O Tempo Não Apaga
Capítulo 27
A vida de Matheus sofreu mudanças
significativas nos últimos meses. Ele aceitou uma proposta para supervisionar um grande projeto de uma construtora e passou um tempo no seu antigo apartamento. Não muito, pois não podia, e nem queria, ficar longe da filha. De todos os desafios que enfrentou nos últimos meses o maior deles foi adaptar-se a uma vida que parecia não ser a dele, mas as memórias foram se organizando e logo tudo estava entrando nos eixos.
Sua relação com a filha melhorava a cada dia. Os desafios foram muitos, porém havia se proposto driblar todos eles. Sua relação com a irmã ainda estava abalada, mas lembrar de tudo que havia acontecido entre eles foi libertador. Ainda não conseguiu deixar todos os erros dela para trás, porém estava tentando focar naquilo que ela havia feito de bom. O processo de perdão seria longo. Não é de uma hora para outra que se perdoa algo tão grave. Muita gente não o faria, mas Matheus se prometeu que iria tentar.
Quanto a Helen, não falou com ela desde o incidente. A viu algumas vezes no prédio sem que ela o visse, sempre tomando cuidado para não pegarem o mesmo elevador ou se esbarrarem por acaso. Isso significava que tinha virado uma sombra no próprio lugar onde morava.
Precisava encontrar a si mesmo e só depois acertaria as coisas entre eles. Claro que estava demorando mais tempo do que tinha planejado. Dois meses podia ser tempo demais.
Era manhã de sexta-feira e ele estava em seu escritório, inquieto. Não conseguia se concentrar no trabalho. Sua saúde estava ótima, aparentemente sua cabeça e sua vida haviam voltado ao normal, porém Matheus ainda estava em fase de observação. Tinha uma consulta marcada na parte da tarde com seu neurologista. Não era isso que lhe causava preocupação.
Com as lembranças, ele acabou se reaproximando de um amigo antigo, o Lucas, marido de Tatiana. Precisava de alguém para, de certa forma, guiá-lo pelo caminho certo e ajudá-lo a fazer as escolhas corretas, sem que cometesse tantas falhas como antes.
Lucas tentava fazer com que Matheus voltasse à sua vida normal. Sugeriu que tivesse um círculo de amizade e uma vida social. Conseguiu convencê-lo a conversar com seu irmão, Fernando, e desculpar-se pelo incidente que quase custou o emprego do ex-marido de Helen.
Já estava na hora de começar a consertar as idiotices que havia feito com algumas pessoas que, agora, sabia que eram, na verdade, amigos.
— Você sabe que precisa fazer isso, né? — Lucas disse a ele, na semana anterior, enquanto jogavam uma partida de tênis de mesa em seu prédio — Se você pretende fazer as coisas do jeito certo, é por aí que deve começar.
— Lucas, eu arrebentei a cara do seu irmão. Literalmente — comentou — Mesmo minha ação sendo justificável, já que ele estava com as mãos em Helen, não sei se devo arriscar meu pescoço chegando perto dele.
Matheus sorriu para si mesmo ao se lembrar de seu rompante idiota
— Cara, você não conhece o meu irmão como eu. Garanto que não vai quebrar seu nariz. No máximo, vai quebrar o ossinho do seu mindinho. — Lucas tinha adquirido o hábito de debochar dos medos de Matheus e tentava trazer um pouco de humor para todas as situações. — Sério mesmo? Um cara do seu tamanho com medo do Fernando? Sei que está louco por um conselho meu, então escute bem. Você já fez muita bagunça na vida do meu irmão e da Helen. O melhor que tem a fazer é começar a limpá-la. Vamos fazer o seguinte: na próxima semana, marcamos para tomar um chope e você faz o que deve fazer. E não entenda isso como um convite. É uma ordem!
Sim, ele precisava fazer isso. Era mais um dos obstáculos que estavam entre ele e Helen.
***
O temido dia havia chegado. Matheus estava apreensivo, afinal, ambos amavam a mesma mulher. Havia uma grande chance de eles rolarem pelo chão, quebrarem garrafa sou algumas mesas e cadeiras do bar.
Vinicius também havia sido convidado e os quatro se encontraram no bar como o combinado. No começo, foi bastante estranho, meio constrangedor. Parecia que, a qualquer momento, um arrancaria a jugular do outro. Vinicius tentou quebrar o gelo, falando de coisas idiotas e fúteis como só ele sabia fazer. Quando ambos já conversavam como pessoas civilizadas, Vinícius e Lucas deram um jeito de sair pela tangente e deixá-los acertarem suas diferenças. Outra possibilidade era que quebrassem o bar de uma vez.
— Fernando, talvez você deva imaginar o motivo de estarmos aqui — Matheus começou.
O homem a sua frente não demonstrou surpresa.
— Fiquei imaginando quando esse momento chegaria.
Matheus respirou fundo e falou de uma vez.
— Cara, lamento pelo que fiz a você no outro dia no hospital. Foi um ato inconsequente.
— Inconsequente para dizer o mínimo. Você parecia um animal, um adolescente idiota. Me atacou no meu ambiente de trabalho. Quase perdi o meu emprego por conta do seu rompante. Tem ideia do quanto estudei, trabalhei para ter a posição e o prestigio que tenho hoje? Tudo isso para vir alguém e manchar minha imagem por merda nenhuma?
Fernando tentava conter a raiva, não viera ali para brigar, mas lembrar do incidente o fez querer partir para cima de Matheus. Instinto masculino, ele presumiu.
— Você está certo. Não vim aqui para iniciarmos uma discussão. Eu estava sob muita pressão, muita coisa aconteceu em um curto período de tempo. Ver você e a Helen abraçados foi o estopim. Explodi. Garanto que repensei meus conceitos desde aquele episódio. Então, mais uma vez peço desculpas.
Matheus queria poder dizer mais. Sabia que tinha errado ao agir daquela maneira, porém não ficava muito feliz com o fato de que tinha outro homem dando em cima de sua mulher. Amigos ou não, o fato era que Fernando ainda era apaixonado por Helen.
— Desculpas aceitas. Porém, há algumas verdades que precisa ouvir — Fernando afirmou — Primeiramente, você não tem o direito de bater em qualquer pessoa que abrace a mulher que ama. Se a conhecesse tão bem como julga, saberia que ela é gentil e educada com todos que a cercam. Fui casado por três anos com ela e sim, amo aquela mulher mais que a minha vida. Que fique bem claro que isso não me impede que deixe o caminho livre para você. Portanto, não ouse feria-la. Essa parece ser sua especialidade. Caso isso aconteça novamente, juro que vou atrás de você, nem que seja no inferno, e te farei pagar por cada lágrima que ela derramar.
Matheus o olhava perplexo. Sim, o bom médico o estava ameaçando! E pela maneira como se expressava, iria cumprir com a promessa.
— Eu não quero machucá-la, Fernando. Eu a amo — Matheus se justificou — Por mais que tente, não consigo dizer adeus a ela. Errei quando tentei afastá-la de mim e dos meus problemas. Precisei perdê-la mais uma vez para perceber que se tirar ela de mim, não me sobra nada. Dessa vez, vou fazer do jeito certo. Quero aquela mulher para mim. Preciso dela em minha vida.
Fernando o olhou pensativo. Estava tentando decidir que atitude tomar em relação a Matheus. Não seria fácil entregá-la de bandeja a alguém que já a havia magoado. Entretanto, a sinceridade no olhar do homem a sua frente finalmente o fez tomar a decisão mais sensata. Helen o amava. Não havia mais nada a fazer, a não ser tentar protegê-la.