O Tempo Não Apaga
Capítulo 2.
Helen estava triste e desapontada. Como aquele homem podia lhe causar tantas emoções controversas e fingir que não a conhecia? Aquilo foi mais do que podia aguentar. Uma semana após o reencontro, recebeu um convite para um jantar no salão de festas do prédio. Na verdade, parecia uma reunião de condomínio, porque praticamente todos os moradores do Edifício Valentin estavam presentes, inclusive o novo vizinho, acompanhado por uma loira escultural e sua filhinha. A mulher aparentava ter a mesma idade de Helen, que só então percebeu se tratar um jantar de boas-vindas ao casal.
Eles estavam radiantes de alegria. Os três juntos eram a imagem perfeita da família feliz, o que a incomodou bastante, principalmente devido ao fato de o homem continuar agindo como se ela fosse uma completa desconhecida. Céus! Havia entregado seu coração aquele idiota anos atrás, quando era apenas uma adolescente boba, mas isso não lhe dava o direito de ignorá-la. Mergulhada em seus conflitos internos, nem notou a presença do ex-marido no jantar.
— Uma garota tão legal como você não devia ficar sozinha pelos cantos — Fernando disse tentando animá-la e arrastando-a para o meio da pista de dança — Bem que podia me apresentar aos seus novos vizinhos.
— Ah, por favor, Fernando, pare com isso. Eu mal os conheço direito — ela desconversou.
Helen nunca iria se acostumar com a intensidade que Fernando a fitava todas as vezes que estavam juntos. Seus olhos castanhos claro eram realçados pelo cabelo igualmente castanho e liso. Gostava da maneira como ele parecia não se importar com o passado deles. A amizade vinha em primeiro lugar, e o resto não era da conta dos outros! Ainda dançavam a primeira música quando notou Matheus dançando com a esposa, bem próximo a eles. Aliás, ninguém tinha as apresentado ainda. Tudo o que sabia era seu nome, pois ouviu alguém chamá-la de Samantha durante o jantar. Logo que a música acabou, deixou Fernando dançando sozinho. Não conseguia ficar olhando para o casal feliz ao lado; não deveria ter tantos sentimentos por aquele homem e não sabia de que maneira esquecer tudo aquilo.
Lourdes, uma de suas vizinhas, sentou-se ao seu lado e começou a tagarelar sem parar. Helen não ouvia uma palavra sequer, seus olhos percorriam o salão seguindo o ex-noivo. Já havia passado mais de uma hora quando finalmente seus olhares se cruzaram, deixando as penas de Helen bambas. Ficou surpresa ao notar que Fernando conversava animadamente com Matheus e sua esposa, sorrindo como se fossem velhos conhecidos. Incrível como aquele homem imbecil ainda lhe causava as mesmas emoções. Envergonhada por estar encarando um homem casado, desviou o olhar. Vendo o jeito que o ex-marido estava animadinho, seria capaz de apresentá-la aos dois, já que adorava fazer piada apresentando a ex-mulher para novos colegas.
Então aconteceu o inevitável. Ao fim do jantar, após horas se esquivando para que não fosse novamente apresentada ao dono do seu coração e sua família perfeitinha, Fernando tratou de estragar tudo.
— Helen, venha aqui — estava muito empolgado e sob o efeito do álcool ingerido durante o jantar — Quero te apresentar a umas pessoas!
Óbvio que não queria ir, mas foi praticamente arrastada em direção aos novos vizinhos.
— Matheus, Samantha, essa é Helen Coimbra, minha adorável amiga e ex-mulher. — Ele fez uma careta, depois foi logo exibindo um sorriso travesso.
— Prazer, Matheus Lopes— disse seu antigo noivo, sorrindo e estendendo-lhe a mão — Você mora aqui no prédio? — Ficou confusa, já que haviam sido “apresentados” uma vez.
— Acho que já fomos apresentados — disse, tentando não parecer idiota.
— Ah! Desculpe — falou, desapontado — Um prazer revê-la.
— É um prazer conhecê-la finalmente. Sou Samantha Lopes, Fernando já falou de você o suficiente para ficarmos curiosos. — Notou que a mulher estava surpresa ao vê-la. Os olhos dela, estranhamente, lembravam os de Matheus.
— O prazer é meu. — Sua voz saiu sem graça. Aquilo parecia loucura. Ele tinha elevado o nível da canalhice ao fingir, por duas vezes em poucos dias, que não a conhecia. — O que estão achando do apartamento novo? — Foi a única coisa que veio a sua mente para dizer naquele momento constrangedor.
— Ótimo! Você podia nos visitar um dia desses — a mulher sugeriu.
— Claro que irá. — Fernando respondeu antes que Helen pudesse dizer qualquer coisa — Ela vem tentando ser boa vizinha ultimamente, não é mesmo Helen?
— Ah, sim, é claro! — Disse de maneira distraída, pois estava ocupada analisando Matheus. Ai meu Deus! Aquele olhar fazia a adrenalina correr em suas veias loucamente, mas havia algo diferente nele que ainda não conseguia identificar.
Todos riram e não soube o que tinha feito de tão engraçado.
— Não achei que fosse gostar tanto de morar aqui novamente — o homem tentou desviar o assunto, mas a olhava intrigado, deixando-lhe sem ar por um momento — Olivia está adorando tudo isso.
