O Tempo Não Apaga
Capítulo 16
— Ok. Oficialmente somos o quê, Matheus? — Haviam concordado que se dissessem a todos que estavam namorando, seria um choque generalizado. Tecnicamente, se conheciam há pouco mais de um mês, segundo Matheus.
— Acharemos uma palavra para isso — disse, beijando o topo da cabeça dela — É importante para você termos uma palavra que defina o nosso relacionamento?
— Posso pensar um pouco? — ela riu — Na verdade, isso é o que menos importa.
Com algumas decisões tomadas, eles continuaram ali no parque. Caminhavam juntos de mãos dadas. Era como nos velhos tempos, lembrou Helen. Ele aproveitou o momento para fotografar sua nova musa de inspiração. Aquilo realmente lhe fazia bem.
— Já que somos “amigos”, está na hora de me contar a verdade sobre esse anel, não acha, ruivinha?
Ela ficou nervosa de repente, e ele notou a confusão em seus olhos.
— Calma, não quero saber o nome do seu ex. Não vou quebrar a cara dele quando descobrir que foi um tremendo idiota por te deixar. Eu juro. Não pode ser do seu ex-marido. Pelo pouco que conheço Fernando, acredito que ele não faria uma coisa dessas. Sei que são amigos, fato que, confesso, me deixa com ciúmes. E pelo que consta aqui — ele disse, tirando o celular do bolso e abrindo suas anotações —, você nunca me disse, de fato, o motivo de usá-lo.
Seria complicado explicar, mas Helen tomou a decisão de contar sua história omitindo os detalhes que o envolviam.
— É difícil, doloroso, mas não é impossível de explicar — tentou fazer com que as palavras saíssem o mais natural possível — Como toda adolescente boba, me apaixonei perdidamente por um garoto que não era qualquer um. Ele era “o cara”. Deixava minhas pernas bambas, minhas mãos geladas, meu coração saltitava todas as vezes que o via. Então, começamos a namorar e, por fim, fui surpreendida com um pedido de casamento — ela suspirou — Estava tudo planejado e...
— Ele não cumpriu com a palavra — Matheus completou com pesar.
— Basicamente. Isso me deixou arrasada, a dor foi insuportável. Em poucas palavras, ele arrancou meu coração sem dar sequer uma explicação cabível. Cheguei a pensar que nunca superaria, mas com o tempo a dor foi diminuindo, ou penso que sim. Então, não se vanglorie por aí dizendo que tem assuntos inacabados. — Estava nervosa com aquela conversa.
Quando Helen começou a falar, Matheus sentiu ciúmes. Por mais que tentasse esconder, aquele cara mexia muito com ela. E por um motivo óbvio, a queria apenas para si, apesar das complicações na vida de ambos. Depois veio a raiva. E se perguntou como um ser humano, em sã consciência, poderia ter machucado tanto a sua ruivinha?
Em todos aqueles anos que se seguiram após o acidente, sentia que seu coração havia sido arrancado do peito, só que não tinha uma explicação para aquela sensação. E agora, os motivos apareceram e ele não sabia como agir. Não queria que Helen soubesse que estava procurando alguém pelo qual, supostamente, ainda estava apaixonado. O certo é que vivia um conflito interno. Apesar de ter certeza sobre seus sentimentos pela mulher andando ao seu lado, também estava certo do que nutria sentimentos pela outra que nem se quer lembrava o nome. De qualquer modo, prometeu a si mesmo que faria de tudo para não magoar Helen.
— Eu não me vanglorio por aí, ruivinha — ele disse, apertando a bochecha dela — Quer dizer que somos complicados e ainda assim quer arriscar? Vamos ver se vai aguentar as complicações do seu novo “amigo”.
Ele disparou um click e captou uma expressão que não conseguia decifrar. Puxou o zoom, focando no pingente, e disparou a câmera novamente. Sentiu uma pontada de ciúme. Sabia o que significava carregá-lo tão próximo ao coração. Ela nunca esqueceria aquela parte de sua vida. Se a quisesse ao seu lado, teria que aprender a conviver com o ciúme que o estava corroendo.
A manhã passou lentamente como se, assim como eles, não quisesse que o momento acabasse. Helen o levou para conhecer seu lugar preferido no parque: a estufa de orquídeas. Conversaram sobre o trabalho dele, a maneira como se sentia relação à profissão, o relacionamento com a irmã e a filha e a mudanças para a nova cidade. Matheus estava extremamente à vontade com a “ruiva indecisa”, como ela mesma tinha se definido. Era engraçado ouvir isso dela, pois de longe parecia uma mulher bem resolvida.
— Às vezes tenho a impressão de que não estava indo embora dessa cidade como minha irmã afirma.
— Por quê? — Ela o olhou, surpresa, enquanto estavam sentados na grama com ele a envolvendo entre os braços. Sempre pensou que ele acreditava cegamente nas palavras da irmã.
— É só um palpite, mas tem algumas coisas que não encaixam na história que me foi vendida. Sei que ela me esconde coisas. Só que Samantha me apoiou incondicionalmente. Tanto com a doença, quanto com a minha filha. Então, acho que talvez ela só não esteja preparada ainda para me contar o que aconteceu. Acabo me sentindo culpado por pensar essas coisas dela.
— E o apoio dela não é o bastante?
