O Tempo Não Apaga

Crys Carvalho · Capítulo 30 de 32

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O Tempo Não Apaga

Capítulo 29

 

Helen abriu seu livro, tentando esconder o nervosismo, e deu de cara com um pequeno papel dobrado. O que estava escrito?

Neoqeav.

Olhou de um lado para o outro, surpresa. Não seria possível que ele estivesse ali.

Como ele conseguia fazer aquelas coisas sem ser pego?

Escolhera o assento do corredor para evitar um possível ataque de pânico. Não que tivesse algum tipo de fobia por estar dentro de um avião, mas sempre ficava assim antes da decolagem. A comissária informou que os últimos passageiros haviam entrado.

— Uma mulher tão linda não deveria viajar desacompanhada. — Helen sentiu um arrepio em sua nuca e seu coração disparou loucamente ao ouvir aquela voz.

— Matheus?! O que faz aqui? — ela exclamou, virando-se para fitá-lo. Ficaram presos nos olhos um do outro até que um passageiro os interrompeu.

— Seria bom se você sentasse, moço — o homem repreendeu Matheus.

— Desculpe — ele pigarreou e disse voltando-se para Helen — Viagem de negócios. Pode me dar licença? Meu assento é ao lado do seu.

Só agora ela percebeu que os assentos ao seu lado haviam ficados vazios. Uma tempestade de emoções invadiu o corpo de Helen quando ele sentou. De repente, aquele avião parecia minúsculo. Todas as velhas emoções estavam de volta. O ar lhe faltou. Ele estava ali e os sentimentos antigos se misturavam aos novos em um frenesi quase incontrolável.

O analisou pela visão periférica. Ele estava vestindo uma calça cáqui, uma camiseta branca — que mais parecia uma segunda pele sob os músculos do abdômen dele — e uma jaqueta de couro preta finalizava o look de vestido para causar. Só podia ser brincadeira. Ela seria torturada durante as três horas de viagem. Matheus exibiu um sorriso presunçoso, pois percebera que ela o olhava disfarçadamente.

Não se renda a esse sorriso idiota Helen. A sua voz interior repetia como um mantra.

O homem ao seu lado inclinou o assento, tirou os óculos, fechou os olhos e virou o rosto para a janela. Ele a estava testando em um cabo de guerra silencioso. Qual dos dois aguentaria mais tempo sem falar? Estava determinado a fazê-la perder. O sorriso patético no rosto dele desafiava a autoconfiança dela.

— Tudo bem, desisto. Não vou passar horas ao seu lado sem falar nada — Helen disse — Que fique registrado que você é um trapaceiro idiota que sabe perfeitamente como me fazer entregar os pontos.

Matheus a encarou com um sorriso vitorioso.

— Você nunca soube perder, querida, e eu sempre fui um bom trapaceiro. Certas coisas não mudam, nem com uma batida na cabeça. Sobre o que quer conversar?

Ele tirou algo do bolso e começou a brincar com o objeto. Aquilo a irritou até conseguir distinguir o que era. H. Neoqeav. Ela conseguiu identificar a palavra escrita dentro da aliança. As lágrimas ameaçaram cair. Tinham escolhidos juntos aquelas alianças. Depois que sumiu, achou que nunca mais a veria novamente.

— Que tal começarmos por promessas não cumpridas — ela sugeriu, retirando a aliança da mão dele e sentindo o descompasso do próprio coração.

— Tem certeza de que quer falar sobre isso aqui?

— Claro! Você provavelmente vai virar fumaça na hora que o avião pousar e eu nunca saberei o que realmente aconteceu entre nós.

— Ok! Essa foi ótima, Helen. Mas que tal começarmos por uma noiva que não foi atrás do noivo quando o perdeu? Quem sabe por um casamento não mencionado? Também podemos começar por um namoro baseado em mentiras que acabou mal...

Ali estavam as dúvidas de Matheus; o que lhe causava sofrimento. As faíscas foram palpáveis. Eles se encararam por longos minutos sem falar nada, como se o silencio pudesse responder perguntas complicadas. Matheus tocou a mão dela hesitante.

— Você não respondeu minha mensagem — sussurrou — Sei que leu, mas quero perguntar novamente olhando nos seus olhos: me perdoa, ruivinha? — Ele encostou os lábios na mão de Helen, dificultando sua capacidade de raciocinar direito. — Sei que quebrei muitas das promessas, mas que droga! Agi como um adolescente idiota e tive ataques de ciúmes impróprios. Sim, mas e você? Ao que me consta, depois que sumi, você nunca foi atrás de mim. Simplesmente aceitou minha partida sem contestar. Não me revelou, no nosso reencontro, quem era de verdade e o que representei para você um dia.

Ela levantou a outra mão, pedindo para que ele parasse. Não podia ser acusada daquela forma.

