O Tempo Não Apaga
Capítulo 21
Samantha não dormiu, preocupada com o que viria pela manhã. Não queria contar à pequena Olívia que seu pai não se lembrava dela. Seria uma tarefa extremamente difícil. Nunca tinha acontecido daquela forma. Os apagões estavam mais frequentes nos últimos dias, mas sempre voltava antes que a filha pudesse perceber.
Ligou para Helen. O celular chamou até cair na caixa postal. Sabia que a cunhada tinha todos os motivos para estar furiosa, só que precisava saber se Matheus estava bem depois da segunda convulsão. Poderia tentar falar com o médico, mas desistiu assim que se lembrou da ceninha que tinha feito no auge do desespero.
Sentiu vergonha. Ele tinha que ser o "Dr. Perfeitinho"? Cara idiota com síndrome de príncipe encantado e, infelizmente para ela, o médico a tinha deixado perturbada, incomodada.
Percebeu que não sabia nada sobre ele e a curiosidade falou mais alto. Digitou seu nome no Google e ficou pasma com a quantidade de informações que encontrou. Diversos artigos científicos publicados. Recentemente, estava desenvolvendo, com um dos médicos mais renomados do país, pesquisas com células-tronco em doenças neuro degenerativas. O cara era o cavaleiro da armadura brilhante. Um jovem prodígio da medicina, e só tinha trinta anos.
Teria que encontrá-lo antes que o plantão acabasse. Precisava que Dr. Vinicius esclarecesse algumas dúvidas. Contaria sobre os apagões do irmão, com certeza ele teria as respostas certas.
Juntou as coisas de Matheus que julgava importantes: a agenda e sua caixa de fotos. Provavelmente, os itens o ajudariam a lembrar. Pelo menos tinha uma babá para ajudá-la com a sobrinha, o que a deixava mais tranquila.
A caminho do hospital, Samantha tentava pensar racionalmente. Já cometeu muitos erros em sua vida. Passava da hora de começar a consertar alguns deles. Há tempos, tinha parado de agir como uma adolescente boba, mas a possibilidade da solidão a deixava sem chão.
Não desmoronava facilmente, porém aquela cidade, com todas aquelas consequências das suas próprias escolhas, a deixava com os nervos à flor da pele.
Encontrou "Dr. Perfeitinho" saindo da ala de internação, dando ordens às enfermeiras, que agiam como se fossem vassalas dele. Vinicius a viu e exibiu um belo sorriso, mostrando as covinhas na bochecha. Sam teve a sensação de que era um sorvete derretendo no calor do verão. Droga! Acreditaria em qualquer bobagem que saísse daquela linda boca.
Controle-se Samantha, você está aqui pelo seu irmão! Sua consciência, agora, tinha resolvido dar o ar da graça.
Ela riu de volta e acenou para ele.
— Olá. Tudo bem, Samantha? Está mais calma? Ontem você parecia estar fora de si, por isso me senti na obrigação de intervir. A propósito, não fomos apresentados da maneira correta. Podemos começar de novo?
Ela assentiu, mesmo encabulada.
— Sou o Dr. Vinicius Pantoja, o neurologista que está cuidando do seu irmão.
Pela forma seca como se apresentou, Samantha percebeu que ele já sabia quem ela era e o que havia feito.
— Samantha Lopes.
Ela o seguiu até o consultório.
— Bem, Samantha, como eu disse a Matheus e Helen, seu irmão vai fazer mais alguns exames e ficará em observação por mais um dia. Quando tiver alta, o ideal é que continuem a rotina normalmente. Seu irmão se encontra em um estado de confusão mental devido aos últimos acontecimentos. Então, é comum que ele não reconheça algumas pessoas agora. Ele teve algum sintoma ou algo que poderia indicar que as coisas não estavam bem nas últimas semanas? — o médico explicava a situação de forma clara e sucinta.
— Doutor, meu irmão teve apagões nas últimas semanas. Acordava sem saber onde estava, quem eu era. Depois do acidente, ele ficou com dificuldades de concentração, mas agora isso tem piorado bastante. Ele esquece as coisas com mais frequência que o normal. Fiquei muito preocupada. Inclusive, marquei uma consulta com o médico dele. Será na próxima semana.
