por não te falar— ela suplicou, secando as lágrimas.

— Está tudo bem, mas terá que me explicar essa história direito. Como nos conhecemos?

— Foi no meu trabalho. Faz uns dez anos que te conheço. — O brilho nos olhos dela se intensificou.

— Você conhece a garota da foto? Pode dizer onde posso encontrá-la?

— Sim eu a conheci. Sinto muito, mas não posso.

— Por que, Helen? Ela é casada, foi embora da cidade ou aconteceu algo trágico?

— Matheus, eu não posso — ela enfatizou, levantando-se apressada e saindo em disparada para o elevador. Não conseguiria continuar mentindo daquele jeito para ele. Chorava descontroladamente. Precisava se afastar antes que causasse uma confusão maior na cabeça dele. Saiu tão rápido que nem notou que havia esquecido o livro que estava tentando ler.

Matheus tentou acompanhá-la para devolver o livro, mas desistiu. Estava perturbado com as descobertas recentes. Pessoas que o conheciam no passado estiveram com ele e não disseram nada. Sentia- se pouco à vontade por deixar Helen naquele estado, sem comentar sua indignação pela proteção excessiva de Samantha. Voltou e sentou-se na beira da piscina. Olhou para o livro em sua mãe e leu o título estampado na capa. Helena, do autor Machado de Assis. A sinopse era interessante. Começou a folhear o livro, mas parou na segunda página.

Primeiro achou que fosse coincidência. Com mais atenção, fitou a contracapa.

Neoqeav.

Foi tomado por uma estranha sensação. Fechou o exemplar abruptamente e quase o derrubou no chão. Algo brilhoso em baixo da cadeira lhe chamou atenção. O pingente de Helen!

Neoqeav.

O apertou em sua mão. Click. Era um relicário, deveria saber disso.

Abriu as duas partes do pequeno coração. Sentiu todo o seu corpo se retrair, suas mãos tremerem, sua respiração ofegante. Um golpe certeiro!

Sempre foi ela.

Por isso aquela sensação quando estavam juntos. Por isso a hesitação dela. Lembrou-se da festa de boas-vindas e do real motivo pelo qual Helen havia gritado com ele, da maneira como o confrontou, a vontade de tomá-la em seus braços em meio a toda fúria que sentiu. De repente, podia ver o rosto da mulher que vinha sonhando nos últimos dias. Pegou o celular do bolso, analisou o quadro em seu apartamento, a foto dela que havia tirado no quarto, e agora tudo fazia sentido. O tempo todo esteve procurando por ela, pela mesma mulher que vinha preenchendo seus pensamentos e coração nos últimos dias.

Uma pontada em sua cabeça. Iria acontecer e não poderia evitar!

Tudo a sua volta foi se transformando em um borrão negro e já não sabia mais quem era ou onde estava.

***

— Onde está meu irmão? O que aconteceu com ele? Eu exijo vê-lo.

— Samantha gritava, desesperada, com a recepcionista.

Não sabia ao certo o que tinha acontecido com Matheus. Escutou a chegada da ambulância no condomínio, porém não imaginou que poderia ser para ele. Seu telefone tocou e quando atendeu, o porteiro do prédio a informou que o irmão havia sido encontrado desacordado na beira da piscina. A partir daí tudo aconteceu muito rápido. Deixou a sobrinha com a babá, pegou as chaves do carro e dirigiu feito uma louca para o hospital. Estava acontecendo de novo.

— Acalme-se, senhora, seu irmão está sendo medicado. Assim que possível, um médico virá conversar com você.

— A questão não é ele ser medicado, garota. Quero vê-lo AGORA! — Ela partiu para cima da atendente quando a outra se negou a atender seu pedido.

— Quem você pensa que é? — Ela sentiu mãos fortes a segurarem pelos ombros — Acalme-se ou não hesitarei em usar uma camisa de força.

O tom de voz autoritário do homem a fez estremecer. Samantha suspirou em uma inútil tentativa de se acalmar e sentiu as mãos saírem de seus ombros. Girou a cabeça lentamente e viu um jovem rapaz de jaleco branco a encarando com um olhar furioso. Seu corpo estremeceu, o homem tinha um ar imponente e se portava como se fosse o próprio príncipe William. Autoconfiança exalava dele.

