O Tempo Não Apaga

Crys Carvalho · Capítulo 18 de 32

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O Tempo Não Apaga

Capítulo 17

 

Matheus tentava assimilar os últimos acontecimentos e tinha consciência de que tudo estava indo rápido demais, mas ficava extremamente difícil controlar seus impulsos diante de Helen.

Sentir-se realizado não poderia ser assim tão fácil. As peças deveriam se encaixar perfeitamente. Embora existisse uma tempestade de sentimentos, alguma coisa parecia não fazer parte do quebra-cabeça que sua vida havia se transformado. Realmente, queria estar feliz, e de certa forma estava, mas seu passado incerto o incomodava bastante.

Estava em seu escritório tentando trabalhar em um novo projeto, sem conseguir se concentrar. Pegou o celular, abriu a pasta de fotos e ficou fitando a ruiva que preenchia a tela do aparelho. Lembrou-se do encontro com Helen no dia anterior. Que ótimo! Um conflito interno era tudo que precisava para ficar bem, ele riu de sua ironia.

— Parece que alguém está com dificuldades de concentração novamente. Você não deveria me contar alguma coisa? — Samantha disse ao entrar no escritório e perceber a bagunça na mesa do irmão.

— Me conhece muito bem, não é mesmo, irmãzinha? — Levantou-se e foi até ela. — Acho que estou me apaixonando pela mulher errada, para variar.

Matheus a abraçou. Sam riu.

— Que história é essa de estar se apaixonando? Matheus, você está tão misterioso desde que foi ao parque ontem. Perdi alguma coisa? — fingia estar chateada.

— Talvez. Acho que estou namorando Helen — confessou e ergueu uma sobrancelha — Pronto, falei. Sou péssimo em guardar segredos.

— Isso explica o conteúdo desse envelope — Samantha disse, entregando a ele as fotos do dia anterior que havia mandado para impressão.

Sentou-se no tapete, se se encostou no sofá e espalhou as fotos pelo chão. Eram fotos dele e Helen.

— Me explique, Sam, como é que posso ficar longe dessa mulher? Não consigo evitar a atração que sinto por ela. Sempre perco o domínio sobre minhas atitudes quando o cheiro dela me invade os pulmões, quando os olhos dela se perdem nos meus — falou, mostrando uma foto em que beijava os cabelos de Helen — E o meu passado, como fica?

Samantha estava digerindo as palavras do irmão. Seria possível alguém se apaixonar duas vezes pela mesma pessoa? Uma coisa era a atração, quanto a se apaixonar...

— Posso ser sincera com você? — Matheus assentiu — Esqueça essa história de passado. Talvez seja melhor deixar como está e viver intensamente. Talvez o tempo se encarregue de consertar tudo sem que você interfira.

— Você fala como se fosse fácil, mas não consigo deixar isso para trás. É a minha vida, minha história.

Agora ele olhava fixamente para uma distraída e sorridente Helen.

— Esse sorriso paralisa meu mundo e neutraliza meus medos.

— Que cara de bobo é essa, Matheus? Eu nunca te vi assim. — As declarações do irmão a deixaram pasma.

— Sei que tudo está acontecendo rápido demais. É como se estivesse fazendo algo errado e tem aquela moça que preciso encontrar... E essa minha cara de bobo é exatamente o que você está pensando, e não me olhe desse jeito. Sim, eu confesso que estou apaixonado. — Os olhos dele ganharam brilho ao falar sobre Helen. — É uma coisa que eu não consigo explicar. Como se a conhecesse desde sempre. Como se esse tempo todo, o sentimento estivesse adormecido aqui dentro, esperando por ela.

Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Samantha tentou acreditar nisso por muito tempo. Para ser sincera, não esperava que o irmão se apaixonasse por Helen. Sabia que eles, cedo ou tarde, teriam que acertar erros antigos, mas não desse modo.