O médico travava uma guerra interna para agir profissionalmente. Afinal, ela era a irmã do seu paciente. E Fernando afirmou veemente que ela era uma serpente venenosa. Tinha a carta e o fato de que havia separado Matheus de Helen. Nada estava a favor dela. Sabia muito bem o quanto todos aqueles anos foram difíceis para a amiga.
— No caso de Matheus, especificamente, os sintomas podem estar associados à mudança de cidade. Pode ter sido a nova rotina ou talvez ele tenha forçado bastante em busca das lembranças perdidas. São muitos os fatores que podem ter contribuído para isso. Terei que fazer um acompanhamento para saber a causa exata.
— Existe alguma possibilidade de essa perda de memória ser permanente? De ele nunca se lembrar de mim ou da sua filha? - O medo estampado no rosto dela era visível.
— Samantha, sinto muito, mas não posso afirmar se é permanente ou não. Será necessário fazer mais exames para termos certeza.
— Trouxe as anotações dele e algumas fotos. Vamos ver se ele consegue se lembrar de alguma coisa. Tudo bem?
— Sim, não vejo problemas. Não se preocupe, ele ficará bem. Dependendo dos resultados dos exames, amanhã mesmo ele já terá alta. Na verdade, ele nunca esteve melhor. Não imaginei falar isso um dia, mas estou feliz que ele tenha voltado.
— Então, também o conhecia? — Samantha deveria ter adivinhado, mas pensou que ele era apenas colega de trabalho de Helen.
— Claro, éramos amigos. Confesso que sempre achei que ele fosse voltar um dia para que eu pudesse ter a oportunidade de lhe dar uns bons socos — o médico riu com a lembrança —, mas no fundo, sempre pensei que havia uma explicação lógica por trás de toda aquela confusão depois que ele partiu. Porque todos nós sabíamos que Matheus jamais deixaria Helen, ainda mais da maneira repentina que tudo aconteceu!
Ela notou a admiração na voz dele. O irmão, de fato, tivera bons amigos ali. Se tocou do quão desprezível tinha sido. Aquelas pessoas tinham o direito de odiá-la, não podia culpá-las.
— Eles são incríveis juntos, não é mesmo? - Sam diz por fim - Sabe, ao longo desses anos todos, eu me arrependi das coisas idiotas que fiz. Sempre tive medo da solidão, e sem meu pai era exatamente isso que me aguardava. Não justifica nada. Eu sei que fiz tudo do jeito errado.
Vinicius viu os olhos dela brilharem com as lágrimas não derramadas.
Sério que aquela era uma cobra peçonhenta?
— Eu não sou a melhor pessoa para você dizer isso, Samantha. Existem rumores pelos corredores desse hospital de que eu não tenho coração. Não sou o mocinho bonzinho que sai perdoando todo mundo, nem acredito que o que você fez seja uma coisa perdoável. Não foi muito inteligente da sua parte esconder o passado do seu irmão!
O homem adotou um tom sério e a sua voz altiva fez com que ela afundasse na cadeira.
Bem feito. Quem mandou ser idiota, Samantha?!
— Como eles eram antes? Eu vi as fotos que Matheus guardava. Os sentimentos deles eram como a gente pode ver nas imagens?
De fato, estava curiosa. Mas pelo amor de Deus, aquele cara era um enigma e um convite à perdição. Uma hora ele era um príncipe galante, na outra, era um amigo dedicado e leal. Queria arrumar motivos para ficar mais tempo ali.
— Infelizmente, essa conversa deve ficar para outra hora. Estou de saída e preciso descansar. Tive uma noite cheia, se é que me entende. Tenho que voltar ao hospital daqui apouco — Samantha não conseguiu esconder seu despontamento, ele a tinha dispensado.
***
O casal dormia quando Samantha entrou no quarto. Ela parou e observou por alguns minutos a cena a sua frente. As lágrimas ameaçaram cair. Eles pareciam tão perfeitos juntos. Era uma coisa que emanava deles, o braço protetor do irmão em volta de Helen e a expressão de pura tranquilidade em seus rostos, mesmo dormindo, confirmavam que eles estavam no lugar onde sempre deveriam ter estado: ao lado um do outro.
Merda! Era o pior ser da face da terra!