— Tem ideia do que passei quando você sumiu? — ela disse, fechando os olhos. Tentou conter aquela onda de dor e raiva que lhe atingiu como um soco no estômago — Prestei queixa do seu sumiço na delegacia e o delegado deu início às investigações depois de muita insistência. Após alguns meses de angustia, ele me chamou em sua sala, com um sorriso debochado no rosto, e me mostrou um registro de uma câmera de segurança. No vídeo, você entrava em um carro sem placa acompanhado de uma mulher que ninguém havia identificado. Agora sei se tratar de Samantha.

Matheus estava estupefato diante de toda aquela história. Ela havia procurado por ele!

— Não sei se me perdoaria se fosse você — ele confessou em meio à confusão de sentimentos que sentia.

— Claro que perdoaria. Afinal, a culpa não foi inteiramente sua.

— Por que não me contou tudo? Por que escondeu o relacionamento que teve com Fernando? Sinto muito, ruiva, mas foi extremamente difícil ver a minha namorada abraçada a outro homem como se a sua vida dependesse daquilo!

Helen riu, limpando uma lagrima teimosa.

— Não aconteceu bem assim, Matheus. A maior parte disso é fantasia dessa sua cabeça maluca. Realmente, cumprir promessas não é o nosso forte, mas precisava agir da daquela forma com Fernando? Ele é importante para mim, me apoiou em momentos que achei que não ia conseguir, me tirou do meu próprio abismo e eu o amo por tudo isso.

— Sério que ama aquele cara? Sou ciumento, Helen. Sempre fui. Não quero ter mais motivos para entrar em brigas. Acho que já passei da idade. Só que te ver com outro homem me enche de raiva e sinto vontade de socar o filho da mãe.

— Não, você não vai fazer isso. O amor que sinto por ele não é o que pensa — ela explicou. Estava feliz por conseguir, finalmente, verbalizar o que sentia — O nosso amor é lindo, mas não é esse tipo de amor que compartilhamos.

— Por favor, poupe-me dos detalhes, Helen. — Se remexeu inquieto na cadeira — Eu tinha razão em ficar louco de ciúmes como qualquer pessoa. Coloque-se no meu lugar. — Ela se imaginou naquela situação. Já havia passado por isso quando viu o vídeo de Matheus e Samantha. A sensação era horrível. — A verdade é que não tenho palavras para explicar o que você causa em mim. Ora vamos, ruivinha! Não devo ser um cara tão ruim assim, afinal, me apaixonei pela mesma mulher duas vezes, e a última vez foi avassaladora.

— Quando se tornou esse cara? Porque acho que perdi muita coisa sobre você nos últimos anos.

— Querida, quando a vida nos dá um choque de realidade é preciso mudar de atitude diante dos problemas. Pelo que me lembro, você gostou muito desse cara cheio de atitude que invadiu a sua vida.

As bochechas de Helen começaram a queimar e ele a tocou.

— É uma das muitas coisas em você que me deixa louco!

— Esse seu novo “eu” me faz lembrar de umas loucuras que fizemos uns meses atrás.

— Quer reviver novamente? Estou aqui.

O homem pegou a sua mão e a levou aos lábios quentes. Havia esquecido a habilidade dele de fazer com que todo seu corpo virasse uma gelatina apenas com um toque.

A última frase dele a fez desistir de tantas explicações.

A vida é muito curta para perder tempo com brigas inúteis e discussões sem sentido. Não seria melhor se gastassem o tempo se perdoando, se beijando e se amando?

Ele não podia ser sua outra metade. Havia tantas partes diferentes entre eles que talvez nunca se encaixassem. Ele não a completava, simplesmente bagunçava sua vida todas as vezes que entrava nela. Era o tipo de bagunça que fazia o que sentiam aumentar cada vez mais, desejar cada vez mais a presença um do outro.

E o que seria do amor se não fossem as diferenças?

Ficaram de mãos dadas com seus rostos tão próximos que ela sentia a respiração dele em seus lábios. O olhar de Matheus tinha aquele incrível poder de fazer seu coração disparar, suas mãos suarem e suas pernas fraquejarem. Por sorte, estava sentada.

Seus lábios encontraram-se, desesperados. Era mais do que amor. Era completude. Sem o outro, um não poderia ser feliz. O beijo era carregado de saudade, de vontade, de paixão. Não era o suficiente. Queriam mais. Precisavam de mais.

A voz da comissária de bordo os interrompeu, quebrando a mágica. O avião estava prestes a pousar, e Helen havia chegado ao seu destino. Lembrou-se de que não sabia para onde Matheus estava indo.

— Não disse para onde vai, Matheus. — Ela apertou a mão dele quando sentiu o trem de pouso tocar o chão.

Ele exibiu um sorriso enigmático, omitindo a reposta propositalmente. As pessoas começaram a se levantar e pegar suas bagagens de mão.

Despediu-se com um olhar triste e andou vacilante sob o olhar de Matheus para a saída.