Apesar de existir uma enorme possibilidade de que ele não a tivesse esquecido totalmente, que o passado estava lá guardado em algum lugar escuro em sua mente, em parte isso poderia ser ótimo, pois haveria uma chance palpável de seu irmão voltar a ter uma vida normal. Todas as lembranças poderiam voltar, mas por outro lado, se isso acontecesse, traria junto todos os erros que cometeu para tê-lo por perto e acabaria pondo em risco a ligação sólida que levara anos para construir com Matheus. Todas as verdades não ditas teriam que ser justificadas. Ela ainda não estava pronta para isso. Provavelmente nunca estaria.

— O que aconteceu, Sam? Você está em outra dimensão. Não me diga que agora se deu conta de que pode perder seu irmãozinho querido? Está com ciúmes do seu pobre irmão indefeso?

— Faça-me o favor, Matheus. Você está ficando pior a cada dia. Tão insuportável que estou começando a gostar da ideia de ter alguém que te aguente além de mim.

Os últimos acontecimentos a estavam obrigando a se tornar especialista em mudar o foco da conversa repentinamente. Samantha precisava pensar em algo rápido, ganhar tempo e se preparar para o caso de seus medos virarem realidade.

— Caramba, você pegou pesado. Quando foi que se tornou essa irmã amarga? O que fez com a minha doce Sam, aquela que tem uma pilha de papeis esperando por ela na mesa da sala de jantar e uma sobrinha para cuidar?

— Isso mesmo! Tente me expulsar, se livrar de mim. Você tinha que me lembrar de trabalho. A brincadeira estava tão boa... Você é um estraga prazeres, isso sim — disse em tom humorado — Então, o dever me chama, querido. Olivia já dormiu. Fique à vontade. Espero que encontre inspirações para o novo projeto nessa pilha de fotos da sua, sei lá, namorada? — ela franziu a testa, arrancando um sorriso do irmão.

— Ei, você não vai mesmo me contar o que acha disso tudo?

— Matheus, sempre quero o melhor para o meu irmãozinho que amo incondicionalmente. Se nesse momento o melhor para você responde pelo nome de Helen, então agarre essa oportunidade com todas as forças. Não vejo problema algum nisso. Viva sua vida como se não houvesse amanhã e esqueça que o passado existiu. Vire a página e escreva sua história outra vez. Pare de querer revirar o passado e simplesmente viva!

— Uau! Que discurso inspirador. Prometo pensar sobre o assunto.

Samantha deu-lhe um beijo de boa noite e o deixou analisando a bela mulher das fotos. A maneira como Helen olhava para Matheus era como se conhecesse suas virtudes e defeitos. Os cabelos vermelhos esvoaçantes pela brisa da manhã pareciam ter vida própria. Os lábios dela sempre o faziam agir sem pensar. Ele passava as fotos lentamente, admirando a beleza daquela que, de uma forma estranha, sentia que lhe pertencia. De repente, seus olhos encontraram algo que lhe chamou atenção.

No pingente dela havia uma palavra pequena gravada. Como não notou isso antes?

Neoqeav.

Mas não seria possível! A mulher que deveria procurar não poderia ser Helen. Se fosse, ela jamais teria mentido para ele. Pegou seu bloco de anotações e começou a rabiscar. Quem sabe ela conhecesse a pessoa que ele procurava. Aquela palavra não parecia ser tão usada assim entre casais apaixonados.

Tomou a decisão de investigar sobre o pingente que ela carregava. Parecia ser algo exclusivo. Precisava saber qual a relação de tudo aquilo com ele. Alguém naquela maldita cidade, com certeza, teria essa resposta.

Tentou, em vão, lembrar o que ela havia lhe contado sobre a pessoa que lhe deu o anel. Droga, deveria ter escrito no seu celular! Teve a estranha sensação de que ela conhecia a mulher dos quadros. Seria possível?

Surgiram perguntas interessantes e Matheus as escreveu antes que pudesse esquecê-las. Na oportunidade certa, as faria.

***

Ele não havia ligado. Dois dias se passaram. Não haviam se encontrado, nem por acaso. A impaciência de Helen tornou-se visível ao longo do terceiro dia.

— Amiga, sinto muito. Não mandei você se apaixonar por um cara que bateu com a cabeça. Quem te iludiu com a ideia de que ele poderia ligar?

