O Tempo Não Apaga
Capítulo 26
De todas as coisas que haviam acontecido nos últimos meses, Matheus só tinha certeza de uma delas. Amava Helen, apesar do abismo que os separava.
Saber de tudo que Samantha fizera lhe causou um ódio quase incontrolável. Depois, vieram as próprias lembranças e viu as mudanças significativas da irmã. Perdoá-la não seria fácil. Quem sabe um dia? A raiva ainda era recente, assim como a dor de não ter a mulher que amava ao seu lado. Tudo isso o impedia de aceitar o que Sam havia feito. Se as circunstâncias fossem outras, provavelmente relevaria seus erros mais facilmente, porém a realidade era dura. Ele estava ali, sem a Helen. E partia-lhe o coração saber que havia chance de ela voltar para o ex-marido.
Estava fazendo tudo da maneira errada. Agiu por impulso e acabou bagunçando as coisas.
Em seu apartamento, onde descobriu que haviam planejado um futuro junto a ela, encontrou muitas provas do sentimento forte que os uniu um dia, mas tudo parecia tão frágil agora. Na sacada, encarava fixamente aquele velho banco de madeira completamente rabiscado e o pequeno jardim suspenso, que agora sabia que ter sido criado para Helen. Cada parte daquele lugar tinha um pedacinho dela. Como pôde ser tão idiota e achar que, em sete anos, ninguém havia passado por sua vida?
Apesar dos seus conflitos internos, ele sentia-se, de alguma forma, mais leve depois de assumir para si mesmo sua culpa. Às vezes é preciso nos afastar de quem amamos. Não havia dado espaço a ela. Nem sempre um amor épico termina bem.
Não compreendia os motivos de Samantha ter feito todas aquelas coisas que acabaram machucando tanto ele quanto Helen. Entretanto, aquela confusão toda havia permitido que ele se apaixonasse por Helen pela segunda vez. De algum modo, o sentimento ganhou uma magnitude que nunca achou ser possível.
Porém, estava cansado. Com a volta de algumas de suas lembranças antigas, e perda de outras recentes, percebeu que a dedicação da irmã era, na verdade, a forma que ela tinha para se redimir dos males que havia feito. A culpa a corroía de tal modo, que não havia restado alternativa senão viver para ele e Olívia. Além de raiva, sentia pena da irmã.
O certo a fazer agora era pensar. Descobrir, sozinho, o que havia mudado ao longo desse tempo. As lembranças estavam voltando aos poucos e, por mais que não se lembrasse de tudo, precisava entender o que tinha acontecido. Como se tornou aquele cara impulsivo, sem planos para o futuro? E o mais importante: até que ponto Helen havia mudado?
As palavras rabiscadas naquele banco acionaram algo dentro dele. Havia feito uma promessa a Helen anos antes, e não seria uma irmã doida e uma pancada na cabeça que o fariam descumpri-la.
Neoqeav. Leu novamente. Foi em direção à sala, puxou uma cadeira e sentou-se de frente para o quadro na parede.
A lembrança daquele momento invadiu seus pensamentos. O cheiro dos cabelos dela quando a abraçou no momento da foto, o toque macio da pele, o motivo daquele sorriso enigmático no rosto dela. Amar alguém nem sempre é o suficiente para manter essa pessoa ao seu lado. Aprendera ótimas lições nos últimos dias. Nem tudo é o que parece. As pessoas podem agir de diferentes formas, dependendo das escolhas que são forçadas a fazer.
***
— Sei o que você está pensando, Fernando, e não acho que isso seja a coisa certa a fazer nesse momento. Uma segunda chance para nós apenas iria nos ferir ainda mais— Helen estava sendo sincera, e Fernando sempre a admirou por isso — Eu amo você, mas não do jeito que gostaria.
Eles estavam sentados lado a lado no sofá. Era como nos velhos tempos. Fernando segurou a mão dela e traçou o contorno dos dedos. Precisava do contato.