— Não, mas ela tem sido uma ótima irmã e uma mãe maravilhosa para Olívia. Já abriu mão de muita coisa na sua vida por nós.
— Ela realmente trata Olívia como se fosse sua própria filha — Helen aproveitou a deixa para perguntar algo que a vinha preocupando — O que aconteceu com a mãe dela? Da sua filha.
— Juliana não sabia como lidar com o meu problema. Tivemos incontáveis discussões durante a gestação. Nossa relação foi se deteriorando. Quando Olívia nasceu, as coisas pioraram, chegando a um nível insustentável. Minha filha sempre foi, e será, prioridade na minha vida. Elas não têm contato — Helen o viu fechar as mãos em punho, estava tenso e irritado — Ela não quis se envolver na criação da nossa filha. E apesar de achar sua conduta errada, prefiro não a recriminar. É uma advogada excelente.
— É uma triste história. O importante é que sua filha tem você e a Sam.
Ele a olhou com admiração.
— Tem certeza de que você não é só mais uma das minhas confabulações?
— Confabulações? O que é isso?
— Em termos técnicos, abre aspas, é uma fantasia que substitui inconscientemente um fato na memória podendo ser baseado parcialmente ou ser um produto completo da minha imaginação, fecha aspas. Traduzindo, coisa de gente que bateu com a cabeça.
— Seu bobo. Sério, você tem essas coisas?
— Tenho, mas não ajuda em nada porque não me lembro de quase muita coisa. Não se assuste, é só mais um dos uns mil sintomas da minha doença. Tem, também, a parte que eu tenho sensibilidade a sons altos, não tenho foco, sofro com dores de cabeças infernais e acordo desorientado pelo menos uma vez por mês.
Ele cortou a parte dos tremores quando ficava nervoso e uma possível convulsão. Já havia acontecido uma vez, logo depois que Olívia nasceu, após uma acalorada discussão com Juliana.
— Nossa, isso é sério?
— Muito sério, mas como tudo na vida, também tem um lado bom. Eu medito quase todos os dias para manter a minha sanidade mental. Além disso, faço palavras cruzadas, jogo xadrez e ouço música clássica, em volume baixo, claro. Sem mencionar que me tornei um exímio fotografo.
— É muita coisa para assimilar, Matheus. E como você sabe se não era bom nessas coisas antes do acidente?
— Intuição. Embora eu tenha a sensação de que já era um bom fotógrafo antes. Ruivinha, estar aqui com você é maravilhoso, mas devo dar satisfação da minha vida para as outras garotas que ficaram na minha casa. Sam deve estar pirando porque, para variar, meu celular descarregou. Eu te ligo assim que souber o que contar a minha irmã e minha filha. Você está certa de que quer embarcar nessa loucura que é a minha vida? Última chance de fugir de mim.
— Qual parte do “eu quero estar com você nessa bagunça” você não entendeu?
— Ok. Então, a gente se encontra por aí nos elevadores da vida — ele disse entre beijos e risos, fazendo referência ao turbulento encontro deles no elevador.
***
Era surreal, Helen pensou. Queria que alguém lhe beliscasse para ter certeza de que tudo aquilo tinha acontecido de fato. Muitas coisas estavam diferentes. Ele agora falava o que pensava sem muitas reservas e tinha aquele ar viril que, a princípio, a deixara bastante assustada.
Agora, mais do que nunca, sabia que o amaria para sempre.
De alguma forma, o sentimento de anos antes continuava vivo e muito mais intenso. Mesmo que não se lembrasse dela. Saber disso foi surpreendente. Aceitou estar em algo indefinido com ele, não por estar desesperada, mas por saber que quando duas pessoas estão unidas por um sentimento verdadeiro, elas sempre dão um jeito para as coisas darem certo, sem se importar com os obstáculos pelo caminho. Eles fariam dar certo. Mesmo que ele não fizesse ideia do quanto tudo significava para ela, estava disposta a arriscar mais uma vez.
A vontade que teve quando chegou a seu apartamento foi de gritar a plenos pulmões. E assim o fez. Queria contar para alguém, pois a alegria que sentia não podia ficar reprimida. Tatiana ia ter um pequeno infarto quando soubesse. Resolveu que iria fazer uma visita à amiga para informá-la das novidades.
Tomou um banho e sentiu-se com a alma lavada e leve como uma pluma.
***
— What?
— Você ouviu direitinho, Tatiana. Eu e o Matheus, aquele cara que me esqueceu, literalmente, estamos numa espécie de relacionamento.
— Garota! Você comeu maionese vencida e está delirando ou ficou doida como eu sempre suspeitei. MyGod!
— Pare de ser dramática mulher.
A amiga estava no ápice da euforia, mas saber nunca seria o suficiente. Helen devia ter imaginado, Tatiana era uma mulher prática e provas concretas eram indispensáveis nesse caso.
Tinha adorado a parte de não rotular o relacionamento por causa dos amigos e do “pouco” tempo que se conheciam.
— Que tal se você dissesse: querido, todos sabem que nascemos um pro outro. Tipo assim, nos conhecemos há uns dez anos.
— E causar um colapso nele? Não, muito obrigada pela dica.
— Falando sério, o que pensa em fazer de verdade?
Definitivamente essa era a pergunta que Helen estava evitando desde que voltara do parque. Não fazia ideia do que aconteceria em seguida e nem queria pensar no que viria depois. Estava pronta para viver o agora.