Claro que, naquela época, se convenceu de que tudo o que havia feito fora em nome da família que queria ter. Principalmente por causa da dor e do desespero que sentiu quando se viu sozinha em meio a toda aquela bagunça. Matheus foi sua chance. Havia sido egoísta? Claro!
Pelo impacto causado nele após apresentar-se como sua irmã, ela imaginou que a abandonaria no momento em que voltasse a lembrar do ocorrido. Solidão e abandono foi tudo que temeu durante sua vida, especialmente após a morte de sua mãe.
Só agora entendia a dimensão do problema que se metera. Nunca se atentara para o fato de que atitudes erradas sempre vêm com um preço que, às vezes, como no caso dela, poderia ser alto demais.
Sem falar que existia uma pessoa inocente no meio disso tudo: Olívia. Tentava reunir forças para contar o que havia acontecido a Matheus. Machucar aquela criança tão inocente seria uma árdua tarefa. Tudo por conto dos erros de uma tia desesperada. Isso nunca esteve em seus planos.
Ninguém a perdoaria. Tatiana seria capaz de esfolá-la com as próprias mãos. Era possível que não voltasse a ver os misteriosos olhos de Fernando tentando decifrá-la, e com certeza não teria a mínima chance de Vinicius acreditar nela e em suas boas intenções.
O fato é que estava sozinha e perdida, sem poder culpar ninguém além de si mesma pela sua dor. Apesar de todos os seus esforços, acabaria como sempre temeu: esquecida e abandonada em um canto escuro.
Sentou-se na poltrona ao lado da cama, onde o casal dormia serenamente, e deixou que as lágrimas viessem sem se importar, a dor era dilacerante.
O que você fez da sua vida, Samantha?
— Oi, o que aconteceu? — Helen disse, ainda sonolenta. Não se lembrava dos últimos acontecimentos.
— Apenas consequências das minhas péssimas escolhas — confessou.
— Nossa! — Helen recordou-se da noite intensa que tiveram — Tudo isso foi mesmo real? Por um momento, achei que tinha sido um sonho ruim.
Samantha, agora, tentava controlar o choro.
— Eu sei que não mereço seu perdão, Helen, muito menos o dele — enxugou as lágrimas — Agora, mais do que nunca, Matheus vai precisar de você. Por favor, o ajude a lembrar da filha. Sabe a importância daquele pingo de gente em nossas vidas. Trouxe algumas coisas que talvez o faça lembrar — ela falou, retirando a agenda e a caixa com as fotos de dentro de uma bolsa.
— Você acha que eu seria tão egoísta a ponto de não o ajudar a recordar da própria filha? — Helen acusou.
— Me desculpe se a fiz pensar dessa maneira. Não precisa me punir. Estou sofrendo muito com tudo isso. Claro que não espero que vocês me entendam. Por favor, não conte a ele agora, espere um pouco mais.
— Com qual objetivo esperaria um pouco mais, Sam? — a voz rouca de Matheus interrompeu as súplicas da irmã.
— Mas eu pensei que... — Samantha não conseguia acreditar. Ele sabia quem ela era. As palavras não saíam por mais que tentasse pronunciá-las.
— Pensou o quê, Sam? Que não me lembraria de você? — ele ria da expressão no rosto da irmã — Lamento informar, mas me lembro muito bem de tudo aquilo que você fez. Fora as coisas que eu ainda desconheço. Pode ter certeza, irmãzinha, que você me deve muitas explicações.
Ela não sabia o que responder. Por um lado, estava feliz pelo irmão. Por outro, temia a reação dele quando descobrisse o que mais ela havia feito. Logo ele a odiaria. Tentou esconder as lágrimas que ainda teimavam em cair.
— Nossa, é tão ruim assim? — Ele percebeu a cara de assustada de Samantha. Helen, também, não parecia feliz com a presença da outra. A tensão entre elas era evidente.
— Fique tranquilo. Se concentre em sua recuperação. Quando tiver alta, conversaremos sobre tudo. Pode ser?
— Concordo com Samantha. Você precisa ficar bom logo. Depois, ela se explicará. Por enquanto, ficaremos aqui até que Vinicius o libere — Helen afirmou. Estava apreensiva e temia que a verdade pudesse interferir na recuperação dele.