— Me desculpe por isso, Helen— ele disse, rompendo a distância que os separava. Afundou uma das mãos nos cabelos ruivos enquanto ela tocava seu rosto delicadamente. Os olhos profundos, marcados pelo sofrimento, faziam o descompasso do seu coração aumentar. Os lábios se encontraram, sem reservas, em uma saudade contida. Eram braços, línguas, lábios e sons de prazer. Ele sabia que poderia ser feliz ao lado dela — e daria tudo que tinha para poder fazê-la feliz também —, mas a recíproca não era verdadeira. Duvidava que Helen pudesse ser feliz ao lado de qualquer outra pessoa que não fosse Matheus. Saber disso fez com que ele interrompesse o beijo. Por um minuto, eles apenas se entreolharam. Ambos sabiam da verdade. Fernando depositou um beijinho na ponta do nariz dela. O que aconteceu entre eles representava mais do que amor. Era cumplicidade. Eram todas aquelas promessas que nunca deixaria de cumprir.
Foi ele o primeiro a quebrar o silêncio.
— Isso não pode acontecer nunca mais, Helen. Eu amo você, mas precisamos fechar esse ciclo. Preciso disso. — confessou. Se houvesse um pingo de esperança de ficarem juntos, ele não seguiria em frente. Continuaria amarrado a ela — Não suportaria vê-la presa a mim, sabendo tudo que sente por Matheus. Não sou egoísta. Por mais que tente, não consigo. Além disso, não sou um mártir. Não posso me sacrificar eternamente. — Aquele era o momento do desabafo. Precisava verbalizar tudo aquilo que guardava há anos dentro de si. — Entendo que você precisa ser livre, mas essa é uma decisão que tem que vir do fundo do seu coração, querida— revelou. A envolveu em seus braços e beijou-lhe a bochecha — Não posso ser um obstáculo em seu caminho. Sou capaz de abrir mão da minha felicidade para vê-la feliz. Prometo que não vou interferir em suas decisões. Se for preciso, me afastarei de você. Apenas me prometa que buscará sua felicidade, custe o que custar.
Helen suspirou e sentiu um peso enorme sair de suas costas. Muita coisa começou a fazer sentido. Ela precisava da benção dele para seguir em frente. Fernando era muito mais do que seu ex-marido. Ele era seu porto seguro. Só que esse não é o tipo de relação que se deve ter com um homem quando se está apaixonada por outro. É errado e egoísta. Nos braços de Fernando, ela sempre estaria segura. O mundo exterior não conseguiria machucá-la. Mas quem a protegeria dela mesma e de suas próprias decisões? Ela precisava entender o que seu coração dizia, sem temer as consequências.
— Você me promete que ao menos tentará ser feliz, Helen?
— Prometo, mas não me diga adeus, por favor. Não conseguirei fazer isso sem você — ela suplicou. Não entendia o porquê, só não conseguia se afastar dele.
— Estarei aqui. Prometo não arrebentar a cara daquele babaca.
Eles sorriram juntos.
Ainda havia tempo para reparar os erros.
Ficaram ali, abraçados em silencio, até adormecerem. Estavam em paz consigo mesmos.
Aquele era o tipo de amor que raramente acontecia na vida. Algumas pessoas tinham mais almas gêmeas do que deveriam, e nem todas elas estavam destinadas a ficarem juntas no sentido amplo da palavra. Estariam ligados para sempre por um fio frágil e invisível chamado amizade.
***
Helen acordou com o pescoço dolorido e sem saber ao certo onde adormecera. Tinha a sensação de que havia sido atropelada por um caminhão e alguma parte dele ainda estava em cima de suas pernas, pois não conseguia movê-las. Abriu os olhos e viu a cena embaraçosa na qual se encontrava com Fernando. Eles haviam dormido no sofá-cama, mas não juntos, se é que conseguia explicar. O caminhão era as pernas dele.
Se Matheus fosse seu ex-marido, as coisas seriam muito mais fáceis.
Ela saiu de fininho, pegou sua bolsa e foi embora. Não queria acordá-lo. Sabia que ele estaria de mau humor pela posição que dormira. Hoje seria o primeiro dia de sua busca real pela felicidade e já sabia por onde começar. Não queria ser vista pelos vizinhos fofoqueiros de Fernando, às seis horas da manhã. Por isso, se esgueirou pelas escadas o mais rápido que pôde como se tivesse feito algo fora da lei.
Suspirou aliviada ao chegar à sua casa. Ligou o celular e deixou a rádio tocar. Colocou o objeto em cima da pia do banheiro, ligou a ducha e deixou a água lavar a sua alma, massageando os pontos doloridos em seu corpo. Os pensamentos divagavam, arquitetando planos para o novo começo, quando a música lhe chamou atenção.