Dr. Vinicius Pantoja, Neurologista. Ficou chocada com a inscrição no jaleco dele. Parecia jovem demais para isso. Ele se virou para a recepcionista enquanto Samantha recuperava a capacidade de se comunicar novamente. A garota atrás do balcão parecia estar sobre efeito de algum tipo de magia olhando para o médico, e perguntou: - Algum parente do meu paciente?

— E... Es.... Essa moça diz ser irmã dele — a moça indicou Samantha com o olhar.

— Eu sou irmã dele. — Fuzilou a atendente com o olhar.

— Ok, você deve desculpas a moça, não acha? — O médico disse tamborilando os dedos impacientemente sobre o balcão de atendimento.

Ela apenas balançou a cabeça afirmativamente e fez o que o médico pediu.

— O que aconteceu ao meu irão doutor? É grave? — Sua voz soou educada demais.

— Assim fica melhor — o médico riu para si mesmo — Quanto ao seu irmão, ele teve uma convulsão, bateu a cabeça e caiu desacordado próximo à piscina. Teve uma contusão, mas já fizemos o curativo e o medicamos. Ele ficou muito agitado e por isso tivemos que sedá-lo. Agora ele está dormindo, mas está lúcido. Já perguntou por você e pela filha. Ele tem uma filha, não é mesmo?

Samantha assentiu.

— Notei a tatuagem em seu pulso depois que ele mencionou o nome dela. Aparentemente, está tudo bem. Não precisa se preocupar. Amanhã cedo ele terá alta.

Não havia motivos para tanto desespero, ela percebeu por fim. Tudo indicava que não devia preocupar-se.

— Quem é Helen? — o médico perguntou de repente, pegando-a desprevenida — Os socorristas informaram que, durante o percurso para o hospital, ele a chamava quando ainda estava inconsciente.

— Sou eu. — Ambos viraram na direção da voz — O que você faz aqui Vinicius?

Helen estava de olhos inchados e as lágrimas ainda teimavam em cair. Precisava vê-lo. Ela voltara para buscar o livro e foi surpreendida pelo alvoroço do porteiro, que presenciara o que aconteceu com Matheus. Nem se deu o trabalho de tirar seu carro. Entrou no primeiro taxi que viu ao sair do prédio.

— Mundinho pequeno esse, viu— o médico disse, encabulado — Que coincidência.

— Quando chegou? — Helen indagou de forma impaciente — Depois conversamos, preciso saber sobre o Matheus, pode me dizer como ele está?

— É muita coincidência ou aquele é mesmo o noivo fujão?

— Vinicius, por favor, só me diga como ele está.

— Fique calma, ruiva. Está tudo bem. O quadro dele é estável. Não há motivos para preocupações. Ele teve muita sorte.

— Graças a Deus — Helen suspirou aliviada — Samantha, preciso falar com você. Nos deixe a sós, Vinicius, por favor.

O médico fez o que lhe foi pedido e as deixou à vontade.

— O que aconteceu, Helen? Você tem alguma coisa a ver com isso? — Samantha falou, descontrolada, em tom de acusação.

— Talvez tenha minha parcela de culpa, mas faça uma análise de consciência e tenho certeza de que vai descobrir quem é a maior culpada por isso estar acontecendo.

— Só queria proteger o meu irmão de tudo isso, Helen — Sam desabafou entre lágrimas.

— Proteger? De que exatamente quis protegê-lo? E você pensa que ele é quem, uma criança tola? Acha que tem o direito de fazer o que bem entender com ele?

— Pelo menos não desisti dele. — Sam retrucou sem pensar.

Helen não conseguiu se controlar. Em um movimento rápido, deu-lhe um tapa no rosto.

— Nunca mais ouse me julgar, ouviu bem, Samantha? — encarou a cunhada — Você é só uma menina mimada que não sabe o que é amar alguém como amo seu irmão. Agora não é a hora e nem o lugar para termos essa discussão. Queria falar contigo porque sei o que pode ter causado tudo isso. Ele descobriu a verdade.

— Verdade?! Sobre qual verdade fala Helen?

O corpo de Samantha estremeceu diante da revelação.

— Aquela verdade que nós escondemos dele. Só queria que soubesse antes de entrar naquele quarto. Provavelmente, Matheus nos fará muitas perguntas.