Tatiana tirou o jaleco, colocou sob a cadeira e sentou-se enquanto a amiga pegava um suco na lanchonete do hospital.

— Mais respeito com a minha impaciência, Tati.

Elas riram juntas.

— Menina, isso é muito engraçado. É inevitável rir do seu dilema. Como uma pessoa pode estar namorando o ex-noivo como se tivesse acontecido nada antes. Coisa de louco. E por que você não liga para ele?

Naquele instante, o celular de Helen tocou. Ela atendeu prontamente. Era do laboratório e a decepção estampava em seu rosto.

— Não quero parecer ansiosa, apesar de estar muito. Nunca pensei que me envolveria em uma situação desse tipo. A que ponto cheguei? Esse homem, definitivamente, me deixa doida. Nem uma mensagem, que coisa!

— Isso é só o começo. Você precisa ir para casa e relaxar, acabar com essa tensão que te rodeou o dia inteiro.

Helen realmente tentou. Chegou cedo do trabalho, tomou uma ducha, leu alguns artigos na internet sobre amnésia, começou a ler um livro, isso tudo sem sair de perto do seu celular. Ainda nada de notícias do Matheus. Resolveu descer e andar um pouco no playground do condomínio, esperando que o ar puro a relaxasse. Sentou-se na espreguiçadeira próxima à piscina. Já se passavam das oito e meia quando colocou os fones de ouvidos e apertou play. Fechou os olhos e se deixou levar pela batida da música Baby da banda Malta.

A letra da música quase a estava levando às lagrimas quando sentiu alguém tocar seu ombro. Tirou o fone e abriu os olhos. Matheus estava de pé ao seu lado, sorrindo e fazendo o coração dela saltitar dentro do peito.

— O que há de tão bom em ouvir músicas com fones de ouvidos? Confesso que minha cabeça dói só em pensar.

Ela deu um sorriso bobo levantando-se da cadeira e ele a trouxe para junto dele com apenas uma das mãos. Sentiu o cheiro dela invadir seus pulmões.

— Sério? Então se eu disser que estava ouvindo rock, você surta? — perguntou, tentando ignorar o efeito que o homem causava nela. Na prática, não era assim tão fácil.

— Não, eu gosto também, apesar de não poder ouvir na altura e frequência que desejo — respondeu, enterrando a mão nos cabelos macios dela e inclinando-se para sentir seu cheiro novamente — Senti saudades, sabia? Apesar de não parecer.

A voz rouca dele, próximo ao seu ouvido, a deixou arrepiada e ele riu.

— Gosto disso. Não vai me dizer que sentiu saudades também?

— Modéstia é o seu ponto forte. — Os lábios dele encontram o lóbulo de sua orelha, e ela deixa escapar um gemido. — Senti sua falta.

— Me desculpe — ele disse, se afastando para fitá-la — Precisava desse tempo para assimilar os acontecimentos recentes. Juro que estava mesmo procurando por você, já que a esqueci durante os últimos dias. — Os lábios dela o convidaram para um beijo, e não podia resistir à atração. Sua boca encontrou a dela numa explosão de saudade e o desejo. — Queria te mostrar uma coisa — ele disse entre um beijo e outro e estendendo um envelope para ela.

— Ficaram lindas. As pessoas não mentem quando elogiam seu talento — Helen elogiou, puxando-o para sentarem-se frente a frente.

— A modelo ajudou bastante. Tomei a liberdade de ficar com a mais bonita para mim. Já que estamos numa espécie de relacionamento, não seria bom se eu esquecesse seu nome ou algo parecido.

Helen notou que Matheus estava inquieto, como se tivesse algo para falar.

— Você quer me dizer alguma coisa?

— Na verdade, sim. Lembra quando falei sobre pontas soltas em minha vida e você disse que talvez pudesse me ajudar? — Ela assentiu. — Preciso da sua ajuda com algumas coisas que estão tirando o meu sono.

Matheus tirou seu Smartphone do bolso e mostrou uma foto que Helen conhecia muito bem. Se não tivesse sentada, com certeza teria caído naquele momento.

— Você conhece a pessoa dessa foto?