Te confiei o meu destino
Mesmo ele sendo irreal
Os nossos planos mais bonitos
Hoje ficaram tão lá atrás
É que talvez a gente tenha a vida inteira
Mas o talvez é tão vazio uma besteira
E eu já nem sei mais
Você se foi
E eu virei o vazio de alguém
Uma metade qualquer
De uma música sem começo
Eu já nem sei pra onde foi nosso final feliz
No começo eu sei que não foi nada disso
Que a gente quis
Aquela música sem encaixava perfeitamente no caos de sua vida e a fez refletir sobre o que sentia por Matheus e Fernando. O primeiro, era tempestade. O segundo, calmaria. Por mais que agora estivesse lutando contra o que sentia pelo ex-noivo, devia admitir que ele era a sua outra metade. O homem com quem estava destinada a dormir e acordar todos os dias. Ele fazia suas mãos suarem, seu coração bater fora do compasso, suas pernas tremerem. Apesar de todos os obstáculos, seu lugar sempre seria ao lado de Matheus. Não conseguia negar isso.
Precisava de tempo para pensar um pouco, reorganizar a bagunça que havia se transformado sua vida e, apesar de saber exatamente o próximo passo que daria, ela precisava estar em paz consigo mesma. Outro ponto a ser pensado era como resolver suas diferenças com Samantha. Por mais que quisesse — e pudesse — culpá-la por tudo que fizera, não tinha mais espaço para ódio e rancor em seu coração. Estava em uma missão: a busca de sua felicidade. Samantha já havia feito com que ela fosse infeliz uma vez. Nutrir sentimentos negativos pela mulher era uma forma de deixar que essa infelicidade permanecesse em sua vida. Ela não podia permitir isso.
Mais uma coisa que precisava fazer era comunicar suas recentes decisões a sua melhor amiga. Colocaria um ponto final no plano idiota de vingança de Vinicius e tiraria um tempo para si mesma, afinal, sua felicidade dependia da sua paz interior.
As coisas entre ela e Matheus ficaram confusas depois do último acontecimento. Talvez, ele também precisasse de um tempo para processar tudo que perdera, fortalecer os laços com a filha e compreender os motivos idiotas que levaram Samantha a cometer tanta burrada de uma única vez.
Apesar de todos os obstáculos que o separavam, não conseguia ver seu futuro sem ele novamente. Pensar naquilo causava-lhe uma dor aguda no peito.
Diminuiria suas expectativas e esperaria menos das pessoas.
Resolveu escrever tudo o que gostaria de dizer a ele e mostrar que, apesar do incidente do dia anterior, a essência dos seus sentimentos continuava sendo a mesma.
A carta
Depois de tantos sonhos jogados ao chão, depois de tantas perdas, eu aprendi a viver sem você. E quando achei que tudo estava bem, por uma loucura do destino, somos colocados frente a frente mais uma vez.
E todas as antigas emoções me invadem. Meu corpo me trai e não consigo evitar a foça que me empurra até você. Nos esbarramos, e o impacto deixa tudo em minha vida de pernas para o ar.
Sinto sua falta!
Sei que tudo foi real, não um sonho. Cada beijo, cada olhar, cada promessa não cumprida. Não importa o que aconteça, meu coração irá parar por alguns segundos todas as vezes que eu ouvir o som da sua voz. E sei que eu farei a dor no seu peito aumentar cada vez que nossos olhos se encontrarem.
Mas não deixarei ir, não dessa vez! Sei que foi você quem me escolheu. Me tornei dependente de você. E quanto mais me afasto, mais aperta o laço invisível que nos une.
Entreguei-te meu coração, meu primeiro beijo de amor, meu primeiro olhar apaixonado, o primeiro “eu te amo”.
Perder você uma vez foi a pior coisa que me aconteceu. Andei em todos os lugares que estivemos, reli cada carta, cada bilhete, e nada disso o trouxe de volta. Agora que você está aqui, perdemos tempo com discussões idiotas que não nos levam a nada.
Depois de tantas brigas tolas, eu não quero perder novamente.
Mas esperarei o tempo necessário.
Ainda há tempo para nós dois!