— Sei que está escondendo algo muito sério, Sam. Conheço você e sua cara quando está mentindo para mim — ele acusou.
— Agora não, Matheus. Por favor — Samantha implorou — comece lendo suas anotações. Eu trouxe sua agenda e as fotografias que você guarda. De repente, elas podem esclarecer algumas dúvidas. Deixaremos a conversa para quando estiver em casa e recuperado.
— Acredito que essa opção é melhor do que ficarem discutindo. Pelo menos por hoje, seria melhor evitar certas emoções. Não é mesmo, Sam? — Helen a olhou de forma reprovadora.
Samantha suspirou aliviada. Tudo tinha acontecido rápido demais. Agora que ele tinha consciência de seus sentimentos por Helen, não acreditaria naquela história fajuta que tinha inventado.
— Tudo bem. Sei que as duas estão me escondendo alguma coisa. Sam, não me olhe assim. Sei decifrar cada gesto seu, não se esqueça disso. Quanto a você, Helen, espero que possa me dizer o motivo dessa troca de olhares — ele disse, gesticulando — Onde está minha filha?
— Você não a esqueceu? — Um sorriso iluminou o rosto dela por um momento.
— Não me lembrei de imediato, mas a Helen falou sobre ela. Vi as fotos e vídeos em meu celular. O que disse a ela de tudo isso?
— Agora, ela está na escola — explicou — Só contei que você estava doente e precisou dormir no hospital. Sinceramente, não sei o que dizer a ela.
— Eu quero vê-la — ele interrompeu a irmã.
— Acha que está preparado para vê-la?
— Sam, eu sei o que estou fazendo. Que droga! Está tudo tão bagunçado na minha cabeça. Tem certeza de que é minha irmã? — A mulher se assustou com as palavras dele. Nunca haviam chegado a esse nível e ela não sabia qual direção tomar. — Me diga uma coisa, como é a minha relação com Olívia?
— Você dedica muito do seu tempo a ela, quando não está trabalhando, e saem muito juntos. Matheus, sua filha é o ar que você respira. O seu medo de esquecê-la foi tão grande que você tatuou o nome dela em seu braço. Fotografa e escreve sobre ela todos os dias. São centenas de vídeos dela no celular.
— Soa exatamente como achei que seria. Contaremos o que aconteceu a ela. E por favor, não estrague tudo dessa vez, Sam — Matheus pediu. Estava confuso, mas se lembrava o suficiente para saber que a irmã não havia sido a santinha que ele imaginara. - Eu preciso de um tempo para digerir tudo isso. Concordo com vocês. Acho que ler minhas anotações me deixaria atualizado quanto às mudanças recentes. Creio que não seria justo com uma criança envolvê-la em mais mentiras. No momento certo, iremos colocar em pratos limpos todas as lacunas que preciso preencher.
— Tudo bem, Matheus. Prometo fazer tudo exatamente como você quiser — a irmã disse, submissa.
— Acho bom mesmo! Por favor, me deixe a sós com Helen. Merecemos um pouco de privacidade — ele dá um meio sorriso para a namorada— Sam, nada pode me tirar da cabeça que você tem muita culpa nisso.
— Tudo bem. E o que eu faço sobre Olívia? Quando posso trazê-la?
— Vou ler as anotações. Assim que tiver clareza sobre algumas coisas, te aviso e você a traz aqui— ele sugeriu e Sam fez que sim com a cabeça.
Pouco depois, se despediram. Samantha saiu do quarto cabisbaixa. Quando fechou a porta, não conseguiu mais segurar o choro. Ao menos ele se lembrava dela e da filha, mas sabia sobre Helen e logo teria que encontrar uma maneira de contar tudo a ele. Não conseguiria continuar com aquela dor insuportável em seu peito.
O Matheus que conhecia havia sido moldado por ela. Suas certezas, seus gostos e seus medos. De certa forma, dependia totalmente dela. E o Matheus que estava naquele hospital era uma pessoa que ela não conhecia.
Agora, com tudo diferente, ela precisaria conhecê-lo novamente, e as pessoas capazes de ajudá-la queriam vê-la pelas costas. Ela daria um jeito. Não podia perdê-lo, nem a sobrinha. Eles eram sua família e nada mudaria isso.