— Quem? — Perguntou, tentando fugir do olhar dele, mas de uma maneira que não sabia explicar sentia-se presa.
— Minha filha, aquela garotinha — respondeu, desviando o olhar para a garotinha brincando do outro lado do salão, que por sinal lembrava muito ele e a esposa — talvez já a conheça também.
— Oh, sim. A vi no estacionamento, como poderia esquecer? — Precisava urgentemente sair dali, antes que cometesse alguma loucura — Nossa! Afilha de vocês é linda — mencionou quando a garotinha se aproximou, correndo para os braços da mãe.
Não entendeu os olhares surpresos de Samantha, Matheus e Fernando.
— Deve haver um engano — ouviu a voz aveludada de Samantha, que deixou escapar um sorriso — Não somos casados. Epor sinal, nem poderíamos se quiséssemos. Por mais que ame esse homem, ele simplesmente não pode ser meu — o tom dela foi dramático.
Agora estava entendendo nada. Helen não sabia se ficava feliz por descobrir que não eram casados ou se ficava triste por saber que, apesar disso, a mulher o amava.
— C-como assim? — gaguejou, questionando o que havia acabado de ouvir.
— Ah, me desculpe, querida. Esqueci de mencionar que Matheus e Samantha são irmãos — Fernando disse antes que ela pudesse estrangulá-lo com seu olhar.
Inacreditável! Irmãos? Como assim? Até onde sabia, ele não tinha irmãos. Pelo visto, não conhecia nada da vida dele. Ao menos isso explicava os olhares que o ex-marido trocava com Samantha.
— Me desculpe, vi a aliança de Matheus... — disse, desconcertada. Só então percebendo se tratar da aliança que talvez carregasse em seu dedo caso ele não tivesse bancado o covarde.
— Não precisa se desculpar, Helen - foi a vez de Matheus explicar o mal-entendido — As pessoas sempre fazem esse tipo de confusão conosco. — O homem finalizou com aquele sorriso torto que a deixava desnorteada.
Aquilo foi muito estranho. Porque usava aliança e, ao mesmo tempo, fingia não a conhecer?
Fernando e Samantha foram buscar mais bebida e levaram Olívia com eles, que insistia em correr em volta da tia pedindo-lhe algo. Ela e Matheus ficaram a sós.
— Como você consegue fazer isso, Matheus? — explodiu de repente. Estava com tanta raiva que queria esganar esse cara.
— Desculpe, mas sobre o que você está falando? — o homem parecia realmente confuso — Eu... Eu nem sei direito o seu nome.
— Não se faça de bobo, como pode fingir que não me conhece? Usar essa aliança e não saber de nada? Como pôde? — ela cuspiu as palavras.
— Desculpe, mas deveria conhecê-la? O que tem de errado com a minha aliança? — disse, arrumando seus óculos.
Agora parecia mais confuso ainda, porém ser sincero. Não entendeu a reação dele.
— Que bonitinho, se fazendo de esquecido, mas quem faz as perguntas aqui sou eu. Admita que está querendo me torturar. Fugir não foi suficiente?
Eram anos reprimidos.
— Olha, moça, você deve estar me confundindo com alguém ou sei lá o que — acusou, visivelmente irritado — já morei nessa cidade há seis ou sete anos e essa aliança não tem significado claro para mim, mas sinceramente não faço ideia de quem seja você!
— Como assim “essa aliança realmente não tem significado claro para mim”, “não faço ideia de quem é você”? Seu idiota, mentiroso — Helen estava gritando. Ele a puxou para um lugar reservado, esperando que ninguém tivesse escutado qualquer coisa que ela disse.
— Não sei por qual motivo está gritando comigo — disse, tentando controlar os ânimos; sua voz soou estranhamente calma —, mas seja lá qual for o caso, você deve me escutar! Eu. Não. A. Conheço — fez uma pausa entre cada palavra, fazendo que com ela parecesse uma débil mental — Está me confundindo com outra pessoa.
— Não estou confundindo você com ninguém, seu babaca. Poderiam ter se passado até mesmo cem anos que o reconheceria em qualquer lugar do mundo. — Helen podia sentir o rosto queimando, as lágrimas quentes borrando sua maquiagem, o ódio crescendo e transbordando por todo seu corpo. Esmurrava o peito dele sem encontrar as palavras para descrever o que sentia.
Matheus segurou os braços dela com força e ela foi caminhando para trás até sentir-se chocar contra a parede. Estava presa. Ele se aproximou ainda mais, sem desviar os olhos e fazendo com que ela se perdesse em um oceano de incertezas. A respiração descompassada dele dançava nos lábios dela, e o cheiro do homem por quem ainda era apaixonada lhe invadia os pulmões.
— Pare! — ele ordenou em um tom ameaçador, a centímetros de sua boca, e Helen sentiu seu corpo estremecer. Ele não estava fingindo, constatou por fim.
— Ei, o que está havendo aqui? — Samantha perguntou com espanto ao se deparar com o irmão apertando os braços da vizinha.
— Nada — Matheus afirma, se afastando, mas sem tirar os olhos dela — Não é mesmo, Helen?
— Nada mesmo. — Não conseguiu encará-lo e sua voz falhou — Já...Estava de saída. — foi tudo o que conseguiu dizer antes que começasse a chorar.